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Trapalhada de Doria

Primeira versão de decreto sobre serviços de segurança pessoal ensejava uma série de dúvidas

O prefeito paulistano, João Doria, participou, em Brasília, de reunião sobre segurança pública
O prefeito paulistano, João Doria, participou, em Brasília, de reunião sobre segurança pública - Pedro Ladeira/Folhapress

Em seus prováveis últimos dias à frente da Prefeitura de São Paulo, João Doria (PSDB) publicou decreto que estende a ex-prefeitos os serviços de segurança pessoal prestados por um braço da Polícia Militar ao chefe do Executivo municipal. A proteção vale por um ano a contar da saída do cargo.

Ao que tudo indica, Doria deve abandonar o posto em abril para disputar o governo do estado no pleito de outubro —teria, portanto, segurança particular da PM, às expensas do poder público, durante a campanha eleitoral.

A primeira versão do decreto ensejava uma série de dúvidas, até mesmo quanto a sua legalidade. Como Doria obteria benefícios pessoais, seria possível alegar que a medida feria os princípios da moralidade e da impessoalidade da administração pública.

O diretório municipal do PT informou que entraria, com base nesse raciocínio, com uma ação popular contra o prefeito.

Ainda que se questionem os méritos jurídicos da tese, não há dúvida de que, ao menos no aspecto ético, Doria incorreu em erro

Se considerava essencial conceder a ex-prefeitos a prerrogativa, Doria deveria ter sugerido um projeto de lei nesse sentido ao Legislativo. Por óbvio, não deveria estar entre os  favorecidos pela proposta, como só ficou definido em nova redação do decreto.

A medida atabalhoada contribui para um desgaste adicional de sua imagem, ainda mais tratando-se de alguém que planeja renunciar ao cargo após apenas um ano e três meses de mandato. 

A esse respeito, é curioso notar que Doria, talvez por ter disputado uma única eleição até hoje, parece não ter desenvolvido as intuições de candidato. Em mais de uma ocasião, aventurou-se em empreitadas de benefício duvidoso e custo político elevado.

Caso mais notório foi o afã em credenciar-se à sucessão de Michel Temer (MDB), afinal frustrado, lhe rendeu a imagem de prefeito pouco interessado em sua cidade.

Foi visto como desleal, ademais, devido à disputa interna travada com seu padrinho político, o governador Geraldo Alckmin, pela vaga de candidato do PSDB ao Planalto.

Agora, em troca de uma insignificância, o tucano correu o risco de parecer mais um aproveitador de regalias do poder público.

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