No fio da navalha, presidente do Paraguai se vê refém do político mais poderoso do país

Ex-líder paraguaio Horacio Cartes vira fiador de atual governo ao controlar ala de deputados do Congresso

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Buenos Aires

Uma fileira de policiais protegia a entrada da mansão do ex-presidente do Paraguai Horacio Cartes na madrugada da última segunda (8), quando uma manifestação, a princípio pacífica, começou a ficar tensa.

Pedras voaram, e os oficiais levantaram seus escudos para se proteger. Responderam com balas de borracha e gás lacrimogêneo. A viatura parada ali esquentou o motor, dando a entender que poderia começar a se mover sobre os manifestantes. Houve correria e, meia hora depois, a situação acalmou.

Um detalhe, porém, era desconhecido por boa parte dos que protestavam: Cartes sequer estava em casa.

O ex-presidente do Paraguai Horacio Cartes durante fórum em Paris
O ex-presidente do Paraguai Horacio Cartes durante fórum em Paris - Eric Piermont - 3.jun.16/AFP

Nos dias anteriores aos atos que pediam a ele apoio ao início do julgamento político do atual presidente, Mario Abdo Benítez, —o que influenciaria os votos dos deputados que ele controla no Congresso—, Cartes entrou em um avião privado com sua família.

Seu destino era desconhecido, e poderia ser qualquer uma de suas casas e estâncias no interior do país. A mais conhecida, na região do Chaco, tem um lago particular com uma ilha no meio, segundo a mídia local.

Nos últimos anos, o homem mais rico do país apenas ampliou seu poder. O atual governo, que enfrenta a segunda crise grave em pouco mais de dois anos, mantém-se de pé apenas porque Cartes é seu fiador.

Os parlamentares que fazem parte de seu grupo político, o Honor Colorado —corrente majoritária do Partido Colorado, do qual Abdo Benítez é membro—​, garantem que um processo de afastamento não avance, como querem o Partido Liberal Radical Autêntico (PLRA) e seus poucos aliados.

Hoje, os colorados têm 56 deputados de um total de 80 no Congresso, mas estão divididos. Mais de 40 deles fazem parte da ala controlada por Cartes, enquanto pouco mais de dez permanecem fiéis a Abdo Benítez. O poder na legenda está ainda mais fragmentado porque o atual vice, Hugo Velázquez, que tem pretensões presidenciais em 2023, vem roubando apoios entre os dois primeiros grupos.

Um dos aspectos que mais chamam a atenção na trajetória de Cartes é que, embora tenha sido alvo de graves denúncias e seja investigado atualmente, ele sempre se safou. Nos poucos processos em que se tornou réu, foi absolvido. Na única condenação, a ação foi posteriormente revertida.

Em 1985, ele foi considerado culpado por ter evadido, por meio de subornos ao Banco Central, US$ 34 milhões. Para evitar a cadeia, ficou foragido por quatro anos. Quando voltou ao país, apresentou uma apelação e, por fim, em 2008, a Corte Suprema de Justiça o absolveu.

O ex-presidente do Paraguai entre 2013 e 2018 também foi alvo de um pedido de prisão no Brasil, por suposto envolvimento na Lava Jato. Em novembro de 2019, porém, o STJ derrubou a ordem e lhe concedeu um habeas corpus. O nome de Cartes surgiu em um esquema de lavagem de dinheiro internacional na delação do doleiro Darío Messer, que ficou foragido no Paraguai e foi preso em São Paulo.

Nos EUA, o paraguaio é investigado pela DEA, a agência antidrogas americana, por suposta lavagem de dinheiro proveniente do narcotráfico. Não houve conclusão, por ora, deste processo. No Paraguai, foi processado sob a acusação de usar algumas de suas propriedades no interior do país como pista de pouso e local de armazenamento de drogas. Esse processo, porém, foi arquivado.

Empresário que atua em diversas áreas e acionista majoritário de 25 empresas nas áreas de tabaco, bebidas, construção, medicamentos e alimentos, entre outras, Cartes também já teve o nome ligado ao contrabando de cigarros. Em entrevista à Folha em 2015, negou a acusação, mas reconheceu que a "fronteira entre Brasil e Paraguai é muito difícil de controlar”.

O político paraguaio começou a carreira nos negócios ao ajudar o pai como representante da fabricante de aviões Cessna. Depois, foi estudar nos EUA para se especializar na área técnica da indústria de aviação. Quando voltou ao Paraguai, em 1979, fundou uma empresa de câmbio, que logo se transformaria em um banco, o Amambay, hoje um dos principais do país e que ainda pertence a ele.

​Cartes deve muito de sua popularidade à passagem pelo universo do futebol. Em 2001, elegeu-se presidente do Libertad e reconstruiu o estádio do clube. Em 2010, quando se tornou diretor de seleções da Associação Paraguaia de Futebol, entrou para a política. Até então, sequer havia votado —ele tirou seu primeiro título de eleitor naquele ano.

Os colorados se dividiram com sua chegada. Por um lado, havia uma ala entusiasmada com a entrada de um mecenas no partido, fora do poder desde a eleição do esquerdista Fernando Lugo, em 2008.

Por outro, houve resistência da velha guarda —mais ligada a fazendeiros e proprietários de terra do interior e à Igreja Católica— pelo fato de Cartes não ser dessa linhagem e de se cercar de pessoas de suas empresas, uma característica que o acompanhou na Presidência, em que os principais cargos foram ocupados por diretores e administradores de seus negócios, deixando parte dos correligionários de lado.

A vitória em 2013 se deveu, em parte, a um vazio de poder deixado pelo afastamento de Lugo, em 2012. Cartes vendia o discurso de que, se suas empresas eram bem geridas, ele também administraria bem o país. Acabou vencendo seu principal rival, Efraín Alegre, do PLRA, por 45,83% contra 37,09%.

A gestão foi bem-recebida pelo mercado e pela comunidade internacional por trazer estabilidade à política e à economia. O Paraguai teve bom desempenho macroeconômico e crescimento sustentado do PIB com índices anuais superiores a 4%. As principais carências do país, que agora surgem com mais força durante a pandemia de coronavírus, porém, persistiram. Tampouco houve grande investimento em saúde pública, algo a que os manifestantes de hoje fazem referência. Nas ruas de Assunção, durante os atos, havia cartazes que diziam: "Cartes fez pontes para o seu contrabando, mas não hospitais para a nossa saúde".

Seu poder na Presidência, entretanto, não era ilimitado. No final do mandato, tentou mudar uma emenda da Constituição para permitir sua reeleição. A emenda passou na calada da noite, sem a presença da oposição, mas a manobra causou imensa revolta no país. Manifestantes foram ao Congresso e incendiaram parte do edifício, deixando feridos. Dias depois, anunciou que não concorreria em 2018.

Alguns familiares de Cartes estão envolvidos em esquemas de corrupção. Seu tio, Juan Domingo Cartes, ficou preso durante seis anos no Brasil por narcotráfico. Extraditado ao Paraguai, hoje está foragido.

A eleição de Abdo Benítez, em 2018, foi um revés para o ex-presidente, já que seu candidato no Partido Colorado era o ex-ministro da Economia Santiago Peña. Marito, como Abdo Benítez é chamado venceu as primárias e se tornou a opção da velha guarda da legenda para afastar Cartes do poder.

Mas a estratégia não vem dando certo. O atual presidente se desgastou com a opinião pública, primeiro devido a ajustes econômicos que tentou impor ao assumir e, agora, ao enfrentar críticas diante da gestão da pandemia. Além disso, no flanco político, Abdo Benítez sofreu uma derrota importante em 2019, com o episódio da mudança do estatuto da hidrelétrica de Itaipu, que levou a população às ruas.

Ali, o líder paraguaio foi alvo da primeira tentativa de afastamento, mas contou com o apoio do governo brasileiro e dos deputados do Honor Colorado. Desde então, ele tem o poder sequestrado por Cartes.

A próxima eleição presidencial ocorre em 2023.

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