Descrição de chapéu Governo Biden Armênia

Biden reconhece massacre de armênios como genocídio e irrita Turquia

Declaração visa honrar memória de mais de 1,5 milhão de mortos, e afeta Ancara, que nega política de extermínio

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Washington | Reuters

O presidente Joe Biden afirmou, neste sábado (24), que o massacre de cerca de 1,5 milhão de armênios pelo antigo Império Otomano (que deu lugar à atual Turquia) em 1915 constitui um genocídio. "O povo americano homenageia todos os armênios que morreram no genocídio que começou neste dia, 106 anos atrás", disse o líder dos EUA em um comunicado.

“Ao longo das décadas, os imigrantes armênios enriqueceram os Estados Unidos de inúmeras maneiras, mas nunca se esqueceram de sua história trágica", continuou o presidente. "Honramos sua história. Vemos essa dor. Afirmamos a história. Fazemos isso não para culpar, mas para garantir que o que aconteceu nunca se repita."

A decisão no dia em que se recorda o 106º aniversário do genocídio tem enorme peso simbólico, já que Biden é o primeiro líder americano a se posicionar pelo reconhecimento. Seus antecessores não desejavam criar desconfortos com a Turquia, parceira estratégica na Otan (aliança militar do Ocidente).

A reação turca foi rápida. Pouco após a afirmação de Biden, o ministro das Relações Exteriores da Turquia, Mevlut Cavusoglu, escreveu em uma publicação no Twitter que rejeita a declaração, baseada, segundo ele, no populismo. "Não temos nada a aprender com ninguém em nosso passado. O oportunismo político é a maior traição à paz e à justiça."

A chancelaria turca afirmou ter convocado o embaixador dos Estados Unidos em Ancara, David Satterfield, para demonstrar sua insatisfação com a declaração de Biden. "Esta declaração dos EUA, que distorce os fatos históricos, nunca será aceita na consciência do povo turco e abrirá uma ferida profunda que mina nossa confiança mútua e amizade", declarou a diplomacia turca, por meio de um comunicado.

O porta-voz do presidente Recep Tayyip Erdogan, Ibrahim Kalin, disse que a fala de Biden "apenas repete as acusações daqueles cuja única agenda é a inimizade contra nosso país". "Aconselhamos o presidente dos Estados Unidos a olhar para o passado e o presente de seu próprio país."

Na Armênia, a declaração do líder americano foi recebida com "grande entusiasmo", afirmou o premiê Nikol Pashinian. "É um dia importante para todos os armênios. Os EUA demonstraram mais uma vez seu compromisso inabalável com a proteção dos direitos humanos e dos valores universais." Mais cedo, Pashinian disse, no Twitter, que "as ideologias que levaram ao genocídio armênio ainda estão vivas hoje", citando "atrocidades cometidas contra os armênios" durante o recente conflito com o Azerbaijão.

Procissão em memória dos mortos durante 106º aniversário do genocídio armênio, em Ierevan - Karen Minasyan - 23.abr.21/AFP

Oficialmente, a Turquia reconhece que morreram de 300 mil a 400 mil pessoas, mas diz que as mortes teriam ocorrido no contexto da Primeira Guerra Mundial (1914-1918), quando os armênios apoiavam a Rússia, e não como resultado de uma política deliberada de extermínio.

Assim, o caso não se encaixaria no critério da intencionalidade na definição de genocídio estabelecida pela Organização das Nações Unidas (ONU), em 1948. Naquele ano, a entidade determinou que seriam considerados genocídios "quaisquer atos cometidos com a intenção de destruir, no todo ou em parte, um grupo nacional, étnico, racial ou religioso". Entre tais atos, a ONU prevê não apenas assassinatos, mas também o ato de causar sérios danos físicos ou mentais, infligir deliberadamente condições de vida para provocar destruição física, impor medidas destinadas a prevenir nascimentos dentro de um determinado grupo e transferir crianças de um grupo a outro.

O reconhecimento pelos EUA, portanto, estabelece um avanço celebrado por entidades de defesa de direitos humanos e também um obstáculo nas relações com Recep Tayyip Erdogan. O presidente turco, negador fervoroso do genocídio, já distribuiu críticas a outros líderes mundiais que descreveram as mortes na Armênia dessa forma, incluindo o papa Francisco. A negação do genocídio está, inclusive, nos livros didáticos da Turquia, que descrevem os armênios daquele período como traidores. Cidadãos turcos que optarem pelo uso do termo podem ser processados criminalmente, sob acusação de difamar o país.

A maioria dos historiadores, no entanto, reconhece que houve uma política de Estado nas mortes e vê esse episódio da história armênia como o primeiro genocídio do século 20, opinião reforçada pela Associação Internacional de Acadêmicos do Genocídio. Há, inclusive, especialistas turcos que concordam com essa posição.

A violência contra os armênios começou durante o início da dissolução do Império Otomano. Alinhados com a Alemanha na Primeira Guerra, os otomanos queriam impedir que os armênios se aliassem à Rússia e ordenaram deportações em massa.

A estimativa da Armênia é que 1,5 milhão de pessoas tenham morrido de fome, assassinados por soldados otomanos ou pela polícia. Centenas de milhares de sobreviventes, forçados a deixarem seu território, buscaram refúgio na Rússia, nos EUA, no Brasil e em diversos outros países.

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