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Britânicos esgotam reservas em pubs, que reabrem nesta segunda

Governo permite apenas serviço em área externa; entidades do setor afirmam que minoria poderá reabrir, mas cientistas temem repique de contágio

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Bruxelas

Obrigados a despejar cerca de 5 milhões de litros de cerveja artesanal no ralo devido aos confinamentos, produtores britânicos esperam que esse prejuízo fique no passado a partir desta segunda (12). Após mais de três meses fechados, os pubs da Inglaterra poderão voltar a servir em áreas externas.

As torneiras só reabrem na segunda, mas desde a semana passada consumidores, entre eles o primeiro-ministro Boris Johnson, anteciparam-se para fazer reservas, esgotando os lugares.

Voltar a um pub ou restaurante era a “prioridade absoluta” para 50% dos consumidores britânicos, segundo pesquisa feita pelo banco de investimento Jefferies, e bares relataram à mídia britânica estar com a lotação esgotada até a semana que vem. Enquanto uns preparam os copos, outros franzem os cenhos: epidemiologistas temem um repique nos números de Covid-19.

Segundo eles, mesmo com restrições como o máximo de seis pessoas por grupo, o distanciamento entre mesas e os cuidados por parte dos garçons, é preciso monitorar de perto as infecções para não pôr a perder os avanços obtidos até agora.

Funcionário entrega um barril de cerveja da Cervejaria Brixton em um pub no sul de Londres
Funcionário entrega um barril de cerveja da Cervejaria Brixton em um pub no sul de Londres - Tolga Akmen - 9.abr.2021/AFP

O sinal verde para que a Inglaterra avançasse para a segunda fase de relaxamento foi dado, de acordo com o governo, porque o país passou nos “quatro critérios”: uma queda significativa no número de casos, capacidade de atendimento no NHS (serviço público de saúde), progresso contínuo na vacinação e ausência de variantes de Covid-19 que mudem a dinâmica da pandemia.

A julgar pelos números, o contágio parece estar domado. Na última sexta, o Sage, grupo que aconselha o governo, divulgou que a taxa de contágio (Rt) da Inglaterra está entre 0,8 e 1. Isso quer dizer que as infecções estão no mesmo ritmo, no pior dos cenários, ou, na melhor das hipóteses, caindo 4% a cada dia —nesse caso, o número de novos contágios cairia pela metade em cerca de duas semanas e meia.

Mas as taxas de transmissão na Inglaterra variam muito de acordo com a região, afirma o professor de estatística aplicada Kevin McConway, da Open University, e quanto mais baixos ou mais irregulares os números de novos casos, mais imprecisas as medidas estatísticas.

O avanço do Reino Unido na campanha de vacinação —60% da população adulta recebeu ao menos uma dose— também não é garantia de controle da pandemia, e não apenas porque não se sabe ainda o efeito da vacina na transmissão ou a duração da imunidade.

Em relação aos pubs, a principal questão é que os mais jovens são o público majoritário dos bares, mas não estão entre os grupos imunizados com prioridade. “Há motivos para manter o cuidado por mais tempo”, diz James Naismith, diretor do instituto de pesquisa multidisciplinar Rosalind Franklin, da Universidade de Oxford, ao comentar dados de infecção divulgados na sexta (9).

Ele considera encorajador que o número de infectados tenha caído bastante nos maiores de 50 anos, mais suscetíveis e já vacinados. “Mas o vírus ainda está presente em 4 a cada 1.000 pessoas com idade entre 35 e 49 anos.” Sem distanciamento físico, afirma o cientista, a infecção pode aumentar. “Embora não víssemos impacto na proporção de mortes por infecção, um aumento nessa faixa etária, por causa de seu tamanho, colocaria um forte estresse no NHS”, diz ele.

Lawrence Young, professor da escola de medicina de Warwick, acrescenta outra deficiência no controle da pandemia: o fato de que o sistema de teste, rastreamento e isolamento não funcionou bem no Reino Unido. O governo lançou um programa de dois testes semanais gratuitos por pessoa a partir desta semana, mas isso será inócuo se os contaminados não se isolarem.

Um surto de infecção entre os jovens, grupo que circula mais e costuma manter mais contatos com mais pessoas, também propicia o surgimento de novas mutações, segundo Naismith, da Universidade de Oxford. “Quanto menos infecções, menor a chance de variantes.”

Um aspecto do mercado, porém, pode reduzir as preocupações dos cientistas. Para começar, de acordo com a Associação Britânica de Cerveja e Pubs (BBPA), cerca de 2.000 pubs no Reino Unido quebraram em 2020 devido aos confinamentos, um número que representa 5% do total.

Dos 95% que ainda sobrevivem, apenas um terço voltará a servir sob as condições atuais, segundo entidades do setor. Os outros ou não possuem uma área ao ar livre ou não conseguem, com a frequência menor, compensar os investimentos necessários —guarda-sóis, aquecedores— e os custos de funcionar.

Pubs sem terraços serão autorizados a vender para viagem, mas a Sociedade das Cervejarias Independentes (Siba) diz que mesmo os que puderem encher as canecas nesta segunda continuarão em situação instável. Cerca de um terço dos que reabrirão terá lucro com a operação reduzida, diz a entidade, que representa 830 cervejarias artesanais.

Os outros arriscarão abrir mesmo assim para se reconectar a seus clientes. Restaurantes, bares e hospedagens continuam dentro de um programa de auxílio do governo que envolve complementação de salário de funcionários com carga horária reduzida, redução do imposto sobre o consumo e financiamento a taxas de juros subsidiadas, mas voltar a faturar é cada vez mais urgente, afirmam entidades.

Em um processo na Justiça para antecipar a abertura total dos estabelecimentos, o administrador de casas noturnas Sacha Lord diz que pubs, restaurantes e boates investiram mais de 500 milhões de libras (R$ 3,9 bilhões) para aumentar a segurança contra o contágio em suas áreas internas.

“Faz mais sentido abrir esses lugares seguros, são monitorados e regulamentados, do que deixar as pessoas se misturarem onde não há medidas em vigor”, disse Lord ao entrar com a ação.

Ele se refere às lojas não essenciais, que já poderão receber consumidores em espaço fechado a partir desta segunda, assim como serviços que exigem proximidade física, como cabeleireiros e massagistas.

Enquanto a decisão judicial não chega, as associações de fabricantes lançaram campanhas pedindo que os consumidores privilegiem o chope (“cask beer”, cerveja não pasteurizada servida de barris, sob pressão). As vendas de chope caíram 70% nos últimos 12 meses no país, de acordo com o setor, já que elas praticamente só podem ser servidas nos bares.

“Chope e pubs andam de mãos dadas, e foi essa parte importante da nossa identidade nacional que milhões de amantes de cerveja perderam durante o lockdown”, diz James Calder, principal executivo da Siba. Os fabricantes afirmam que 80% das receitas de pequenas cervejarias independentes vêm da venda em pubs, e a bebida de barris, que corresponde a 70% do total, tem uma vida útil muito mais curta —o que levou ao desperdício dos milhões de litros enquanto os bares ficaram fechados.

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