Agente e chefe de polícia nos EUA renunciam após morte de homem negro

Forças de segurança prendem mais de 50 manifestantes em segunda noite de protestos

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Brooklyn Center e Minneapolis | AFP e Reuters

Tim Gannon, chefe do Departamento de Polícia de Brooklyn Center, cidade no estado de Minnesota, nos EUA, e Kimberly Potter, oficial que atirou e matou um homem negro no domingo (11), apresentaram suas demissões nesta terça-feira (13), anunciou o prefeito do município, Mike Elliot.

As saídas ocorreram após o conselho municipal aprovar uma resolução para demitir tanto Potter quanto Gannon, para quem a abordagem que levou Daunte Wright, 20, à morte foi um acidente. O jovem, parado por agentes devido a uma infração de trânsito —a polícia diz que a placa do veículo estava irregular e que havia um desodorizador pendurado no retrovisor, o que a lei estadual proíbe—, foi atingido com um tiro de uma arma de fogo, que teria sido confundida, segundo a polícia, com um taser, uma arma de choque.

Manifestante faz gesto simbólico de resistência durante protesto em Brooklyn Center - Kerem Yucel - 12.abr.21/AFP

Durante a abordagem, ao verificar os documentos de Wright, a polícia constatou que havia um mandado de prisão pendente em decorrência de uma audiência judicial à qual ele não compareceu. De acordo com os registros, a vítima respondia por porte ilegal de arma e por ter fugido da polícia em outra abordagem no ano passado. Os agentes então deram voz de prisão a Wright e, segundo as imagens das câmeras acopladas às fardas, tentaram algemá-lo do lado de fora do veículo.

O vídeo então indica que houve resistência por parte de Wright, que volta a entrar no carro.

Ouve-se uma voz feminina gritando "taser, taser", e, segundo o departamento de polícia, Potter, 48, uma policial com 26 anos de experiência na corporação, confundiu-se e, em vez de disparar a arma de choque, disparou uma arma com munição letal contra Wright. "Puta merda, atirei nele", diz ela na gravação.

Segundo registros e relatos de testemunhas, ele ainda conseguiu dirigir por algumas quadras até que bateu o carro, inconsciente. Os policiais tentaram reanimá-lo, mas Wright foi declarado morto no local.

Tasers têm empunhaduras diferentes e são mais leves do que armas de fogo. Em muitos casos, são produzidos com cores vibrantes, em geral o amarelo, mas também podem ser pretos —como os usados pela polícia de Brooklyn Center.

O manual de conduta do departamento de polícia da cidade orienta que os agentes guardem tasers e armas de fogo em lados diferentes do coldre. A regra é que o revólver esteja do lado dominante do policial, e o taser, no oposto. Assim, um agente destro, por exemplo, tem seu revólver no lado direito do corpo e o taser no lado esquerdo, de modo que precisaria cruzar o braço para empunhar a arma de choque.

Nesta segunda (12), manifestantes ignoraram a chuva forte e o toque de recolher imposto pelo governo de Minnesota e foram às ruas pela segunda noite consecutiva protestar contra a morte de Wright.

Centenas de pessoas se reuniram novamente em frente à sede do Departamento de Polícia de Brooklyn Center, cidade com 30 mil habitantes a menos de 20 quilômetros de onde George Floyd foi assassinado no ano passado. O grupo exibia cartazes com frases como "prendam todos os policiais assassinos racistas", "eu sou o próximo?" e "sem justiça não há paz".

"As injustiças que ocorreram nas últimas 24 horas não foram apenas dolorosas, mas também calculadas e metódicas, sem remorso ou consideração pela dor que nossa comunidade está experimentando coletivamente", disse Matt Branch, um dos manifestantes, ao jornal Star Tribune. “Estamos aqui hoje em nome de Daunte e de todas as vidas perdidas nas mãos da polícia."

Os agentes ergueram uma cerca para manter os manifestantes afastados, mas houve ataques de ambos os lados: enquanto parte do grupo lançou garrafas, pedras e fogos de artifício contra os policiais, estes responderam com bombas de gás lacrimogêneo e tiros de munição não letal.

De acordo com o Star Tribune, o departamento de polícia exibia ainda, ao lado da bandeira americana, outra bandeira conhecida como "linha azul", um símbolo de apoio às forças de segurança também usada por grupos de extrema direita e vista por ativistas como um sinal de oposição ao movimento antirracista.

Uma loja de departamentos foi alvo de vandalismo, mas a maioria dos manifestantes deixou as ruas por volta das 22h (horário local), três horas após o início do toque de recolher imposto pelo governador do estado, o democrata Tim Walz, para tentar conter uma possível escalada de violência.

Segundo a polícia, três agentes sofreram ferimentos leves ao serem atingidos por objetos lançados pela multidão. Não há números oficiais sobre os feridos entre os manifestantes, mas em Brooklyn Center 40 pessoas foram presas por crimes como violações do toque de recolher e incitação ao tumulto. Em Minneapolis, outras 13 pessoas também foram detidas sob acusação de ataques a lojas.

O presidente Joe Biden pediu que as cidades tenham "paz e calma" e autorizou o envio de agentes federais à região. Cerca de mil soldados da Guarda Nacional patrulhavam as ruas na noite desta segunda, visando evitar que atos semelhantes aos que se seguiram à morte de Floyd —e que levaram milhares de pessoas às ruas de todo o país— se repetissem.

Em Portland, no estado de Oregon, os manifestantes se reuniram para denunciar a violência policial e acender velas em homenagem a Wright. Uma multidão de cerca de 250 pessoas marchou até uma delegacia de polícia, onde alguns menifestantes atiraram pedras, garras e fogos de artifício contra os policiais.

A polícia de Portald disse, em suas redes sociais, que o grupo quebrou as janelas da delegadia e tentaram entrar no local. Houve confronto com os oficias, que usaram gás lacrimogêneo para dispensar os manifestantes. Ninguém foi detido.

Alguns paralelos, entre os protestos de segunda e os que se seguiram à morte de Floyd, são inegáveis. Os manifestantes, muitos dos quais vinculados ao movimento Black Lives Matter (vidas negras importam), denunciam o racismo estrutural e a violência policial que, de acordo com as estatísticas, atingem e matam desproporcionalmente homens e mulheres negros.

A morte de Floyd, por exemplo, deu-se após um policial branco, Derek Chauvin, ajoelhar-se sobre seu pescoço por mais de nove minutos, a despeito das testemunhas que viram e filmaram a cena e dos apelos do homem negro que alertava: "Eu não consigo respirar".

Em entrevista coletiva nesta segunda, Gannon, o chefe do departamento de polícia pediu demissão, disse que "a reação e a angústia dos policiais" após a abordagem indicam que o tiro que "resultou na trágica morte do senhor Wright" foi um "disparo acidental".

"Não estou na cabeça da oficial", disse Gannon. "Só posso ver o que vocês estão vendo [o vídeo da abordagem]. Posso juntar isso com muito do treinamento que recebi e é por isso que acredito que seja um disparo acidental."

Médicos legistas do condado de Hennepin, do qual Brooklyn Center faz parte, classificaram a morte de Wright como homicídio, confirmando a partir dos resultados da autópsia que a causa do óbito foi um tiro no peito.

"Meu coração está partido em mil pedaços. Sinto tanto a falta dele, e só se passou um dia", disse a mãe de Wright, Katie, durante vigília em homenagem ao jovem, pai de um menino de dois anos. "Ele era minha vida, era meu filho, e eu nunca poderei ter isso de volta. Por causa de um erro? Por causa de um acidente?"

Pete Orput, procurador responsável pelo caso, disse que está aguardando o relatório do BCA para formalizar uma acusação criminal ainda nesta terça ou quarta-feira.

A morte de Wright também aumentou o clima de tensão em Minnesota, que já tinha registrado manifestações relacionadas ao julgamento de Chauvin, o policial que aparece com o joelho sobre o pescoço de Floyd na abordagem que provocou sua morte. As audiências, que começaram no dia 29 de março, vêm seguindo o roteiro esperado: testemunhas emocionadas, médicos explicando detalhes da morte e advogados e promotores apresentando seus casos ao júri.

A principal tese da acusação contra o ex-policial é que as imagens da morte de Floyd não deixam dúvidas de que o ato foi um assassinato, enquanto a defesa alega que a vítima pode ter morrido em decorrência de outras questões, inclusive por problemas cardíacos ou overdose.

A defesa de Chauvin chegou a solicitar que o juiz antecipasse a fase de isolamento dos jurados para que eles não fossem influenciados pela repercussão da morte de Wright, mas o pedido foi negado.

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