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Astronauta na Esplanada

Marcos Pontes parece adequar-se bem às exigências da função

O astronauta Marcos Pontes
O astronauta Marcos Pontes - Eduardo Knapp/Folhapress

Designar o astronauta Marcos Pontes para o Ministério da Ciência e Tecnologia constitui decisão perspicaz do presidente eleito Jair Bolsonaro (PSL). A formação técnica e acadêmica do tenente-coronel aviador da reserva parece adequar-se bem às exigências da função.

Visitar a Estação Espacial Internacional (ISS, na sigla em inglês), alcançando a órbita da Terra em 2006 a bordo de uma nave russa Soyuz, foi o ápice de uma longa carreira. Adolescente, Pontes precisou trabalhar para custear os estudos que lhe permitiram entrar para a Academia da Força Aérea (AFA).

Tornou-se piloto de caça, mas buscou ampliar a formação cursando engenharia no Instituto Tecnológico de Aeronáutica. Fez dois mestrados, no ITA e na Escola Naval Pós-Graduada da Califórnia.

O apogeu viria ao ser selecionado pela Agência Espacial Brasileira para se tornar o primeiro astronauta nacional. Foram dois anos de treinamento tecnológico na Nasa, a agência aeroespacial dos EUA.

Não lhe faltam credenciais, portanto, para ocupar o posto de ministro encarregado de promover a ciência e a tecnologia no país. Familiaridade com os modos de produção de conhecimento e inovação compõem, obviamente, qualificações desejáveis para a função.

Desejáveis e até necessárias, mas nem sempre suficientes. Também se requer competência administrativa, e é de imaginar que não represente dificuldade para um engenheiro do ITA. A dúvida reside em sua capacidade de negociação e articulação política, tendo em vista as turbulências no horizonte.

O ministério deve perder a área de Comunicações anexada no governo de Michel Temer (MDB). Parece também possível que vá herdar do MEC a estrutura das universidades federais e a responsabilidade sobre o ensino superior.

O setor é marcado por forte atuação sindical de servidores, além de movimentos estudantis refratários a Bolsonaro. Decerto não terão contribuído para desarmar espíritos as investidas censórias da Justiça Eleitoral nos campi.

O astronauta carrega na bagagem duas outras características que podem complicar a gestão de ministro. Sua formação se apoia mais no desenvolvimento tecnológico que na pesquisa básica fomentada pelo MCT; seria infeliz se negligenciasse uma em favor da outra.

Por fim, a reputação de Marcos Pontes sofreu arranhões com uma intensa atividade comercial orientada pela exploração da imagem de primeiro astronauta brasileiro. É de esperar que, como ministro de Estado, se afaste de tudo que possa deitar suspeita sobre seus atos.

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