Descrição de chapéu oriente médio

Negócios dão o tom da paz entre Israel e Emirados Árabes Unidos

Anúncios de investimentos são constantes, e cooperação militar contra Irã se insinua

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Dubai e Abu Dhabi

No segundo andar da reluzente torre Almas, em Dubai, um enorme diamante de mentira recebe os visitantes à porta de uma das maiores bolsas de comércio de pedras preciosas do mundo, no DMCC (sigla inglesa para Centro de Múlti Commodities de Dubai).

A composição kitsch tira a atenção do maior escritório de representação no saguão, logo à direita: o de Israel, país que até 15 de setembro do ano passado nem era reconhecido oficialmente pelos Emirados Árabes Unidos. "Há um ano, nunca pensaria em ver isso aqui", disse o segurança Hassan.

Árabes durante visita guiada ao pavilhão de Israel antes da abertura da Expo Dubai 2020
Árabes durante visita guiada ao pavilhão de Israel antes da abertura da Expo Dubai 2020 - 27.set.21 - AFP

Nem ele nem o presidente do DMCC, o efusivo Ahmed bin Sulayem, que acaba de ser eleito embaixador do Conselho Mundial de Diamantes —um reconhecimento ao trabalho que tirou os Emirados do nada ao terceiro lugar no comércio mundial da pedra, com US$ 21 bilhões anuais negociados.

"Estamos numa posição privilegiada", afirmou, ao receber empresários numa missão comercial do governo paulista na semana passada, encontro no qual buscou afastar as críticas sobre práticas monopolistas como inveja de europeus. E o antigo adversário do outro lado da Península Arábica, o Estado judeu, é parte dos planos de expansão.

Desde que os chamados Acordos de Abraão, pretensioso nome bolado pelo governo Trump para simbolizar a união das três fés conflituosas com origem comum na região, entraram em vigor, a velocidade dos negócios tem impressionado analistas.

Com Donald Trump mancando rumo à derrota para Joe Biden, os tratados foram sacados como um trunfo de política externa. Depois de décadas apenas em paz com Jordânia e Egito, Tel Aviv de uma só vez se acertou com duas monarquias do Golfo Pérsico, Bahrein e Emirados Árabes.

Escritório de negociação de diamantes israelense na bolsa de commodities de Dubai
Escritório de negociação de diamantes israelense na bolsa de commodities de Dubai - Igor Gielow/Folhapress

Entre os sete emirados que compõem o último Estado, o entusiasmo é maior nos mais vistosos, Abu Dhabi e Dubai. No primeiro, o dinheiro do petróleo é preponderante, assim como a musculatura de seus fundos soberanos: o Mubadala comprou por US$ 1 bilhão um campo de gás natural em Israel em abril.

No segundo, que foca serviços, comércio e turismo, os negócios estão em todos os cantos.

Instalado na cidade desde junho, o cônsul israelense (nascido no Brasil) Ilan Sztulman Starosta é figura fácil em eventos comerciais e sociais —parte do espírito de negócios emirati, com as famosas festas dadas por Sulayem, como a oferecida às margens da Expo Dubai 2020 na semana passada.

Em agosto, a mulher de Starosta, Jackie, deu à luz Mia, a primeira criança israelense nascida nos Emirados —pelas mãos de um médico americano muçulmano, em um simbolismo considerável.

A mão contrária é verdadeira: o DMCC instalou-se na Bolsa de Diamantes de Tel Aviv, e a gigante Emirates anunciou seu voo diário para a cidade na quinta (4), unindo-se a duas empresas de baixo custo locais e à Etihad (Abu Dhabi), além da Arkia israelense, na rota entre os dois países.

A estatal IAI (Israel Aerospace Industries) anunciou que abrirá um centro para um de seus negócios mais rentáveis, a conversão de grandes jatos comerciais como o Boeing-777 em cargueiros, em Abu Dhabi até o ano que vem.

Analistas de ambos os países apontam Dubai como o entreposto perfeito para incrementar o comércio com a Índia, que já tem forte presença num mercado imobiliário na cidade que impressiona por seu gigantismo e vazio de ocupação de unidades.

Hoje, cerca de 500 empresas de ambos os países se uniram no Conselho de Negócios Emirados-Israel. Segundo o governo árabe, neste primeiro ano houve US$ 700 milhões em negócios concretizados e bilhões em promessas futuras —ante míseros US$ 200 mil de lado a lado, por meios indiretos, até 2019.

O plano de Abdulla bin Touq, o ministro da Economia, é que em uma década o volume bilateral chegue a US$ 1 trilhão.

Tal pujança, claro, sustenta planos mais ambiciosos. Os EUA montaram a sequência de acordos de paz de árabes com Israel, completada após os dois primeiros por Sudão e Marrocos, visando diminuir o isolamento do aliado e formar uma frente ampla local contra o Irã.

Em comum, todos os árabes em questão têm a proximidade com a Arábia Saudita, centro do islamismo do ramo majoritário sunita. Teerã é o foco do xiismo, e geopoliticamente luta com Riad e também Ancara por influência regional, com o fomento a grupos como o Hizbullah libanês ou o Hamas palestino, por exemplo.

Que a proximidade com a máquina militar israelense se encaixe nesse cenário, é inevitável. Na semana passada, o comandante da Força Aérea emirati, Ibrahim Muhammed al-Alawi, visitou pela primeira vez Israel.

Perto de Eilat, acompanhou 80 caças da Aeronáutica local e mais sete países convidados executarem as manobras Blue Flag 2021.

Chamou especial atenção sua presença numa instrução específica para os modernos aviões de quinta geração americanos F-35, que Israel opera e os EUA querem vender para os Emirados, que pretendem substituir seus 78 F-16 americanos e 59 Mirage-2000 franceses.

Esse tipo de padronização, incomum na região, significa também bons negócios para os patrocinadores da paz, os EUA. Quem não está satisfeito são os palestinos, deixados de lado nos acordos e com seu sonho de Estado viável cada vez mais distante.

Na Expo Dubai, primeira grande feira mundial pós-pandemia, Israel estava presente com um pavilhão vazio, quase um galpão, enquanto a Palestina exibia uma estrutura mais robusta, adornada com imagens da Jerusalém que deseja como capital.

A realidade, contudo, não poderia ser mais díspar, apesar das promessas do emir de Abu Dhabi, que é o presidente dos Emirados, de apoio aos palestinos. Nem mesmo os graves distúrbios ocorridos neste ano em Jerusalém, Gaza e outras áreas conflituosas foram capazes de abalar a disposição comercial no Golfo.

O jornalista Igor Gielow viajou a convite da InvestSP

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