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Cracolândia sem viés

Tema é capturado pela polarização ideológica que assola o país

Fluxo de usuários de drogas na rua Helvétia, no centro paulistano
Fluxo de usuários de drogas na rua Helvétia, no centro paulistano - Diego Padgurschi/Folhapress

Uma das razões para a chaga da cracolândia paulistana não cicatrizar está na captura do tema pela polarização ideológica que assola o país. No caso em tela, o debate sempre descarrila quando se tenta confiná-lo à bitola estreita da dicotomia entre redução de danos e abstinência com internação.

A primeira noção inspirava o programa Braços Abertos, implantado em São Paulo na administração do prefeito Fernando Haddad (PT). Seus princípios: diminuir o consumo de crack, dar moradia e trabalho aos usuários e atraí-los para tratamento voluntário.

Tal filosofia destoava das medidas favorecidas pelo governo estadual sob Geraldo Alckmin (PSDB), que privilegiam a abstinência como precondição da assistência social e médica. Vitorioso na eleição municipal de 2016, o também tucano João Doria prometeu acabar com o programa da gestão petista e substituí-lo pelo Redenção.

Houve pouca surpresa, assim, quando em maio do ano passado, uma operação policial desmontou a cracolândia do centro, recuperando um território então controlando pelo comércio ilegal da droga. Doria, na ocasião, chegou a dizer que a mazela estava extinta.

Precipitou-se, obviamente. O próprio governador, mais prudente, chamou a atenção para o aspecto crônico do problema. De todo modo, houve queda sensível do número de usuários na região.

Conforme noticiou esta Folha, números do governo apontaram 414 deles em julho, contra 1.861 entre abril e maio. Em contrapartida, muitos se espalharam por outros locais. Há limites, como se nota, para a eficácia do trabalho policial.

Em paralelo, a prefeitura trabalha para fechar os hotéis em que a gestão do PT abrigava os que aderiam ao Braços Abertos, encaminhados aos Centros Temporários de Acolhida (CTAs) do Redenção.

Existem deficiências sanitárias sérias nos hotéis, mas alguns dos transferidos se queixam da falta de liberdade nos CTAs e acabam voltando às ruas.

O ensinamento a extrair da eficácia limitada de ambos os programas é que não há solução simples nem unilateral para a degradação social e urbana ensejada pelos extremos de dependência química prevalentes na cracolândia.

Alguns casos se resolverão com internação e abstinência; para os mais refratários, redução de danos pode ser a única via aplicável —como de resto já declarou o coordenador da área na gestão Doria, Arthur Guerra. Não haverá avanços enquanto políticas públicas continuem a ser tratadas como se fossem uma disputa de facções.​

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