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Brasil, o país da diversidade que mais mata LGBTQIA+

Mudar a realidade significa reconhecer um país diverso

Debora Gepp

Recentemente a avenida Paulista, em São Paulo, reuniu mais de três milhões de pessoas para a 23ª Parada do Orgulho LGBT, considerada a maior do mundo. Ironicamente, no mesmo local, um casal homossexual que andar de mãos dadas pode ser vítima de homofobia.

A situação reflete uma realidade ainda muito dura para a população LGBTQIA+ no Brasil, onde a cada 19 horas, em média, uma pessoa lésbica, gay, bissexual, trans ou travesti é assassinada, segundo relatório do Grupo Gay da Bahia, uma das maiores organizações para os direitos LGBTQIA+ do país.

O movimento surgiu no Brasil em 1979, com a organização dos primeiros encontros no Rio de Janeiro, a fim de pleitear a igualdade de direitos previstos na Constituição, independentemente da orientação sexual. A partir dos anos 1980 surgiram organizações em defesa da causa e os grupos passaram a ter espaço na mídia, ainda que de forma estereotipada. As primeiras paradas do Orgulho LGBT foram realizadas no final da década de 1990.

De lá para cá, muita coisa mudou. A homossexualidade saiu da lista internacional de doenças da Organização Mundial da Saúde; o Brasil vetou o termo como “pederastia” do Código Penal Militar, que penalizava atos sexuais praticados dentro das Forças Armadas; reconheceu a união estável entre pessoas do mesmo gênero, além de permitir que transexuais retifiquem seu nome e gênero no registro civil, independentemente da cirurgia de redesignação sexual.

Manifestação na Paulista, em São Paulo, em homenagem ao cabeleireiro Plínio Henrique de Almeida Lima, 30,  morto na esquina avenida, na altura da Brigadeiro Luís Antônio, em dezembro de 2018
Manifestação na Paulista, em São Paulo, em homenagem ao cabeleireiro Plínio Henrique de Almeida Lima, 30, morto na esquina avenida, na altura da Brigadeiro Luís Antônio, em dezembro de 2018 - Marina Garcia/Folhapress

Mas, apesar dos avanços, há muito o que se fazer. A discriminação contra a população LGBTQIA+ é um problema constante, que está presente nas salas de aula, no ambiente de trabalho, nos espaços públicos e dentro de casa. Embora o Brasil, em âmbito mundial, esteja no grupo de países que preveem proteção ampla contra a discriminação por orientação sexual, como mostra a última edição do Mapa dos Direitos LGBTQIA+, da Associação Internacional de Lésbicas, Gays, Bissexuais, Pessoas Trans e Intersexuais, o país ainda vive um período de alta violência que faz vítimas todos os dias.

No mercado de trabalho, a diversidade e a inclusão ainda é um grande desafio para as empresas. De acordo com estudo feito recentemente pela rede social LinkedIn com mais de mil profissionais de diversas regiões do país, 35% dos entrevistados LGBTQIA+ já sofreram algum tipo de discriminação velada ou direta e 12% disseram que a discriminação partiu de líderes da empresa, incluindo gestores. Além de apoiar a causa, é preciso fazer a tarefa de olhar para dentro de casa e pôr em prática uma estratégia de atração, retenção e desenvolvimento dos grupos historicamente minorizados.

No campo das políticas públicas, a recente decisão do Supremo Tribunal Federal de determinar a aplicação da lei 7716/89, que prevê crimes de discriminação ou preconceito por raça, cor, etnia, religião e procedência nacional, para casos de discriminação por orientação sexual e identidade de gênero, contribui para reforçar a discussão sobre o tema, inclusive no embasamento de políticas internas das empresas. 

Mudar essa realidade significa reconhecer um Brasil diverso, que deve respeitar as diferenças e que faz delas ferramenta para promover transformações nas relações humanas e sociais. A luta da população LGBTQIA+, assim como os movimentos em defesa dos direitos da população negra, da igualdade de gênero, do feminismo, das pessoas com deficiência e dos que vivem em situação de vulnerabilidade social é uma única luta, a luta pelos direitos humanos.

Debora Gepp

Analista de diversidade e inclusão na Braskem

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