Brexit inflamou paixões sectárias na Irlanda do Norte em grau nunca visto desde 1998

Com temporada de marchas de fiéis à monarquia no horizonte, há receio de que casos recentes de violência tenham sido apenas um aquecimento

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Mark Landler
Belfast (Irlanda do Norte) | The New York Times

A pandemia foi difícil para David Milliken, que vende tambores, bandeiras e bandeirolas pró-Reino Unido em sua loja em Sandy Row, reduto de cidadãos leais à monarquia britânica em Belfast. Agora, porém, “as coisas voltaram a reabrir”, especialmente desde que “a turbulência voltou”.

Dois meses atrás, Sandy Row explodiu em chamas quando manifestantes mascarados atiraram pedras e coquetéis molotov contra a polícia para protestar contra o que descreveram como “a traição do brexit”.

Com a temporada de marchas de fiéis à realeza prevista para começar em julho, há receios de que essa erupção de violência não tenha passado de um aquecimento.

Casa decorada com faixas da bandeira do Reino Unido no bairro de Sandy Row, em Belfast, na Irlanda do Norte
Casa decorada com faixas da bandeira do Reino Unido no bairro de Sandy Row, em Belfast, na Irlanda do Norte - Paulo Nunes dos Santos/The New York Times

Como outras pessoas em Sandy Row, Milliken, 49, não quer assistir ao retorno do conflito na Irlanda do Norte, a sangrenta guerra travada ao longo de 30 anos entre nacionalistas católicos, que buscam a unificação da Irlanda do Norte com a República da Irlanda, e os lealistas e unionistas, predominantemente protestantes, que querem que a Irlanda do Norte continue a fazer parte do Reino Unido.

Mas o brexit, que segundo lealistas está provocando um distanciamento entre a Irlanda do Norte e o resto do Reino Unido, vem inflamando as paixões sectárias em um grau que não era visto havia décadas.

Isso é bom para Milliken, ou pelo menos para seus negócios, já que ele fornece artigos para as bandas lealistas que sairão às ruas para marchar em 12 de julho, comemorando a icônica vitória militar de William de Orange sobre o rei católico James 2º em 1690.

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Normalmente, essa manifestação espalhafatosa de orgulho protestante irrita os católicos. Nesta temporada de marchas, porém, são os lealistas que estão se sentindo espezinhados e amargurados, não os nacionalistas. Milliken comparou a situação dos lealistas (um subconjunto especialmente ferrenho da população unionista da Irlanda do Norte) à dos republicanos irlandeses nos tempos mais sombrios do conflito na Irlanda do Norte, quando os nacionalistas enfrentaram os soldados britânicos armados.

“É uma versão espelhada do que aconteceu com a outra comunidade”, comentou Milliken. “Nestes últimos anos, os jovens viram que a ameaça de violência funciona. Tudo está começando a virar de ponta-cabeça.”

O espectro do retorno da violência representa um risco real ao Acordo da Sexta-Feira Santa, selado em 1998 e que pôs fim a décadas de conflito sectário, em parte por refrear a política identitária na Irlanda do Norte. O brexit reacendeu essas paixões, e elas poderão exacerbar-se mais ainda em 2021 se, como sugerem pesquisas de opinião atuais, o principal partido nacionalista irlandês, o Sinn Féin, tornar-se o maior partido da Irlanda do Norte, enfrentando unionistas divididos e desmoralizados.

O presidente americano, Joe Biden, já aconselhou o primeiro-ministro britânico, Boris Johnson, a não fazer nada que enfraqueça o Acordo da Sexta-Feira Santa, mediado com a ajuda de outro presidente democrata americano, Bill Clinton. A expectativa é a de que Biden volte a tratar do assunto nesta semana, quando se reunir com Boris antes de uma cúpula do G7 na Cornualha, no sudoeste da Inglaterra.

Biden estuda a nomeação de um enviado para a Irlanda do Norte, uma perspectiva que agrada ao Sinn Féin e preocupa os lealistas, que temem o favorecimento dos nacionalistas por parte do líder americano.

O fator que desencadeou os tumultos recentes foi a decisão da polícia de autorizar a realização do funeral de um suposto chefe de inteligência do Exército Republicano Irlandês (IRA), apesar das restrições às reuniões em massa devidas à Covid.

A causa mais profunda, porém, é algo chamado de Protocolo da Irlanda do Norte, um constructo legal pós-brexit que deixou a Irlanda do Norte em posição incômoda entre os sistemas comerciais do Reino Unido e da União Europeia. O protocolo nasceu de um acordo fechado entre Londres e Bruxelas para evitar trazer de volta uma fronteira concreta entre a Irlanda do Norte e a República da Irlanda.

O problema é que o protocolo prevê a checagem dos bens que circulam entre a Irlanda do Norte e o resto do Reino Unido, algo que encerra um custo tanto comercial quanto psicológico.

“Trata-se de uma separação entre a Irlanda do Norte e o resto do Reino Unido, e isso atingiu em cheio a comunidade aqui”, afirma David Campbell, presidente do Conselho de Comunidades Lealistas, que representa grupos paramilitares que, segundo alguns, estão instigando agitação.

Campbell disse que na realidade os paramilitares tentaram manter a população fora das ruas. Mas ele avisou que, a não ser que o protocolo seja abandonado ou reescrito radicalmente, é possível que a violência volte a explodir durante a temporada das marchas. “O problema da violência do lado unionista é que ela precipita violência do lado republicano”, diz ele.

Até agora, o sentimento de revolta parece estar concentrado em áreas unionistas e lealistas. Em Sandy Row, faixas penduradas em postes de luz declaram que o distrito “JAMAIS aceitará uma fronteira no Mar da Irlanda!” –referência aos controles impostos ao comércio com o Reino Unido.

Uma bandeira semelhante foi hasteada perto de um terreno cheio de lixo onde moradores estão armazenando lenha para fazer fogueiras na noite de véspera de 12 de julho.

Os lealistas encararam a eleição de Biden como mais um contratempo, na medida em que colocou na Casa Branca um americano de origem irlandesa e católico devoto, após quatro anos durante os quais Donald Trump fomentou uma aproximação com Boris e expressou apoio ao Reino Unido em seu divórcio amargo da União Europeia.

Jonathan Powell, ex-chefe de gabinete de Tony Blair, o premiê britânico na época do Acordo da Sexta-Feira Santa, reconheceu que a contribuição de Biden “pode ser importante em relação ao protocolo”.

O senso de uma comunidade que está em recuo era palpável em Sandy Row.

O comerciante Paul McCann, 46, mencionou que construtoras estão comprando terrenos nas margens do bairro para construir hotéis e prédios de apartamentos de alto padrão. Ele disse que a prefeitura quer demolir a ponte Boyne para criar um centro de transportes. A construção é predecessora daquela que William de Orange teria atravessado a caminho da batalha fatídica contra James 2º. “Estão tentando anular nossa história”, afirma McCann. “Querem encolher nossas comunidades lealistas mais e mais.”

Gordon Johnston, 28, é organizador comunitário. Para ele, é uma questão de justiça: os lealistas aceitaram o argumento de que voltar a impor uma fronteira concreta entre o norte e o sul da Irlanda provocaria violência; logo, o mesmo princípio deveria se aplicar à Irlanda do Norte e ao resto do Reino Unido. “Ou é uma coisa ou outra”, disse ele. “Ou não temos fronteiras ou haverá violência nas ruas.”

Tradução de Clara Allain

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