Descrição de chapéu oriente médio

Ataque de Israel derruba prédio que abrigava veículos de imprensa em Gaza

Ação também deixa dez mortos de uma mesma família, incluindo 8 crianças, em acampamento

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Gaza, Jerusalém e Ramat Gan (Israel) | Reuters e AFP

Israel voltou a atingir Gaza com ataques aéreos, e militantes palestinos lançaram mais foguetes contra o território israelense neste sábado (15), em um sinal claro de que o fim da pior escalada de violência na região desde 2014 está distante.

Diplomatas americanos e árabes tentam acalmar a situação depois de mais uma noite de violência, em que cerca de 200 foguetes foram disparados contra cidades de Israel, cujos aviões atingiram o que eles disseram ser alvos usados pelo Hamas, o grupo islâmico que controla a Faixa de Gaza.

Explosão após bombardeio na Jala Tower, edifício em Gaza que era usado por veículos de imprensa - Mohammed Abed/AFP

As Forças Armadas israelenses, porém, também destruíram um edifício em Gaza que abriga profissionais de veículos de imprensa, da TV qatariana Al Jazeera e da agência americana de notícias Associated Press. De acordo com o dono do prédio, militares israelenses telefonaram para avisar que um ataque ocorreria dentro de uma hora, o 
que levou à evacuação do local.

A Associated Press disse estar “em choque e horrorizada” com o ataque. A Al Jazeera, por sua vez, exibiu o bombardeio e a queda do edifício ao vivo. “A Al Jazeera não será silenciada. Nós podemos garantir isso a vocês”, disse uma âncora da emissora, durante a transmissão, com a voz embargada.

O Exército de Israel, posteriormente, afirmou que o local era um alvo militar legítimo porque continha ativos militares do Hamas, que estaria usando a presença de veículos de imprensa como forma de se proteger de uma ação israelense. O porta-voz das Forças Armadas também negou a ideia de que seu país estaria tentando silenciar a mídia e defendeu ser impossível destruir apenas as supostas instalações do grupo islâmico sem derrubar a torre inteira.

Frente às justificativas dos militares, a agência americana de notícias disse desconhecer quaisquer indicações de que o Hamas estava no edifício ou atuando nele. "O escritório da agência está neste prédio há 15 anos. Nunca colocaríamos conscientemente nossos jornalistas em risco." Os EUA, por meio de sua secretária de imprensa, Jen Psaki, afirmaram ter transmitido a Israel que "garantir a segurança e proteção de jornalistas e da mídia independente é uma responsabilidade primordial".

Na quarta (12), outro prédio de Gaza, no qual estavam concentrados 14 veículos de comunicação, segundo a ONG Repórteres Sem Fronteiras, já havia sido destruído por mísseis israelenses, numa ação que, de acordo com o Comitê para a Proteção de Jornalistas, provocou mortes.

Ao menos 148 pessoas foram mortas em Gaza, incluindo 41 crianças, e outras 950 ficaram feridas desde o início desta nova fase de hostilidades —os números crescem diariamente.

Durante a madrugada deste sábado, um bombardeio atingiu um acampamento de refugiados em Gaza e matou dez pessoas da mesma família, segundo médicos locais. Entre as vítimas estão uma mãe e seus quatro filhos, com idades entre 5 e 15 anos, e quatro primos, com idades entre 8 e 14 anos, além da mãe deles. A família estava reunida para celebrar o feriado de Eid al-Fitr, que marca o fim do ramadã.

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De acordo com militares israelenses, os bombardeios miravam apenas locais de lançamento de foguetes e apartamentos que pertencem a militantes do Hamas, responsável por iniciar as atuais ofensivas devido à ameaça de despejo de famílias palestinas de Jerusalém Oriental e em retaliação aos confrontos entre a polícia israelense e palestinos na mesquita de al-Aqsa, o terceiro local mais sagrado do islã.

Na madrugada deste domingo, noite de sábado no Brasil, Israel bombardeou a casa do chefe do grupo radical em Gaza, e ao menos três palestinos foram mortos nos ataques aéreos. Muitos outros ficaram feridos, enquanto os sons de pesadas ações militares rugiam durante a noite.

Mais cedo, em Israel, um foguete lançado de Gaza atingiu um prédio residencial em Beersheba, no sul do país, e um israelense de 50 anos foi morto em Ramat Gan, nos arredores de Tel Aviv, também após um ataque que partiu do lado palestino. Agora, a cifra de mortos em Israel chegou a dez —um soldado na fronteira e nove civis, dois dos quais crianças.

​Os esforços diplomáticos regionais e internacionais ainda não mostraram sinais de que podem interromper as hostilidades. O Egito enviou ambulâncias pela fronteira com Gaza para levar palestinos a hospitais egípcios, e Hady Amr, subsecretário-assistente dos EUA para Israel e assuntos palestinos, voou para Israel na sexta, antes da reunião do Conselho de Segurança da ONU marcada para este domingo (16).

O presidente americano, Joe Biden, por sua vez, voltou a telefonar para o premiê israelense, Binyamin Netanyahu, e, pela primeira vez, entrou em contato com Mahmoud Abbas, presidente da Autoridade Nacional Palestina (ANP). Ao primeiro-ministro o democrata reafirmou que Israel tem o direito de se defender, e à autoridade palestina destacou que o Hamas tem de cessar as ações com foguetes.

O pedido, porém, deve ter pouco efeito, já que os EUA e a maioria das potências ocidentais se recusam a falar com o Hamas, que consideram uma organização terrorista, e Abbas, que pertence ao Fatah, rival do grupo radical, tem sua base na Cisjordânia ocupada, exercendo pouca ou nenhuma influência em Gaza.

Tanto Biden quanto Abbas, de acordo com comunicado da Casa Branca, compartilharam da preocupação com a morte de civis, incluindo crianças. O líder americano também teria dito ao presidente da ANP que se opõe ao despejo de palestinos de Jerusalém Oriental, declaração presente em resumo feito pela agência palestina de notícias WAFA, mas ausente do comunicado divulgado pelo governo americano.

Desde sexta, as baixas palestinas se estendem além de Gaza. Após manifestantes e forças israelenses entrarem em confronto, houve o relato de 11 mortos na Cisjordânia ocupada. Em Israel, de pequenas cidades na fronteira com Gaza a Beersheba e Tel Aviv, muitos correm para se proteger ao receberem avisos de ataques na rádio e na TV, além de mensagens de alerta em seus telefones. Neste sábado, em uma praia de Tel Aviv, houve correria após o disparo de sirenes que avisavam do perigo de foguetes.

As hostilidades entre Israel e Gaza foram acompanhadas de violência nas comunidades mistas de judeus e árabes de Israel. Sinagogas foram atacadas, lojas de propriedade de árabes e de judeus, vandalizadas, e brigas ocorreram nas ruas. O presidente de Israel, Reuven Rivlin, que desempenha um papel essencialmente cerimonial, alertou sobre a possibilidade de uma guerra civil.

O Egito vem pressionando por um cessar-fogo para que negociações possam começar, de acordo com duas fontes de segurança do país. Cairo tem apoiado o Hamas e pressionado outros atores do conflito, como os Estados Unidos, para garantir um acordo com Israel. Os chanceleres egípcio e jordaniano discutiram os esforços para encerrar o confronto em Gaza e evitar "provocações" em Jerusalém.

Segundo uma autoridade palestina, as negociações tomaram um caminho "real e sério" na sexta, com mediadores de Egito, Qatar e ONU intensificando contatos para tentar restaurar a calma na região. Os Emirados Árabes Unidos, que, em setembro, ao lado do Bahrein, tornaram-se o primeiro estado árabe em um quarto de século a estabelecer laços com Israel, também pediram a interrupção dos ataques.

As companhias aéreas emiradenses Etihad Airways e FlyDubai, que passaram a operar em Israel após os acordos diplomáticos, anunciaram o cancelamento de voos para Tel Aviv a partir deste domingo, acompanhando a decisão de empresas americanas e europeias para evitar as hostilidades na região.

O Exército israelense disse neste sábado que cerca de 2.300 foguetes foram disparados de Gaza contra Israel desde segunda-feira, com cerca de 1.000 deles interceptados por defesas antimísseis, e 380 caindo na Faixa de Gaza. A agitação civil entre judeus e árabes em Israel desferiu um golpe nos esforços da oposição israelense para destituir o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu após uma série de eleições inconclusivas, aumentando a perspectiva de uma inédita quinta eleição em pouco mais de dois anos.​

Naftali Bennet, líder do partido ultranacionalista Yamina, por exemplo, anunciou ter abandonado as negociações para formar uma coalizão com siglas de centro e de esquerda em favor de um governo de união mais amplo, que atenda ao interesse da nação em tempos de crise.

O cenário pós-eleitoral continua basicamente o mesmo: Netanyahu teve a chance de formar um novo governo e falhou. Agora, o principal bloco de oposição, liderado pelo centrista Yair Lapid, da legenda Yesh Atid, também não tem um caminho claro para reunir maioria no Parlamento de 120 membros.

Analistas dizem que o colapso da parceria entre Lapid e Bennett no contexto da violência atual em Israel dá a Netanyahu tempo extra para fazer um movimento político para se manter no poder. Lapid tem mais três semanas para formar um governo de coalizão, e um “acordo rotativo”, no qual ele e Bennett se revezariam como premiês, foi cogitado, mas precisaria do apoio de legisladores árabes para obter maioria.

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