Descrição de chapéu Opinião Ricardo Weder

A revolução da mobilidade urbana na América Latina

Nova geração prefere utilizar serviços de transporte a ter bens

Trânsito na zona sul de São Paulo, em foto de 2016 - Rivaldo Gomes - 24.fev.16/Folhapress

A mobilidade é uma das principais variáveis que afetam a qualidade de vida de qualquer cidade, e não dimensionamos realmente seus problemas ou oportunidades de melhoria. Na América Latina, as principais cidades sofrem dos mesmos problemas: falta de planejamento urbano e transporte público de massa, crescimento excessivo, falta de políticas públicas para modernizar e incentivar ecossistemas urbanos. No Brasil, ao analisarmos alguns investimentos, notamos como as cidades têm sido construídas em torno dos carros particulares.

Em São Paulo, segundo dados do Detran, a frota de carros aumentou 19% entre os anos de 2010 e 2017. Dados da CET sobre o congestionamento na cidade entre 2010 e 2017 mostram um maior pico em 2014, com 141 km de lentidão no período da tarde e 96 km no da manhã. Nos anos seguintes, curiosamente, há a diminuição gradual dos quilômetros de congestionamento na cidade, chegando ao ano de 2017 com picos de 88 km (a tarde) e 66 km (pela manhã), mesmo com o aumento da frota.

Uma explicação apontada por especialistas é a implantação de corredores de ônibus a partir de 2014 na cidade. De acordo com a SPTrans, houve um aumento de 50% na velocidade média dos ônibus na cidade após a criação das faixas exclusivas.

Além desses problemas, um veículo privado tem uma taxa de utilização de apenas 4%, ou seja, uma média de 1,2 pessoa por veículo, enquanto a capacidade habitual é de 4 a 5 pessoas. Imagine como o cenário mudaria se aumentássemos para 50% a taxa de ocupação, colocando 3 pessoas por veículo.

Hoje, perdemos incontáveis horas no trânsito que poderiam ser aproveitadas em atividades mais produtivas ou que melhorem nossa qualidade de vida. É clara a necessidade de políticas públicas que incentivem principalmente pedestres e ciclistas, que invistam e desenvolvam sistemas de transporte coletivo, seguros e sustentáveis, facilitando diversos trajetos urbanos.

Cerca de 45% do petróleo produzido é utilizado para combustíveis de veículos leves. Segundo a OMS, a cada ano cerca de 1,3 milhões de pessoas morrem em estradas do mundo inteiro, tendo os acidentes rodoviários como uma das principais causas de morte no mundo inteiro. Além disso a contaminação atmosférica é o principal risco ambiental para a saúde no continente americano segundo a organização.

O atual problema com a mobilidade urbana é que estamos construindo cidades em torno do carro particular e não em torno das comunidades. As soluções reais nesse cenário devem se concentrar em alternativas eficientes para mover pessoas, não veículos. Esse cenário, acompanhado pelas políticas públicas adequadas, juntamente com a tecnologia/internet que permitem grande fluxo de informação e a inovação gerada pelos empreendedores, traz a oportunidade de recuperar cidades e melhorar a qualidade de vida.

A tecnologia também nos permite entender melhor as necessidades dos usuários, otimizar questões de oferta e a demanda e nos conectar em tempo real com as diversas alternativas de transporte. Outro fator que está acelerando a revolução da mobilidade é a mudança nos hábitos de consumo das novas gerações; os "millennials" preferem ter acesso aos serviços do que possuir bens.

À medida que reduzimos gradualmente a posse de carros particulares por meio da tecnologia, veremos surgir alternativas de mobilidade até alcançarmos um serviço que integre todas as opções de transporte em uma única só plataforma (bicicletas, táxis, caminhões).

Estamos vivendo a ponta do iceberg da revolução na mobilidade; nos próximos anos, veremos como a mudança poderá abrir caminhos para um serviço oferecido de acordo com as necessidades das pessoas.

Ricardo Weder

Presidente global da Cabify; formado em engenharia industrial pelo Instituto Tecnológico e de Estudos Superiores de Monterrey

Comentários

Os comentários não representam a opinião do jornal; a responsabilidade é do autor da mensagem.