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Díaz-Canel assume partido em Cuba e diz que vai seguir consultando Raúl Castro

Troca no comando da sigla não significa mudança na linha política do país, que enfrenta forte crise econômica

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Havana | AFP

Após mais de seis décadas com os irmãos Castro no poder, Cuba virou a página, mas não completamente. Aposentado oficialmente da liderança do Partido Comunista de Cuba (PCC) nesta segunda-feira (19), Raúl Castro, 89, ainda terá influência em decisões estratégicas no país.

Eleito primeiro-secretário do partido, o mais alto cargo, o atual presidente Miguel Díaz-Canel, 60, disse que Castro continuará sendo consultado. “O general do Exército continuará presente porque é uma referência para qualquer comunista e revolucionário cubano”, afirmou no encerramento do 8º Congresso do PCC.

O presidente de Cuba, Miguel Díaz-Canel, e o agora aposentado Raúl Castro durante o 8º Congresso do Partido Comunista de Cuba, em Havana
O presidente de Cuba, Miguel Díaz-Canel, e o agora aposentado Raúl Castro durante o 8º Congresso do Partido Comunista de Cuba, em Havana - Ariel Ley/ACN/AFP

Castro oferecerá sua “orientação e seu alerta diante de qualquer erro ou deficiência, pronto para enfrentar o imperialismo como o primeiro com seu rifle”, acrescentou o primeiro líder civil do regime cubano.

A transição para Díaz-Canel à frente tanto do partido quanto do país é simbólica e não significa uma mudança na linha política cubana, onde vigora o sistema de partido único.

“Desde que nasci, conheci apenas um partido e até agora vivemos com ele, e ninguém passa fome”, diz Miguel Gainza, 58, artesão que trabalha na Havana Velha e apoia o regime. A ilha caribenha, no entanto, passa por uma profunda crise econômica devido à pandemia de coronavírus e ao fortalecimento do embargo que os EUA mantêm há 60 anos —ambos impactam o turismo, principal fonte de renda.

Em 2019, essa indústria levou a Cuba 5 milhões de turistas e US$ 3 bilhões (R$ 16,6 bi), de acordo com os dados oficiais. No ano passado, durante a pandemia, cidades turísticas se esvaziaram. Neste domingo (18), o Comitê Central, órgão executivo do PCC, foi eleito em votação secreta por 300 delegados de toda a ilha, que representavam 700 mil militantes. Foram 114 membros eleitos, uma redução dos 142 anteriores.

Também nesta segunda, o birô político do PCC foi formado a partir da nomeação do Comitê Central. Com média de idade de 61,6 anos, a cúpula é formada por 3 mulheres e 11 homens. O órgão que representa o coração político de Cuba e é superior ao comitê também foi reduzido, de 17 para 14 membros.

Na nova equipe, o cargo de segundo-secretário foi eliminado, decisão pertinente segundo os estatutos, quando não for necessário. O posto foi ocupado por Raúl Castro de 1965 até 2011, enquanto Fidel esteve à frente da sigla, e depois por Machado Ventura, de 2011 até este ano. Além de Castro, aposentaram-se o número dois do partido José Ramón Machado Ventura, 90, e Ramiro Valdés, 88.

O envelhecimento da sigla é um tema diante de uma juventude frustrada com a falta de oportunidades. Entre os integrantes, 42,6% têm mais de 55 anos. A mais jovem da nova equipe e estreante na cúpula de poder é a primeira-secretária da província de Artemisa (no oeste de Cuba), Gladys Martínez, 49.

John Kavulich, presidente do Conselho Econômico e Comercial Cuba-Estados Unidos, considera que há no partido uma “falta de vontade de aceitar que já não é preciso lutar por uma revolução, mas sim gerir um país não de meados do século 20, mas da segunda década do século 21”.

Os jovens, que muitas vezes tentam sair do país, expressam cada vez mais sua frustração nas redes sociais, após a chegada da internet móvel em 2018. Na pizzaria onde trabalha, Luis Enrique Oramas, 30, diz que, “se deixassem as pessoas falarem o que pensam, seria como em outros lugares, [haveria] dois ou até três partidos”. Ativistas, artistas e intelectuais mantêm uma intensa atividade nas redes sociais, em um país onde as manifestações são quase inexistentes.

Durante o congresso, que começou na sexta (16), o partido adotou uma resolução para enfrentar a “subversão política e ideológica”, enquanto ativistas, jornalistas independentes e artistas denunciaram no Twitter que a polícia os impedia de sair de casa, recurso utilizado para impedir que se encontrassem.

Eles também disseram que ficaram incomunicáveis com os cortes de internet em suas casas. “O que temem os participantes do #8ºCongressoPCC? Que arruínem a festa de simulações”, escreveu Erika Guevara-Rosas, diretora da Anistia Internacional nas Américas, no Twitter. “Enquanto se dão tapinhas nas costas por manterem seu regime autoritário.”

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