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Derrota do governo em primárias expõe insatisfação com Fernández na Argentina

Peronismo fica atrás da oposição em votação que define listas para o pleito legislativo de novembro

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Buenos Aires

O governo peronista do presidente Alberto Fernández sofreu uma dura derrota neste domingo (12), nas primárias argentinas para as eleições legislativas. Embora a votação na prática defina apenas quais candidatos poderão concorrer no pleito, a ser disputado em 14 de novembro, o resultado é considerado um termômetro da gestão federal.

A apuração foi encerrada na manhã desta segunda (13). Ao final, a principal força de oposição, a coalizão de centro-direita Juntos, obteve 40,02% dos votos em nível nacional —confirmando a dianteira que se desenhava no domingo—, enquanto o peronismo obteve 31,03%. Se o resultado for confirmado na eleição de novembro, a Juntos se tornará a principal força na Câmara de Deputados, embora com maioria simples.

Os peronistas, por sua vez, manteriam a maioria simples no Senado.

"A derrota é mais de Fernández do que dos peronistas. O desgaste é dele, cuja aprovação vem caindo devido a erros muito particulares, notadamente a administração da pandemia e da economia", diz Mariel Fornoni, diretora do instituto de pesquisas Management & Fit.

O presidente Alberto Fernández e a vice, Cristina Kirchner, em pronunciamento nesta segunda, após a confirmação da derrota do governo nas primárias legislativas - Maximiliano Luna/Telam/AFP

"Existe, ainda, uma reprovação envolvendo algo que recai apenas sobre ele: a culpa por ter feito uma festa de aniversário para a primeira-dama durante a pandemia, contrariando seu próprio decreto. Os números mostram que a votação ruim dos candidatos peronistas acompanhou o desgaste dele como líder."

O evento, realizado na residência oficial da Presidência, se deu no momento de restrições mais agudas à circulação de pessoas no país, para conter a disseminação do vírus. Uma foto que vazou do que ficou conhecido como Olivos-gate levou Fernández primeiro a mentir e depois a ter de pedir desculpas publicamente.

Na tarde desta segunda, em um evento na Casa Rosada, o presidente argentino assumiu o resultado ruim nas primárias. "Fizemos algo errado e precisamos entender o que foi", disse. "O rumo tomado em 2019 [quando ele assumiu a Presidência] não vai ser alterado. Existem razões pelas quais as pessoas não nos acompanharam nesta votação, e nós agora vamos escutá-las melhor."

A ala mais à esquerda da coalizão do governo, liderada pela vice-presidente Cristina Kirchner, tem manifestado descontentamento com a gestão e pressiona por uma reforma ministerial. "Fernández teve sua chance colocando seus pré-candidatos nessa corrida eleitoral, mas eles perderam. Agora, a ala ligada a Cristina certamente se fará ouvir, e é possível que o presidente tenha de se desfazer de ministros ou mudar suas políticas", afirma o analista político Sergio Berenzstein.

Um dos pontos de maior atenção na disputa das primárias era na província de Buenos Aires —distritos e municípios ao redor da capital do país, esta uma região autônoma—, onde está o maior eleitorado da Argentina.

Ali, a candidata peronista Victoria Tolosa Paz conseguiu mais votos que seus rivais, com 33,64% do total. Ocorre que os outros dois candidatos mais bem votados, Diego Santilli (22,9%) e Facundo Manes (15%), pertencem a uma mesma aliança, a Juntos. Portanto, estarão na mesma lista em novembro, encabeçada por Santilli. Somados os seus votos, a Juntos superaria o peronismo no principal reduto eleitoral das Argentina.

Na cidade de Buenos Aires, tradicionalmente mais antiperonista que o resto do país, a vitória da oposição foi mais contundente. A ex-governadora María Eugenia Vidal obteve 49,19% dos votos, contra 24,66% do peronista Leandro Santoro.

A novidade foi o bom desempenho dos ultradireitistas conhecidos como libertários, puxados pelo economista Javier Milei. A coalizão Avanza Libertad obteve sua melhor votação no país na capital argentina, com 13,66% dos votos —em nível nacional, ficou com 7,41%. Se essa votação se repetir em novembro, os libertários poderiam ganhar, no Congresso, de duas a quatro vagas.

Para o historiador Pablo Stefanoni, Milei teve sucesso buscando repetir uma fórmula usada pelo ex-presidente americano Donald Trump. "Ele deixou de ser apenas um economista para entrar na política abraçando o pacote ideológico da 'alt-right' [direita alternativa, em inglês]", diz. "Antes seu discurso era anticoletivismo, pró-mercado. Na campanha, passou a abraçar o anticomunismo e bandeiras que vêm mobilizando novos movimentos de direita pelo mundo."

Visto por muitos analistas como um fenômeno ligado à classe média-alta de Buenos Aires, Milei obteve boa votação também em distritos pobres da cidade, como os bairros de Villa 31 e Villa Soldati.

Do outro lado do espectro, a esquerda tradicional também termina as primárias legislativas com resultados positivos. Apesar de ter um eleitorado tradicionalmente pequeno, num país em que o peronismo costuma abafar o socialismo, a Frente de Izquierda registrou desempenho nacional um pouco melhor que o dos libertários, com 7,58%. A se repetir a tendência em novembro, deve manter sua bancada pequena, porém persistente, no Congresso.

O economista Carlos Melconian diz acreditar que a derrota peronista está mais relacionada ao "bolso dos argentinos do que às festas clandestinas de Fernández". Ele defende uma reformulação da política econômica. "É preciso que o governo combata a inflação [que está na casa de 50% ao ano], em vez de emitir dinheiro, e construa uma alternativa para a crise que já afeta tantos empregos e lares", afirma.

Os mercados deram sinais positivos nesta segunda, depois da confirmação dos resultados, com as ações de empresas argentinas tendo alta de 17%. O dólar paralelo, que vem se desvalorizando em relação ao câmbio oficial, também caiu, fechando a 182 pesos (o oficial está em 103 pesos).

"O mundo espera uma Argentina mais organizada, e os mercados reagem positivamente quando o populismo perde. As pessoas mostraram que estão contra a má administração econômica", afirmou o ex-presidente Mauricio Macri, líder da aliança Juntos, a uma emissora local.

Ao servir de termômetro da gestão de Fernández, as primárias legislativas também pesam na corrida para a sucessão do mandatário, em 2023 —alguns pré-candidatos já começam a se movimentar. "Um sucesso da Juntos em novembro pode catapultar o nome de Horacio Rodríguez Larreta [hoje chefe de governo da cidade de Buenos Aires]", diz Berensztein, "até porque o peronismo se vê dividido sobre possíveis sucessores, e o presidente se mostra sem fôlego para disputar uma reeleição".

A participação nas primárias foi relativamente baixa para os padrões argentinos, onde o voto é obrigatório e a população em geral tem alto grau de politização. O comparecimento final foi de 67% —o ministro do Interior, Wado de Pedro, havia afirmado na noite anterior que havia passado dos 70%. Quem faltou nas primárias pode votar no pleito de novembro.

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