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Vahan Agopyan

A engenharia não é uma ciência exata

Há a possibilidade de falhas inerentes ao processo

Vahan Agopyan, reitor da USP e professor titular da Escola Politécnica
Vahan Agopyan, reitor da USP e professor titular da Escola Politécnica - Bruno Poletti - 17.jun.15/Folhapress
Vahan Agopyan

Sempre que ocorre um acidente ou desastre resultante de uma atividade de engenharia, sinto-me na obrigação de divulgar o que é essa profissão na realidade. Nesses momentos, surgem os autodenominados especialistas, fazendo conjecturas, apresentando diagnósticos e propondo soluções, normalmente simples e erradas.

Depois da tragédia de Brumadinho, aguardei um pouco para não ser interpretado como corporativista nas minhas considerações e nem como se estas fossem para justificar o comportamento dos envolvidos.

O excelente texto de Maria Eugênia Boscov, publicado neste jornal (“‘Acidentes talvez não fossem evitáveis, mas tragédias, sim’”), esta sim especialista respeitada nacional e internacionalmente, no qual explica, de maneira didática, que acidentes podem acontecer, mas desastres não são admitidos, estimulou-me a externar meus comentários. O artigo é irretocável, entretanto, quero reforçar um ponto importante: o engenheiro trabalha com incertezas.

Quando se vê o engenheiro empregando modelos físicos complexos e matemática sofisticada, fica a falsa impressão de que a engenharia é uma ciência exata. Os modelos são detalhados e os cálculos, precisos, mas embasados em dados não tão exatos.

A engenharia se relaciona com a natureza, aplicando materiais, métodos e processos reais, todos com variabilidade inerente, que resulta em incerteza do projeto como um todo. O engenheiro é treinado para estimar tais variáveis e tomar decisões com incertezas.

Alguns colegas, inclusive acadêmicos, não atentam a esse fato. A engenharia é posta com as ciências exatas, confundindo os próprios alunos. Matemática, física, química e biologia são imprescindíveis para o desenvolvimento das ciências da engenharia, nas quais os modelos são desenvolvidos, geralmente probabilísticos, porém com certo grau de empirismo.

As variáveis são analisadas e adotadas e os riscos, estimados e assumidos. O bom engenheiro é treinado para analisar as variáveis intervenientes no processo e estimar os riscos, com a habilidade de decidir com dados inexatos.

Essa competência faz com que os profissionais sejam disputados em outros setores, como na área financeira, sendo seduzidos por ganhos que a engenharia não pode oferecer.

Não é simples compreender a atividade desse profissional e aceitar que, nos projetos de engenharia, se pode ter falhas inerentes ao processo de trabalho. Os acidentes, quando devidamente estudados, são fontes para o avanço do conhecimento. Logicamente, não se aceitam desastres.

Outro aspecto debatido nos ambientes profissionais é admitir que, nas últimas décadas, o Brasil desprezou sua engenharia. Na área privada, empresários preferiram comprar patentes do exterior, mais baratas do que seu desenvolvimento local e cuja solução pode ser aplicada sem ter que esperar anos até que os resultados possam ser utilizados na indústria.

Eles não atentam ao fato de que compram uma caixa-preta, tornando a empresa dependente do detentor do conhecimento. Ou então, de uma versão ultrapassada, para produção de baixo custo nos mercados do terceiro mundo.

Empresas de renome, inclusive da agroindústria, geram e utilizam conhecimento novo. Do lado público, com a lei 8.666, que cerceia a possibilidade de fornecimento de produtos inovadores, o governo não consegue aplicar seu poder de compra para estimular o desenvolvimento do conhecimento, subsídio aceito pelos organismos internacionais.

Sem expansão do conhecimento, não há campo para o desenvolvimento da engenharia, em consequência, os salários ficam menos atraentes e, assim, bons profissionais são cooptados para outras áreas. Por fim, dentro da indústria, as equipes de engenharia não têm o reconhecimento de seu trabalho.

Esse tema merece discussão mais ampla e indica um comportamento que explica, mas não justifica, a pouca capacidade de atuação dos engenheiros para combater desmandos que resultam em tragédias, muitas delas anunciadas.

Vahan Agopyan

Reitor da USP e professor titular da Escola Politécnica

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