Descrição de chapéu Coronavírus

Relatos evidenciam fase atual da pandemia de coronavírus na Europa

Jornalistas em Itália, Espanha, Bélgica, Portugal e Reino Unido descrevem panorama no continente 1 ano depois

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Milão, Barcelona, Lisboa, Bruxelas e Londres

Um ano depois do início da pandemia, a Folha convidou jornalistas de cinco países europeus para relatar o panorama da crise sanitária no continente, o que revelou níveis de otimismo muito díspares.

Michele Oliveira, de Milão (Itália)

Segundo início de primavera e segunda Páscoa em confinamento devido ao vírus, mas quanta diferença entre um ano e outro. Em março de 2020 havia muito medo, mas também a adrenalina do ineditismo e uma ingênua esperança. A quarentena parecia uma situação temporária a ser recompensada pelo verão em liberdade. "Andrà tutto bene", vai dar tudo certo, era o mantra.

Como se sabe, não foi bem assim. Os meses do verão foram tão intensamente aproveitados pelos italianos que gerou uma segunda onda de contágios e mortes, seguida de novas restrições.

Mulher de máscara caminha em frente a loja fechada em Milão, na Itália
Mulher de máscara caminha em frente a loja fechada em Milão, na Itália - Flavio Lo Scalzo - 15.mar.21/Reuters

O Natal e o Ano Novo foram em clima de lockdown, mas o sentimento era de um sacrifício com dias contados. A vacina já estava sendo preparada para distribuição, e antes da virada do ano a campanha começou em Roma. "Ce la faremo", vamos conseguir.

Três meses depois, aqui estamos em casa, com escolas fechadas e uma lista grande de vetos.

O premiê mudou e a coordenação da emergência sanitária passou para outras mãos. No entanto, seguimos aflitos, acompanhando os boletins diários. Na última sexta, foram 457 mortes, quase metade do pico, registrado em dezembro.

Nesse terceiro confinamento, em vez de adrenalina, fadiga. E a vacinação, o alívio do segundo lockdown, caminha a passos tão trôpegos que a luz no fim do túnel parece apenas um pisca-pisca defeituoso. O que resta é a mais pura desesperança de que a pandemia pode um dia passar.

São incompetências e variantes diferentes das do Brasil —aqui, o perigo é a inglesa—, mas como explicar que a Itália, mesmo sem ter tido uma condução negacionista da crise e com todos os recursos da União Europeia, continue entre os países com maior número de mortes causadas pelo Covid-19?

Não se trata de duvidar da eficácia das medidas restritivas que se repetem há um ano. Os números provam que as quarentenas são necessárias e salvam vidas. Mas o efeito dessa terceira vez é a dificuldade de me deixar convencer de que o cenário vai melhorar no curto ou médio prazo.

Como acreditar que vai dar certo o enésimo plano do governo italiano, com meta de vacinar 500 mil por dia (hoje são cerca de 200 mil/dia) e todos os 50,7 milhões de cidadãos acima de 16 anos até o início do outono, se um centro de vacinação passa dois dias vazio por falhas no sistema de agendamento?

Ou, no cenário em que as coisas comecem a funcionar melhor na Itália, como ser otimista sendo brasileira e vendo o país ser tratado, com razão, como um celeiro de perigosas variantes do vírus? Como lidar com o espanto dos amigos daqui? Para eles, digo que ao menos no Brasil a vacina já chegou à minha avó.

Só assim para ver se o farolzinho fraco no fim do túnel volta a piscar.

Susana Bragatto, de Barcelona (Espanha)

Na Catalunha, um dos epicentros da pandemia, fala-se atualmente em 452 pessoas na UTI e uma taxa aproximada de 7.000 novos contágios na última semana. São 7,6 milhões de habitantes em toda a região. Na Espanha inteira, registraram-se 590 mortos por Covid entre quinta e sexta (26) e 7.586 novos casos.

Ora, meuzóio saltam das (aparentemente) minguadas cifras supracitadas para a megatômbica situação brasileira, e penso: estamos loucos? Na Espanha, ainda que a gente não esteja morrendo aos milhares e o premiê e o rei espanhóis sejam anjos celestiais perto do Bolsonaro, o clima continua tenso.

Mas um ano após o primeiro decreto de confinamento, o coronavírus deixou de ser a estrela única das manchetes na Espanha. Crises políticas têm dominado o interesse público.

Com um tímido otimismo, o país se prepara para a Semana Santa, feriadão mais-do-que-significativo num país pirilimpimpado pela Opus Dei e por catolicismos (60% da população, segundo dados do Centro de Investigações Sociológicas, órgão público de pesquisas censitárias).

O índice de infecções voltou a subir discretamente nos últimos dias, o que acendeu o alerta para riscos de uma possível quarta onda (ayayay) pós-feriado. A perspectiva é preocupante também devido ao lento ritmo de vacinação, afetado por repetidos cortes na distribuição da AstraZeneca, por exemplo.

As medidas restritivas atuais variam um pouco conforme o território, mas seguem o cardápio básico: confinamento de regiões, comércio com horário e lotação controlados, toque de recolher, no mínimo, entre 23h e 6h (na Catalunha, começa às 22h) e grupos reduzidos (seis pessoas em espaços abertos, quatro em fechados, e apenas "conviventes" em espaços privados).

O slogan-apelo governamental da vez canta mais ou menos assim: não salvamos semanas, salvamos vidas. Amigos já vacinados (professores, policiais, de-risco) compartilham anedotas sobre efeitos colaterais das vacinas: um pouco de náusea, fadiga, dor. Pra meu (leve) espanto, mais de um ser humanus me afirmou que não "acredita" na vacina (!). Por fim, as conversas casuais já sequer começam com um "estou cansado dessa p*** toda" (sic). Tamo cansado até de dizer que tamo cansado.

Talvez —penso cá do meu microobservatório barcelonês— estejamos todos demasiado saturados de megalonúmeros e megamancadas. Talvez estejamos cansados da sensação de impotência.

Ana Estela de Sousa Pinto, de Bruxelas (Bélgica)

No dia 15 de março o primeiro confinamento de Bruxelas completou um ano. Como as infelicidades da vida sob pandemia são iguais para todos, melhor listar alguns inesperados avanços que a tragédia trouxe para a vida coletiva.

  1. Cafés de trabalho viraram passeios no parque, uma das soluções mais criativas —e saudáveis— para contornar horríveis videoconferências ou telefonemas frios. Marque seu compromisso profissional num lugar agradável e atualize a conversa numa caminhada —ao ar livre, de máscara. Não é preciso abrir mão nem da cafeína, já que na era pandêmica mais moderna restaurantes e cafés podem vender para viagem.
  2. Livrarias foram reconhecidas como lojas essenciais. No paleolítico dos confinamentos, no ano passado, só mercados e farmácias se mantiveram abertos, reduzindo a tal “essência” da vida a comer, beber e se medicar. Com o passar do tempo, porém, Bruxelas destrancou lojas de jardinagem, bricolage, música e livros. De quebra, estimulou a reflexão sobre o que afinal é supérfluo —da qual não se sai como se entrou.
  3. A visita aos museus, com hora marcada, melhorou 500%. Não é preciso explicar por quê.
  4. Hora marcada, aliás, é a nova regra em Bruxelas para lojas de roupas, sapatos, eletrodomésticos ou qualquer outra categoria que escape das essenciais. Não melhora em nada a “experiência”, mas mostra a burocracia evoluindo. Afinal, o que se quer evitar são aglomerações e contatos, não o comércio de qualquer artigo.
  5. Preconceitos foram abaixo a força. Não os mais importantes, como racismo ou machismo, infelizmente. Falo de preconceitos mais modestos, pessoais, contra trabalho em casa ou aulas online. Descobrir que é possível se adaptar e até ganhar com a economia de tempo seguirá útil quando a pandemia acabar.

Um ano de restrições, aberturas e reapertos em Bruxelas mostrou também que é ingênuo contar apenas com o bom-senso e a inteligência humana —outra lição para levar para a vida.

Na praça a 100 metros de onde eu moro, as mesmas pessoas civilizadas que esperam comportadas, de dois em dois metros, para comprar uma baguete foram as que lotaram festas no verão, quando o governo soltou as amarras. Não é preciso ser negacionista para ceder ao "é só um pouquinho" ou ao "não vou atrapalhar ninguém". Basta ser humano, mostram as sucessivas ondas que chegam por aqui.

Giuliana Miranda, de Lisboa (Portugal)

Depois de mais de dois meses de confinamento, Portugal está em ritmo de “soft opening”, com restrições caindo progressivamente até 3 de maio. Apesar de ainda não ser possível ir a restaurantes ou encontrar amigos, o toque de recolher foi flexibilizado e se pode aproveitar o sol em parques e praças.

Mas a sombra da situação limite pela qual o país passou em janeiro, com recordes de casos e mortes e o sistema de saúde próximo do colapso, ainda está, de alguma forma, presente. Celebra-se o bom momento atual, mas com o temor de voltar ao grave cenário nos serviços de saúde.

Essa tentativa de evitar o “já ganhei” tem norteado também o discurso das autoridades. A tentação, claro, é grande. Afinal, o país foi de 303 mortes em 31 de janeiro para apenas 8 no último sábado (27).

A vacinação também tem se destacado positivamente. Depois de um começo marcado por atrasos e denúncias de favorecimento, o ritmo engrenou. Mais de 1 milhão de portugueses (10% da população) já receberam a primeira dose, e mais de 450 mil (4,5%), a segunda.

A adoção do lockdown foi fundamental, e o governo condicionou o cronograma de reabertura à manutenção dos casos de Covid sob controle. Por isso, os noticiários trazem quase todos os dias longas explicações sobre o famigerado índice Rt, a taxa de transmissão do vírus entre as pessoas.

A reabertura e a volta de crianças às atividades presenciais em creches e escolas básicas já impactam o índice, que subiu, mas ainda está dentro do previsto por especialistas.

Como a situação da pandemia se deteriorou em outros países europeus, que têm voltado a adotar confinamentos, o clima entre os portugueses é de menos otimismo do que no ano passado, quando havia a impressão de que o continente andava mais ou menos no mesmo compasso.

A situação brasileira também assombra os portugueses. Devido aos laços históricos e à grande comunidade imigrante, é impossível ignorar o que se passa do outro lado do Atlântico: a calamidade na saúde está nos jornais, na televisão, nas conversas do supermercado.

Minha nacionalidade é facilmente denunciada pelo meu forte sotaque carioca, e por isso costumo ouvir muitos questionamentos sobre por que o Brasil está do jeito que está. Enquanto não consigo me animar pelo Brasil, ao menos posso comemorar os bons resultados portugueses.

Marina Izidro, de Londres (Reino Unido)

Já é comum em Londres conhecer alguém que foi vacinado. Não só pais ou avós, mas amigos, conhecidos, muitos dos quais jovens. A previsão do governo britânico é dar a primeira dose para todos os adultos até julho e, se for preciso, uma terceira de reforço contra variantes a partir de setembro.

Estádios de futebol e pontos turísticos como a Abadia de Westminster e o Museu da Ciência viraram centros de vacinação. Saber de alguém que está com Covid-19 é cada vez mais raro.

Mesmo assim, o primeiro-ministro Boris Johnson até hoje é cobrado pela demora em agir no início da pandemia. São quase 127 mil mortes no Reino Unido devido ao coronavírus. Agora, autoridades também precisam lidar com outra questão: a saúde mental das pessoas.

O terceiro lockdown já dura três meses. Pubs não abrem desde dezembro. Restaurantes, lojas e museus estão fechados. Voltamos a cortar os cabelos em casa, conversar com amigos pela internet. Viajar de férias é ilegal. A Londres multicultural e vibrante está silenciosa.

O governo gastou 50 bilhões de libras (R$ 397 bilhões) em ajuda financeira para quem não pode trabalhar, mas a falta de convivência social tem um custo alto. Crianças deixaram de ir para a escola, e tanto jovens quanto idosos ficaram mais solitários. As medidas restritivas e a vacinação, por outro lado, surtiram efeito. Desde o início do ano, casos, internações e mortes diminuíram drasticamente.

Quem se contamina e precisa se isolar liga para um telefone do NHS, o sistema público de saúde, e em minutos conversa com um médico. A maioria da população entendeu que quanto mais cumprir as regras, mais rapidamente a vida volta ao normal. Existe um plano lento e gradual, mas que já começou.

Escolas reabriram neste mês. Em 12 de abril, pubs e restaurantes podem servir ao ar livre. Em um país apaixonado por futebol, a torcida volta aos estádios a partir de 17 de maio. Se tudo der certo, as restrições acabam no fim de junho.

Comecei a acompanhar o combate à pandemia mais de perto desde que me tornei voluntária em centros de vacinação em Londres. Organizo filas, tiro dúvidas. No mês passado, recebi a primeira dose. Todos os voluntários são vacinados. É uma forma de proteção mútua —afinal, estamos em contato próximo com quem ainda não foi imunizado— e também um agradecimento por nossa ajuda ao sistema de saúde. É gratificante ver idosos sorrindo, contando que vão abraçar os netos. Histórias como essas não tem preço.

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