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Djamila Ribeiro

O pacto branco e a maldição da mediocridade

Não é real que só um grupo produza mentes e talentos

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A escritora Djamila Ribeiro na Flip (Festa Literária Internacional de Paraty) - Marcus Leoni 26.jul.18/Folhapress
Djamila Ribeiro

Cada pessoa negra consciente deste país consegue listar inúmeros exemplos de como o Brasil está sequestrado por um grupo de pessoas brancas que se protegem em nome das estratificações postas desde Álvares Cabral. 

A reforma da Previdência é mais uma medida que precariza e realimenta a estrutura casa grande-senzala, uma vez que atinge justamente a camada que mais sofre com trabalho extenuante, com a carga tributária sobre consumo que onera desproporcionalmente pessoas pobres e negras, como afirma Silvio Almeida, forçando-as que trabalhem até que morram para que a elite e a pretensa elite possam desfrutar do servilismo “ad eternum”. Uma espécie piorada da Lei do Sexagenários, dos tempos da escravidão, em vias de ser aprovada a toque de caixa para benefício de um grupo social.

Nos anos 1990, em sua tese de doutorado defendida na USP, Maria Aparecida Bento, mais conhecida como Cida Bento, cunhou a expressão “pacto narcísico da branquitude” —um acordo silencioso entre pessoas brancas que se contratam, se premiam, se aplaudem, se protegem. Narciso era um jovem caçador e se achava tão belo que só conseguiu se apaixonar pela própria imagem. A sacada de Cida Bento em trazer Narciso para pensar a branquitude nos oferece um horizonte de possibilidades.

No reflexo narcísico, pessoas brancas vivem num mundo onde sua imagem é representada de forma avassaladora. Na televisão, nos jornais, nas redações, na Oscar Freire, no Leblon, nos círculos de elite das cidades do interior, nas festas coloniais na Bahia, a cor é branca e isso não choca. Aliás, isso sequer é questionado, ao passo que quando uma pessoa negra altiva entra no recinto “que não lhe pertence” passa a ser notada por todos, muitas vezes com exotização, muitas vezes com incômodo. “Uma metáfora interessante, não é? A negritude é sempre vista, mas é ausente. A branquitude nunca se vê, mas está sempre presente”, escreveu Grada Kilomba, pensadora negra portuguesa.

O pacto brasileiro acaba por produzir uma constante mediocridade, uma vez que não é realístico que apenas um grupo social produza mentes pensantes e talentos. 

Em nome do pacto narcísico, apaga-se o que não é branco. Lembro-me que fui indicada ao Prêmio Jabuti com o livro “O que é Lugar de Fala?”, de dezenas de milhares de exemplares vendidos de forma independente, a preço acessível e linguagem didática, o segundo mais vendido da Flip e representante da “Coleção Feminismos Plurais”, escrita por pessoas negras que têm rompido pactos de exclusão. Fui indicada junto a outros livros brilhantes, como o do intelectual negro Nei Lopes. Mas quem ganhou? Ora, um livro sobre democracia tropical, sem qualquer repercussão no mercado e no debate, escrito por um autor que sobe em palanques do MBL, mas que é da zona sul carioca há tempo suficiente para ser premiado apenas pelo tom da sua pele e pelos amigos interessados que cultua há tempos.

Na indicação do filme brasileiro ao Oscar, a cineasta negra gaúcha Camila de Moraes produziu uma obra-prima de forma independente, com orçamento até 20 vezes menor que o dos concorrentes, sobre a execução pela polícia de um homem negro nos anos 1980 e toda a revolta e comoção a partir disso. O nome do documentário é “O Caso do Homem Errado”. Tema absolutamente na vanguarda, inclusive no cinema norte-americano. Foi a segunda mulher negra na história a rodar um filme no circuito comercial, mas quem é que é indicado? Mais uma vez, porque não cansa de perder, é o mesmo cineasta da zona sul de sempre. Atualmente, a cineasta tem palestrado mundo afora com sua obra. E o cineasta “indicado” está onde? Provavelmente em alguma sala de estar do Leme ou do Leblon.

Por isso, sempre atual a reflexão de Sueli Carneiro no sentido de que enquanto as esquerdas não radicalizarem o debate racial num país de maioria negra, de quilombo dos Palmares, de Luísa Mahin, de Dragão do Mar, da própria Sueli Carneiro e de tantas e tantos outros não haverá como romper o pacto narcísico que atinge todos os espectros políticos e círculos sociais da elite do viralatismo. A mesma que elegeu um sujeito claramente abjeto para o cargo de presidente e que tem desempenho pífio nas artes e nos esportes, na ciência e na intelectualidade, se comparado à grandeza da nação. Trata-se do amálgama do país, essa maldição de continuar sempre medíocre, enquanto privilegia apenas um grupo social.

Djamila Ribeiro

Mestra em filosofia política pela Unifesp, coordenadora da 'Coleção Feminismos Plurais' e autora dos livros 'O Que é Lugar de Fala?' (ed. Pólen Livros) e 'Quem Tem Medo do Feminismo Negro?” (ed. Companhia das Letras)

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