Descrição de chapéu Folhajus

Policial que matou homem negro nos EUA será acusada de homicídio culposo

Kimberly Potter foi presa por disparar contra Daunte Wright numa abordagem de trânsito

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Reuters

A policial que atirou e matou Daunte Wright, um homem negro de 20 anos, em Brooklyn Center, no estado de Minnesota, foi presa nesta quarta-feira (14) e será acusada de homicídio culposo de segundo grau.

A acusação contra Kimberly Potter, 48, que tem 26 anos de experiência na corporação, foi feita um dia depois de ela e o chefe do Departamento de Polícia da cidade, Tim Gannon, apresentarem sua demissão.

O gabinete do procurador Pete Orput, responsável pelo caso, disse que deve formalizar a acusação contra ela ainda nesta quarta. Caso seja condenada, Potter pode pegar até dez anos de prisão e terá de pagar multa de US$ 20 mil (R$ 113 mil). O Bureau of Criminal Apprehension, agência estadual que investiga as mortes por policiais em Minnesota, disse que a agente foi presa e levada sob custódia pela manhã e que seria autuada na cadeia do condado de Hennepin.

"Embora reconheçamos que o promotor está buscando justiça para Daunte, nenhuma condenação pode devolver à família Wright seu ente querido. Não foi um acidente. Foi um uso intencional, deliberado e ilegal da força", disse o advogado Benjamin Crump, que representa a família da vítima.

A morte de Wright, no domingo (11), aumentou o clima de tensão em Minnesota, que já tinha registrado manifestações relacionadas ao julgamento de Derek Chauvin, o policial acusado de assassinar George Floyd, cujo veredicto deve sair na próxima semana.

Centenas de pessoas foram às ruas por três dias consecutivos, ignorando o toque de recolher imposto pelo governador. Wright foi, inclusive, morto a menos de 20 quilômetros de onde Floyd foi assassinado no ano passado. Na medida em que o caso se tornou público, tocou feridas históricas e recentes que envolvem o racismo estrutural e a violência policial nos EUA.

Wright, parado por agentes devido a uma infração de trânsito —a polícia diz que a placa do veículo estava irregular e que havia um desodorizador pendurado no retrovisor, o que a lei estadual proíbe—, foi atingido com um tiro de uma arma de fogo, que foi confundida, segundo a polícia, com um taser (arma de choque).

Durante a abordagem, ao verificar os documentos de Wright, a polícia constatou que havia um mandado de prisão pendente em decorrência de uma audiência judicial à qual ele não havia comparecido.

De acordo com os registros, a vítima respondia por porte ilegal de arma e por ter fugido da polícia em outra abordagem no ano passado. Os agentes então deram voz de prisão a Wright e, segundo as imagens das câmeras acopladas às fardas, tentaram algemá-lo do lado de fora do veículo.

O vídeo então indica que houve resistência de Wright, que volta a entrar no carro.

Ouve-se uma voz feminina gritando "taser, taser", e, segundo o departamento de polícia, Potter confundiu-se e, em vez de disparar a arma de choque, disparou uma arma com munição letal contra Wright. "Puta merda, atirei nele", diz ela na gravação.

Segundo registros e relatos de testemunhas, ele ainda conseguiu dirigir por algumas quadras até que bateu o carro, inconsciente. Os policiais tentaram reanimá-lo, mas Wright foi declarado morto no local.

Katie Wright, a mãe da vítima, disse a jornalistas ter recebido uma ligação do filho dizendo que ele tinha sido parado pela polícia devido ao desodorizador pendurado no retrovisor. Ela também afirma ter ouvido, pelo telefone, agentes pedindo para que o filho saísse do carro.

"Ouvi o policial vir à janela e dizer 'desligue o telefone e saia do carro'. Aí ouvi uma discussão e os policiais dizendo 'Daunte, não corra'", disse ela, aos prantos. A ligação foi encerrada e, quando conseguiu discar novamente, quem atendeu o telefone foi a namorada de Wright, que disse a Katie que seu filho estava morto no banco do motorista.

O departamento de polícia não deu detalhes sobre o mandado de prisão contra Wright, mas, de acordo com registros judiciais, o documento foi expedido no início deste mês quando ele deixou de comparecer a uma audiência. Wright respondia por duas contravenções: uma por porte ilegal de arma e outra por correr de agentes durante uma abordagem em junho do ano passado.

Tasers têm empunhaduras diferentes e são mais leves do que armas de fogo. Em muitos casos, são produzidos com cores vibrantes, em geral a cor amarela, mas também podem ser pretos —como os usados pela polícia de Brooklyn Center.

O manual de conduta do Departamento de Polícia da cidade orienta que os agentes guardem tasers e armas de fogo em lados diferentes do coldre. A regra é que o revólver esteja do lado dominante do policial, e o taser, no oposto. Assim, um agente destro, por exemplo, tem seu revólver no lado direito do corpo e o taser no lado esquerdo, de modo que precisaria cruzar o braço para empunhar a arma de choque.

No mês passado, os deputados americanos aprovaram um projeto de lei que proíbe táticas policiais controversas e facilita o caminho para ações judiciais contra agentes que violarem direitos constitucionais de suspeitos. O texto ainda precisa ser aprovado pelo Senado.

A chamada Lei George Floyd de Justiça no Policiamento inclui medidas como a proibição de estrangulamentos durante a ação policial, o fim dos mandados de segurança que permitem que os agentes entrem em lugares sem anúncio prévio —como na ação que matou Breonna Taylor— e a criação de um registro nacional de má conduta policial.

Em uma de suas disposições mais polêmicas, o projeto prevê o fim da "imunidade qualificada", uma espécie de excludente de ilicitude que, na prática, impede policiais de serem responsabilizados criminalmente por eventuais usos excessivos de força e violações de direitos constitucionais.

A lei determina ainda a obrigatoriedade de câmeras que possam registrar a ação dos agentes, tanto as fixas nos uniformes dos oficiais quanto as posicionadas nos painéis das viaturas, e cria novos modelos de policiamento comunitário, especialmente para bairros de populações minoritárias.

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