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Juliano Medeiros

A oposição nos cem primeiros dias de Bolsonaro

Unidade pode ir muito além de partidos e bancadas parlamentares

O historiador e presidente nacional do PSOL, Juliano Medeiros, discursa no encontro "Radicalizar a Democracia - por uma Nova Governabilidade", em São Paulo - Tuane Fernandes - 14.set.18/Folhapress
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Como já se tornou tradição no mundo político, os primeiros cem dias de um governo servem para promover um balanço das ações da nova gestão e avaliar a popularidade do presidente, governador ou prefeito.

No caso de Jair Bolsonaro (PSL), a avaliação dos primeiros cem dias chega acompanhada da troca do ministro da Educação, Ricardo Vélez Rodríguez, por Abraham Weintraub, e da nova pesquisa Datafolha, revelando que o governo é o pior avaliado nos primeiros cem dias desde que a medição começou a ser realizada, com Fernando Collor de Mello.

Estamos diante de um governo acossado pelo escândalo do “laranjal do PSL”, agressivo com imprensa e opositores, carente de base de apoio no Congresso Nacional e perdido ante o desafio de administrar a complexa máquina do Executivo Federal.

As principais iniciativas do governo _o pacote do ministro Sérgio Moro e a reforma da Previdência_ estão longe de ser medidas populares e encontram-se praticamente paralisadas na Câmara dos Deputados. Os primeiros cem dias de Bolsonaro, portanto, são frustrantes para seus eleitores e mostram que o governo não tem rumo.

Mas e a oposição? Durante semanas a imprensa abordou o que se via como uma “divisão das esquerdas”. As diferentes táticas na disputa da presidência da Câmara dos Deputados e as trocas de farpas públicas entre lideranças da oposição reforçaram, certamente, a impressão de divisão. Mas bastou o governo Bolsonaro enviar suas primeiras medidas ao Congresso Nacional para que o senso de responsabilidade falasse mais alto.

Em menos de uma semana três iniciativas mostraram a capacidade de articulação das legendas de oposição. Uma reunião com os presidentes dos partidos sinalizou a disposição de recompor a unidade, fragilizada após a eleição para a presidência da Câmara.

Na semana seguinte, um encontro com as bancadas de diversos partidos fechou posição sobre a reforma da Previdência de Bolsonaro, alcançando mais de 140 votos contra a proposta.

No dia seguinte, uma reunião entre lideranças políticas de diferentes partidos _Fernando Haddad (PT), Flávio Dino (PC do B), Ricardo Coutinho (PSB) e Guilherme Boulos e Sônia Guajajara (PSOL)_ divulgou uma declaração em defesa da democracia, dos direitos e contra a proposta do governo de reforma da Previdência.

 
 

No último dia 22 de março, um primeiro dia de mobilizações, demonstrou que a unidade pode ir muito além dos partidos e das bancadas parlamentares. Em centenas de cidades brasileiras os movimentos sociais e as centrais sindicais promoveram protestos contra a proposta de reforma da Previdência de Bolsonaro.

A data completou uma sequência de importantes mobilizações, que começou com o Dia Internacional de Luta das Mulheres (8 de março) e teve continuidade com as manifestações pela passagem do primeiro ano do assassinato de Marielle Franco e Anderson Gomes (14 de março).

Nesses cem dias avançamos na unidade da oposição. Mas é preciso ir além, garantindo espaços permanentes de diálogo. Evidentemente, as diferenças entre as esquerdas continuarão existindo. E é bom que assim seja.

Mas é preciso colocar em primeiro plano a necessária defesa dos direitos. Longe de antecipar o debate eleitoral de 2020, esse esforço é fundamental para construir saídas comuns, caso a crise do governo se aprofunde e sejamos convocados a apontar uma saída para o Brasil.

Juliano Medeiros

Historiador e presidente do PSOL

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