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Renato Ortiz

Verdades e mentiras

'Nós' e 'eles': Bolsonaro cria exílio em nosso próprio país

O presidente Jair Bolsonaro (PSL) participa da Marcha Para Jesus, em Brasília - Pedro Ladeira - 10.ago.19/Folhapress
Renato Ortiz

“Falar que se passa fome no Brasil é uma grande mentira”; “Os dados da economia estão maravilhosos”; “Suicídio acontece, pessoal pratica” (em relação à morte do jornalista Herzog); “Estou convencido de que os dados de desmatamento são falsos”. 

As afirmações são daquele que ocupa o mais alto cargo político do país: a Presidência da República. A lista poderia ser alongada, mas seria inútil ampliá-la; importa entender que elas são recorrentes. Uma forma de interpretar esse comportamento bizarro é dizer que simplesmente nos encontramos diante de um conjunto de mentiras. 

Cada afirmação pode ser desmentida pela apresentação dos dados de realidade: há fome no Brasil; a economia anda mal; Herzog foi assassinado; o desmatamento é um fato. O equívoco seria desconsiderar o mundo real de maneira assim tão evidente. Entretanto, outra interpretação é possível. 

Há, primeiro, um aspecto: se elas são recorrentes devem significar algo mais. A repetição não seria apenas expressão de mentiras. Mas, para entendê-las, é preciso circunscrever sua falsidade dentro de um contexto mais amplo: o governo Jair Bolsonaro (PSL) é uma ruptura em relação à vida política brasileira.

Nos encontramos diante de uma situação na qual o autoritarismo tornou-se banal, pois os mecanismos institucionais intrínsecos à democracia são sistematicamente destruídos pela eleição institucionalmente democrática de um oligarca.

Uma maneira de se compreender os traços deste autoritarismo é considerá-lo como um populismo. Mas faço uma ressalva: o termo não se confunde com a ideia tradicional de populismo existente no Brasil ou na América Latina, ele adquire um novo significado. O populismo atual é resultado de falha estrutural das democracias contemporâneas e manifesta-se em diferentes lugares: Trump nos Estados Unidos, extrema-direita em países da Europa. 

Há duas dimensões que o conceito abarca. Primeiro, a ideia de povo pode ser reduzida à simples oposição entre “nós” e “eles”, “virtuosos” e “corruptos”. Segundo, a suspeita que o sistema representativo seria estruturalmente corrompido. Esta é uma reivindicação explícita dos bolsonaristas, o fim do Congresso Nacional e do Supremo Tribunal Federal.

Deixo de lado o segundo aspecto, no qual o oligarca se vê como alguém acima das instituições democráticas. Considerar a ideia de que ele exprime a vontade de um povo significa aceitar a premissa: existe uma entidade idealizada, denominada “povo”, que coincide com a dimensão sociológica na qual os indivíduos estão inseridos. Não existiria assim uma defasagem entre a concepção ideal e a vida real das pessoas. 

O populismo imagina que existe uma superposição entre essas duas esferas. O representante do povo seria uma expressão do real. Colocadas dentro dessa perspectiva as afirmações acima podem ser interpretadas de outra maneira. 

Não é difícil demonstrar que existe fome no Brasil. Porém, isso é pouco relevante, pois a afirmação não toma a realidade como seu referente. O oligarca que a enuncia não está interessado na sua verdade, mas na delimitação de um “nós” do qual ele seria a expressão autêntica. É este “nós” que confere materialidade à sua falácia. O “nós” estabelece o vínculo, sem mediação, entre o povo e o oligarca. Isso significa: os que se encontram fora desta definição discriminatória de povo devem ser considerados como estrangeiros. 

Os insultos e as agressões tornam-se elementos legítimos na luta contra a parte “malsã” da sociedade, o “eles” que ameaça a idealização de um “nós”. Este é um aspecto que diferencia o populismo no Brasil de outros países (Estados Unidos ou França). Ali, o “eles” é representado pelo que se encontra fora de suas fronteiras: os imigrantes. No caso brasileiro, a questão é outra, o tema da imigração não faz parte da agenda política atual. Nesse sentido, o “eles” se manifesta no interior do espaço da nação.

O ideal seria que “eles” desaparecessem, deixassem de existir, dando lugar apenas ao “nós” autoritário que se quer afirmar. Surge assim uma estranha figura política de nossos tempos: ser exilado em nosso próprio país.

Renato Ortiz

Professor do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas do Departamento de Sociologia da Unicamp

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