Livro percorre o longo caminho das imagens na fotografia de guerra

Observação elaborada por historiador alemão é bússola de obra do jornalista Leão Serva

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São Paulo

Um rebelde líbio ferido tenta afastar a morte inevitável numa premiada imagem retratada pelo fotógrafo brasileiro André Liohn em 2011.

O músico grego Orfeu tenta se livrar de golpes fatais em uma pose semelhante numa gravura do alemão Albrecht Dürer de 1494 que, por sua vez, copiava outra atribuída à escola do mestre veneziano Andrea Mantegna de alguns anos antes.

Fotografia do brasileiro André Liohn mostra rebelde líbio ferido em 2011
Fotografia do brasileiro André Liohn mostra rebelde líbio ferido em 2011 - Andre Liohn/Divulgação
Detalhe de "A Morte de Orfeu", de Albrecht Dürer, imagem presente no livro
Detalhe de 'A Morte de Orfeu', de Albrecht Dürer, imagem presente no livro - Reprodução

O lapso temporal da Antiguidade clássica, onde a morte do mítico Orfeu foi descrita, até os desertos calorentos da Líbia de Muammar Gaddafi é o objeto do jornalista Leão Serva em "A Fórmula da Emoção na Fotografia de Guerra".

Calcado em pesquisa detalhada, baseada na tese de doutorado de Serva apresentada à PUC-SP em 2017, o livro busca tracejar pontos comuns ao longo dos séculos para analisar esteticamente um fenômeno mais recente, a fotografia de guerra.

Recente em termos históricos, claro, dado que a prática surgiu no primeiro conflito a ter uma cobertura efetiva: a guerra da Crimeia, perdida pelos russos para uma coalizão de ocidentais e otomanos em 1856, mãe de tantas animosidades entre o Kremlin e a Europa.

No centro da tese, o parentesco anímico entre a representação do espanto, da dor, enfim, do "páthos", a emoção intensa que envolve os momentos extremos da existência humana —e quase todos podem ser encontrados no conflito armado.

Diretor de Jornalismo da TV Cultura, Serva experimentou a cobertura de guerra, como em viagens à Bósnia-Herzegovina nos anos 1990, durante a ruptura da Iugoslávia, pela Folha. Dali surgiu um livro sobre Sarajevo.

Mas ele agora é acadêmico, assim como o conhecido instrumento que usa: a leitura feita pelo historiador da arte Aby Warburg acerca dessa familiaridade imagética que transcendeu os séculos.

O alemão "de sangue judeu e alma florentina" Warburg (1866-1929) passou a vida estabelecendo similaridades, de forma metódica, entre as imagens arquetípicas legadas pela Antiguidade ao Renascimento e mais para a frente.

De cabelos ao vento ao horror ante a morte, quase tudo era catalogável. Dali surgiu a Pathosformel, alemão para a Fórmula da Emoção que embasa o livro de Serva, e um inacabado e monumental Atlas de Imagens Mnemosine (em homenagem à guardiã da memória e mãe de todas as musas da mitologia grega).

Uma observação menos intelectualizada diria que nas descrições de violência tal espírito de continuidade estética é mera emulação de instintos primários do homem: todos reagem de forma mais ou menos igual quando ameaçados.

Cristo deposto da cruz em detalhe da Pietà de Cosme Tura, imagem presente no livro
Cristo deposto da cruz em detalhe da Pietà de Cosme Tura, imagem presente no livro - Reprodução
Soldado carreado por colegas na Nicarágua, capturado em foto do americano James Nachtwey
Soldado carreado por colegas na Nicarágua, capturado em foto do americano James Nachtwey - James Nachtwey/Divulgação

Tal ideia não escapou a Warburg, como conta Serva em sua introdução ao mestre, já que ele foi leitor da obra de Charles Darwin acerca da identidade de emoções entre homens e animais —menos famosa, mas não menos polêmica à época do lançamento (1872) do que o clássico "A Origem das Espécies" (1859).

Durante a Primeira Guerra Mundial (1914-18), Warburg queria servir à Alemanha e montou um grande arquivo com dados estéticos acerca do conflito, embate que legou ao mundo não só horror, mas, na argumentação do historiador canadense Modris Eksteins, todo o modernismo.

Em 2004, o Instituto Warburg, em Londres, localizou um lote perdido de fotografias da guerra reunidas pelo alemão. Durante a confecção de sua tese, Serva as estudou pessoalmente.

Em seu texto, o jornalista analisa outras fotografias de forma temática (imagem de Cristo, decapitados etc.) e comenta fenômenos que não são estranhos ao jornalismo de conflito, como as "armações" de fotos para aumentar seu impacto estético.

Ele relata a sugestão de que isso possa ter ocorrido no famoso registro do veneziano Felice Beato de uma fortaleza hindu ocupada em 1858 pelos britânicos, coalhada de esqueletos dos rebeldes vencidos.

Nada muito diferente em sentido da distribuição de rádios a pilha para moradores de Cabul logo após a queda do Taleban, em novembro de 2001, quando alguns jornalistas ocidentais queriam provar ao mundo a animação dos locais com o acesso à música coibida sob o regime fundamentalista.

Mas as implicações políticas e éticas da fotografia de guerra não são o objeto primário de Serva —para tanto, a ensaísta Susan Sontag e seu arco de análise que vai de "Sobre Fotografia" (1977) a "Diante da Dor dos Outros" (2003) são um começo.

Serva irá participar de uma conversa virtual sobre o livro no próximo dia 14 às 19h, no site da TV PUC (http://tvpuc.com.br/home/).

A Fórmula da Emoção na Fotografia de Guerra

  • Preço R$ 69 (204 págs.)
  • Autor Leão Serva
  • Editora Edições Sesc SP
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