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Ricardo Almeida

O incrível exército de 'Bolsonarone'

Olavo de Carvalho quer formar policiais em filosofia

Ricardo Almeida

Evitemos analogias frouxas. Militância personalista nem sempre é fascista, embora seja elemento do fenômeno. Ainda assim, o clamor pela construção de militância exclusivamente fiel ao presidente Jair Bolsonaro (PSL) suscitou temores. Olavo de Carvalho proclamou: é preciso organizá-la!

A ideia não é nova no repertório dele, e estou de acordo quanto a formulação geral da tese. De fato, militância é sinônimo de grupos definidos, já que pautas idênticas podem ter distintos proponentes. Não pensam as esquerdas de modo diferente. A militância petista age sob injunção do PT; a do MST, obedece os líderes do movimento. Na direita, o Partido Republicano congrega militantes partidários; a RSS (Rashtriya Swayamsevak Sangh), os seus nacionalistas hindus. Onde há movimentos de massas lá estão os pelejadores habituais. Não bastam ideias gerais para constituir uma militância.

Ricardo Almeida - Coordenador do MBL (Movimento Brasil Livre) e mestre em filosofia pela UFBA
Ricardo Almeida, um dos coordenadores do MBL (Movimento Brasil Livre) - Divulgação

Figuras carismáticas geram efeito similar. Trumpistas têm o peso no jogo político americano mensurado pelo número e consistência das fileiras. Se Olavo tem razão a respeito disso, qual o problema?

Ora, como diz o ditado, o diabo mora nos detalhes. E o primeiro é que a militância bolsonarista já existe, espalhada por numerosos grupos de alta nomeada: Direita SP, Direita XYZ, Bolsonaristas do Catolé do Rocha (PB) etc. Muitos deles realizam ações concretas de apoio ao presidente, contam com auxílio financeiro do PSL e são convocados quando a situação aperta. Ou seja, são grupos militantes no sentido clássico do termo. Se a ação é menos eficaz do que se gostaria, a deficiência se deve unicamente à inabilidade dos quadros.

O segundo detalhe traz a Lava Toga à baila. A Lava Toga, lembremos, foi bandeira de manifestações recentes, convocadas pelos mesmos grupos bolsonaristas aos quais aludi. O presidente, por sua vez, compartilhou vídeo em que manifestantes bradavam pela CPI —à época, era parte do arsenal contra o establishment.

A única novidade do momento é que agora ela traz sério inconveniente para o senador Flávio Bolsonaro (PSL-RJ), a quem a sentença de Dias Toffoli salvou de um desenlace jurídico perigoso. É natural que a CPI que promete pôr os ministros do STF na berlinda torne-se um problema. No entanto, a insatisfação gerada pela sabotagem que lhe tem sido feita nunca traduziu apego a ideias gerais em desfavor do presidente. 

O próprio combate ao comunismo, aliás, foi pauta usual das manifestações pela Lava Toga. O que não é usual é a mudança de orientação sobre uma bandeira já desfraldada. Quando do pacto Ribentrop-Molotov (1939), partidos comunistas limaram a retórica antifascista por ordem de Moscou. Muitos dissidentes não conseguiram suportar a incoerência. Guardadas as proporções, fica a lição, ao gosto de um profundo estudioso do comunismo como é Olavo de Carvalho: giros bruscos na orientação política podem confundir os mais fiéis, sejam comunistas ou bolsonaristas.

Por fim, o chamado a uma militância governista pura não parece de todo sincero. Quando se expediu nota presidencial contra declarações prejudiciais à “unicidade de esforços” do governo, Silvio Grimaldo, notório “olavete”, menosprezou o presidente chamando-o de “Bolsotutelado”. Não houve apoio incondicional neste raro episódio de divergência pública.

Para completar, tenho visto certo esforço em tornar policiais alunos preferenciais do Curso Online de Filosofia (COF) de Olavo de Carvalho. Dentre todas as profissões, somente esta faculta a gratuidade do COF. Nada de secretárias ou técnicos de TI. O COF quer formar policiais-filósofos como a República formava reis-filósofos. Por quê?

Podemos especular. Olavo talvez acredite que os policiais sejam especialmente talentosos para a filosofia. Será que PMs levam na viatura a Crítica da Razão Pura? Entre uma e outra batida no morro, leem Sêneca para manter o espírito sóbrio?

Alguém maldoso poderia enxergar nisso a tentativa de doutrinar a corporação para finalidades, digamos, menos especulativas; afinal, pretende-se formar a mente de gente cuja ocupação é a violência de Estado. Mas imaginá-lo seria pura malícia. É tudo pelo amor à sabedoria. Bem armada, entretanto.

Ricardo Almeida

Coordenador do MBL (Movimento Brasil Livre) e mestre em filosofia pela UFBA

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