Descrição de chapéu The New York Times

Alguém jogou ácido no rosto de uma jovem de origem paquistanesa; sua família não sabe o porquê

Nafiah Ikram, 21, foi atacada em frente de casa, no estado de Nova York

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Mihir Zaveri
The New York Times

Por volta das 20h de uma noite fresca e nublada de março, Nafiah Ikram, 21, voltou para sua casa, em Long Island, no estado de Nova York, depois de completar um turno de dez horas numa farmácia CVS das proximidades, onde era técnica farmacêutica.

Ela estacionou diante de sua casa, e sua mãe, que estava no assento do passageiro, correu para dentro para ir ao banheiro. Ikram demorou um pouco mais para pegar alguns alimentos que estavam no banco de trás. Foi quando seu agressor a atacou.

Nafiah Ikram, 21, que foi atacada com ácido, em sua casa em Elmont, no Estado de Nova York
Nafiah Ikram, 21, que foi atacada com ácido, em sua casa em Elmont, no estado de Nova York - Sara Naomi Lewkowicz/The New York Times

Um homem encapuzado saiu correndo da escuridão, aproximou-se de Ikram e jogou uma xícara grande de ácido de bateria no rosto dela. Em seguida, ele fugiu a pé. O ácido queimou uma das lentes de contato de Ikram e a colou a seu olho. Escorreu por sua garganta quando ela gritou, chamuscando seus pulmões.

Sua família acha que os ferimentos a teriam matado se sua mãe, que é enfermeira, não tivesse levado a filha rapidamente ao banheiro e a lavado com água.

Mais de um mês mais tarde, depois de passar várias semanas no hospital, Ikram ainda apresenta queimaduras dolorosas e tem dificuldade para comer. Os médicos dizem que o ataque de 17 de março pode ter comprometido sua visão de modo permanente. Ninguém foi detido.

Sua família vive com medo, especulando sobre quem teria atacado Ikram, estudante da Universidade Hofstra. Foi um ato que parece ter sido intencionalmente selvagem e calculado, que veio do nada.

“Tenho a sorte de estar viva”, disse Ikram, entrevistada na quinta-feira (22). “Acho que só vou conseguir entender o que aconteceu mais adiante, quando, espero, a pessoa que fez isso ou as pessoas responsáveis forem presas. Mas no momento só estou me esforçando para ficar bem.”

Seu pai, Sheikh Ikram, acha que as autoridades deveriam investir mais recursos na investigação do caso. “Não podemos relaxar. Não podemos sequer nos sentar no quintal. Estamos tremendamente perturbados.”

O comissário Patrick J. Ryder, do Departamento de Polícia do condado de Nassau, descreveu o ataque lançado diante da casa de Ikram em Elmont, no estado de Nova York, subúrbio etnicamente diverso de 36 mil habitantes a 25 km a leste de Manhattan, como “um crime hediondo e feroz”.

Parte do incidente foi captado por uma câmera de vigilância, e a polícia ofereceu recompensa de US$ 10 mil (R$ 54,3 mil) por informações que levem à prisão do agressor ou de qualquer outro envolvido.

Mas, em resposta a perguntas sobre a investigação, a polícia limitou-se a reiterar um comunicado de semanas antes descrevendo o ataque e o suspeito, que teria usado luvas e um moletom preto.

O ataque brutal e aparentemente não provocado a Ikram, que nasceu no Bronx e tem ascendência paquistanesa, deu-se enquanto asiático-americanos têm sido vítimas de ataques de ódio em Nova York e em todo o país nos últimos meses. Uma chacina em março na região de Atlanta que fez oito mortos, incluindo seis mulheres de origem asiática, e outra neste mês em Indianápolis, onde quatro das oito vítimas eram sikhs, vieram alimentar o medo das consequências mortíferas da xenofobia.

Manifestantes participam de vigília em homenagem às vítimas de chacina no estado da Geórgia
Manifestantes participam de vigília em homenagem às vítimas de chacina no estado da Geórgia - Alex Wong - 17.mar.21/Getty Images/AFP

Nesta semana, a filial de Nova York do Conselho de Relações Americano-Islâmicas, importante organização de defesa dos direitos civis, pediu que o ataque a Ikram seja investigado como crime de ódio.

Mas Ikram e seu pai, que emigrou do Paquistão aos EUA 30 anos atrás, afirmam não acreditar que o ataque tenha tido motivação racial, em parte porque pareceu que o agressor esperou especificamente para atingir Ikram, e não sua mãe. Um porta-voz da polícia disse que decisões sobre se o ataque será investigado como crime de ódio serão tomadas depois que for feita uma prisão.

Ataques com ácido ocorrem em todo o mundo, mas são especialmente comuns em alguns países, entre os quais Paquistão, Índia, Reino Unido e Uganda, de acordo com a Fundação Internacional de Sobreviventes de Ácido, sediada em Londres. As vítimas são na maioria mulheres, segundo a entidade, e o ácido, que pode deixar a vítima desfigurada por toda a vida, é visto tradicionalmente como a arma preferida de homens vingativos que acusam mulheres de deslealdade ou desobediência.

“O fato de terem visado meu rosto mostra que é pessoal, sem dúvida nenhuma”, disse Ikram.

O ataque que ela sofreu começou a ganhar mais atenção depois que a apresentadora de TV e autora Padma Lakshmi divulgou o ocorrido em sua página no Instagram, pedindo doações para ajudar a pagar as contas médicas de Ikram e informações que possam ajudar a polícia a localizar o agressor.

Sheikh Ikram, 50, pai da vítima, contou que trabalha como motorista para Lakshmi. “Este é o pesadelo de qualquer pai ou mãe —que algo assim aconteça com sua filha, essa moça jovem, promissora e inocente que tem a vida inteira pela frente”, disse a apresentadora no Instagram. “Não sei quem no mundo faria algum assim, com ácido. Nem sequer sei onde se consegue ácido. Não consigo parar de pensar nela.”

Ikram disse que sua saúde começou a melhorar nas últimas semanas. Ela já está conseguindo engolir alguns alimentos pastosos, mas ainda tem dificuldade em mantê-los no estômago.

Os médicos esperam que sua pele se recupere, mas acham que sua vista talvez não melhore. A família, que vive em Elmont há 15 anos, está tentando conseguir consultas com especialistas que possam ajudar a planejar um caminho para a recuperação de Ikram. O pai dela disse que sua filha está traumatizada e com medo de ir a qualquer lugar sozinha.

Sheikh Ikram disse que uma vizinha viu um carro vermelho com talvez três pessoas estacionado perto de sua casa antes do ataque. Sua mulher havia notado o carro estacionado no local mais cedo, mas não deu maior importância. Ele se questiona por que a polícia ainda não conseguiu identificar ninguém ligado ao carro ou encontrar mais informações sobre o paradeiro dos agressores, usando vídeos de vigilância ou câmeras de trânsito. “Estou vivendo um pesadelo”, disse Sheikh Ikram. “Não consigo me concentrar em nada.” Sua mulher não está indo trabalhar porque precisa cuidar da filha.

Ikram foi obrigada a suspender seus estudos na Universidade Hofstra. Ela disse que quer se tornar médica e trabalhar com crianças. “Sinto que não sou eu mesma agora”, disse ela. “Tudo que faço me lembra de alguma maneira o que aconteceu. E estou me esforçando —em vez de ficar triste e desejar que não tivesse acontecido, estou tentando pensar nos lados positivos, se bem que neste momento não haja muitos.”

Ela concluiu: “O que posso dizer neste momento é que poderia ter sido pior”.

Tradução de Clara Allain  

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