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Carlos Graieb

Documentário sobre fotógrafo brasileiro perde chance de desvendar razão de cobrir guerras

'Você Não É um Soldado', dirigido por Maria Carolina Telles, retrata trabalho do premiado André Liohn

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Carlos Graieb
São Paulo

De todas as perguntas sobre o trabalho de um jornalista especializado na cobertura de guerras, a menos importante sempre me pareceu ser a do por quê. Por que alguém sai de casa para testemunhar, na linha de tiro, um conflito que não é de seu povo, muito menos seu? Haverá tantas respostas quanto houver pessoas. Ou, dito de outra forma, só o divã do analista trará respostas honestas. Assim, as perguntas "para que cobrir guerras" e "como fazê-lo" sempre me pareceram muito mais relevantes.

Vem daí minha implicância com o documentário "Você Não É um Soldado", sobre a trajetória do premiado fotógrafo brasileiro André Liohn. Dirigido por Maria Carolina Telles, que já assinou "A Verdade da Mentira", sobre a era das fake news, o filme se declara preocupado, antes de tudo, com as razões que levam alguém a desejar estar num campo de batalha.

Imagem registrada pelo fotógrafo brasileiro André Liohn
Imagem registrada pelo fotógrafo brasileiro André Liohn - Andre Liohn/Divulgação

O interesse, revela a documentarista, vem do fato de seu pai ter sido convocado para a Segunda Guerra Mundial. O armistício, porém, chegou antes que ele fosse para a linha de frente, o que o frustrou para sempre. Por quê?, pergunta a cineasta. Sem ter a resposta do pai, já morto, ela vai buscá-la em Liohn.

Esse desejo de morte alimentado por muitas pessoas, homens especialmente, é sem dúvida um tema poderoso. O foco na relação entre quem vai para a guerra e sua família rende momentos tocantes do filme. Liohn tem um filho e uma filha, ainda crianças. Ambos detestam o trabalho do pai.

"Você tem um trabalho de merda, me faz vomitar", diz o menino. Em outra passagem, ainda mais forte por acontecer em meio a uma brincadeira, perto da partida de Liohn para uma viagem, o garoto exclama: "Pode ver que o papai quer morte!".

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Não se pode dizer, contudo, que o documentário consegue desvendar de fato o enigma. Aliás, nem mesmo as motivações de Liohn chegam a ser desvendadas. A certa altura, o fotógrafo revela sua irritação com pessoas que dizem ter o sonho de fazer cobertura de guerras. "Vir aqui tem de ser consequência de alguma coisa na vida da pessoa, menos um sonho", diz ele. O documentário fala de sua infância pobre no interior de São Paulo, mostra seus pais e o lugar onde cresceu. Não chega a ser uma explicação.

Cartaz do filme "Você Não É um Soldado", dirigido por Maria Carolina Telles, que retrata trabalho do fotógrafo premiado André Liohn
Cartaz de "Você Não É um Soldado", dirigido por Maria Carolina Telles, que retrata o trabalho do fotógrafo André Liohn - Reprodução


Em paralelo a isso —e formando, na verdade, o corpo do filme— estão as imagens que Liohn gravou em campo. Com quase 15 anos de carreira, ele não é uma figura menor no seu metiê. Em 2011, ganhou a Robert Capa Gold Medal, a mais importante honraria da fotografia de guerra, com menções especiais à sua coragem e iniciativa. Liohn seria o personagem ideal para um mergulho no "como" e no "para que" do jornalismo de guerra, mas isso também não acontece.

A ausência de qualquer contextualização para os combates é o que mais exaspera. Como era o regime de Muammar Gaddafi na Líbia? Quem pegou em armas contra ele? Quem eram as pessoas que Liohn acompanhava, e como ele chegou a elas? E no Iraque, o que desejava o Estado Islâmico? Quem foram suas vítimas, quem o combatia?

A falta de informações, ainda que mínimas, é uma traição ao espírito do jornalismo de guerra. A história e o sentido dos conflitos se perdem, e sobram apenas homens de pele morena matando uns aos outros.

Um tema crucial é arranhado: as guerras de propaganda que hoje se sobrepõem, em tempo real e como nunca antes, às guerras de tiros e sangue. A busca dos combatentes por controlar a informação é sem dúvida um dos motivos pelos quais jornalistas se tornaram alvos constantes neste século.

Liohn tem uma percepção clara do fenômeno. A dificuldade para fazer circular os fatos que nenhum lado gostaria de ver expostos —talvez a tarefa maior do jornalismo de guerra— o leva inclusive a crises existenciais. Mas o filme enxerga com menos clareza que o fotógrafo.

O que faz de "Você Não É um Soldado" uma oportunidade perdida.

Você Não É um Soldado

  • Quando Estreia em agosto
  • Produção Brasil, 2021
  • Direção Maria Carolina Telles
  • Duração 109 min.
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