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Nagib Nassar

Dessalinização da água do mar é útil para o Brasil?

Devemos aproveitar nossa potência hídrica e fortalecer um programa que já existe

Nagib Nassar

O plano do governo de correr para dessalinizar a água do mar para irrigar o Nordeste é totalmente precipitado e feito sem planejamento nenhum.

Houve R$ 11,5 bilhões investidos por governos anteriores durante os últimos oito anos e que não deram ainda o resultado esperado. Seria bom aguardar o fruto desse investimento.

O processo de dessalinizar mostra que, quando aplicado por outras nações, há um gasto muito alto com menos rendimento do que se houvesse o aproveitamento dos rios já existente, caso do Brasil. A energia usada é muito expansiva, e, se fosse atômica, seria mais ainda, além dos perigos ambientais de resíduos. 

Para dessalinizar água salgada e salobra, esta é retirada do oceano e passa por uma sistema de dessalinização e purificação para resultar em água limpa e potável. Esse processo traz muitas repercussões ambientais.

Como em qualquer processo, a dessalinização tem subprodutos que devem ser atendidos. O processo de dessalinização requer uso de produtos químicos de limpeza, que são adicionados à água antes da dessalinização para tornar o tratamento mais eficiente e bem-sucedido. Esses produtos químicos incluem cloro, ácido clorídrico e peróxido de hidrogênio, e eles são usados por um período limitado de tempo. Quando perdem a capacidade de limpar a água, esses produtos químicos são despejados, o que se torna uma grande preocupação ambiental, porque eles encontram o caminho de volta ao oceano, onde envenenam a vida das plantas e animais.

Água salmoura é o produto secundário da dessalinização, pois enquanto a água purificada passa a ser processada e colocada em uso humano, a água que sobra tem uma supersaturação de sal e deve ser descartada. A maioria das usinas de dessalinização bombeia essa água de volta ao oceano, o que apresenta mais um perigo ambiental. Espécies oceânicas não estão preparadas para se ajustar a essa mudança na salinidade causada pela liberação de salmoura na área. Essa água salgada supersaturada diminui os níveis de oxigênio na água, fazendo com que animais e plantas sufoquem.

Os organismos mais comumente afetados por salmoura e descarga química de usinas de dessalinização são grupos de plâncton e fito plâncton, que formam a base de toda a vida marinha e a base da cadeia alimentar. Assim, as usinas de dessalinização afetam negativamente a capacidade de populações de animais de viver.

A água dessalinizada também pode ser ácida para os tubos e para os sistemas digestivos humanos.

A construção de uma fábrica pode custar até US$ 3 bilhões. Uma vez operacionais, as usinas exigem grandes quantidades de energia. Os custos de energia representam de um terço à metade do custo total da produção de água dessalinizada. Como a energia é uma parcela tão grande do custo total, o custo será bastante afetado pelas mudanças no seu preço.

O Brasil abrange os dez maiores rios da América Sul e do mundo. Com uma imensa extensão, possui uma das mais amplas, diversificadas e extensas redes fluviais do mundo. A nação conta com a maior reserva mundial de água doce na superfície e no subterrâneo, com maior potencial hídrico. Cerca de 13% de toda a água doce do planeta encontra-se em nosso território. A abundância da água em nossa região é em razão das chuvas, principal característica do clima tropical predominante em boa parte do Brasil. Isto é, com precipitação varia de 4.000 ml na Amazônia até 700 ml no polígono de seca no Nordeste. 

Temos por causa disso uma reserva hídrica subterrânea imensa. Há um programa de aproveitamento dessas reservas hídricas subterrâneas adotado e em fase de execução pelo Ministério do Meio Ambiente. Em lugar de correr para uma técnica usada em condições diferentes e por países de condições diferentes, com escassez de chuva e de rios, devemos aproveitar nossa potência hídrica, fortalecer um programa que já existe da utilização das reservas subterrâneas e aproveitar resultados da transposição rio Francisco. 

Nagib Nassar

Botânico e geneticista, doutor em genética e melhoramento de plantas e professor emérito da Universidade de Brasília

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