Descrição de chapéu

Caixa às bruxas

Banco estatal usa protocolo que induz ao filtro ideológico no apoio à cultura

Cena da peça 'Gritos', que foi suspensa - Renato Mangolin/Divulgação

Fosse a Caixa Econômica Federal uma empresa privada, os critérios que ora adota para abrigar ou patrocinar produções culturais demonstrariam apenas ignorância, sectarismo e preconceito.

Tratando-se de instituição pública, o que se tem é um inaceitável aparelhamento ideológico do Estado —algo de que sempre se acusou os governos de esquerda e se manifesta, agora, sob a inspiração de um direitismo retrógrado.

Conforme noticiou esta Folha, instituiu-se sob o governo de Jair Bolsonaro (PSL) um novo protocolo a ser seguido por funcionários encarregados de selecionar peças, debates e exposições para os espaços do banco estatal.

O processo de aprovação dos eventos inclui agora os tópicos “possíveis pontos de polêmica de imagem para a Caixa” e histórico de artistas e produtores na internet e nas redes sociais.

Não é difícil intuir que se procura detectar —e filtrar, no vernáculo do Planalto— temas que despertam a aversão do governo e seus militantes fundamentalistas.

Nesse rol podem estar de críticas à ditadura militar à mera menção a questões de gênero ou sexualidade. Mesmo que não haja orientação explícita e formal, é evidente a intenção censória.

Nesse terreno, afinal, proliferam exemplos das preferências da administração Bolsonaro. Eles datam, aliás, de antes das eleições, quando campanhas contra artistas ganharam projeção em nome da religião, dos bons costumes e de uma fantasiosa ameaça comunista.

Para ficar nos últimos dois meses, pelo menos seis produções culturais sob o guarda-chuva de empresas estatais e do Ministério da Cidadania foram canceladas, numa demonstração de que agentes do setor público observam orientação discriminatória em suas decisões.

Apenas na semana passada cancelaram-se três eventos que tinham em comum assuntos repelidos por simpatizantes do governo, como diversidade sexual e críticas ao regime instaurado em 1964. No Rio, por exemplo, a Caixa Cultural suspendeu o patrocínio a dois projetos previamente aprovados em edital —como a mostra da cineasta Dorothy Arzner, com temas do universo feminista e homossexual.

Também um ciclo de palestras sobre democracia, história, ciência e ambiente deixou de ser realizado sob a pífia justificativa de que os organizadores mudaram títulos de palestras sem aviso prévio. 

As conferências, para jovens estudantes, chegariam à sua terceira edição, com abertura do professor de filosofia e presidente do Cebrap, Marcos Nobre.

Não é novidade que governos tendam a instrumentalizar a máquina pública em favor de seus aliados e apoiadores. Por isso mesmo, e com especial vigor nesses tempos de polarização extremada, é preciso alertar para os riscos da censura e da caça às bruxas.

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