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Marcelo Paixão

Brasil 2019: Prelúdio em dó maior

O grotesco virou parte natural do panorama social

2019 é um ano que termina deprimente. Um triste fim para uma década que prometia ser tão promissora. Por alguns anos o país logrou um raro tripé: democracia, crescimento econômico e distribuição de renda. Contudo, o modelo adotado baseado na dependência do mercado de commodities e da financeirização da economia revelou-se insustentável. Celso Furtado e Florestan Fernandes estudaram os motivos. Parece que seus alunos no poder os esqueceram. Ou não os leram.

Se no mundo do sistema econômico não temos uma classe empresarial à altura dos desafios colocados —de uma inserção mais dinâmica, para não dizer digna, na nova economia mundial—, no plano subjetivo as políticas distributivas encontraram resistências dos mais ricos.

O economista Marcelo Paixão, professor associado da Universidade do Texas (Austin) - Divulgação

No período 2003-2016, o Índice de Gini se reduziu, mas na margem. O lado simbólico (agora pobre anda de avião; preto vai para universidade!) teve um peso ainda maior do que o meramente monetário. Nesse contexto, mesmo o mínimo foi visto como inaceitável. Tal como em “Regra Três”, do Vinicius, o “menos vale mais”... 

Em um grave equívoco, as ações adotadas em prol da redução da taxa de pobreza não se traduziram no empoderamento dos beneficiários. Para piorar, com exceção da região Nordeste, em muitos casos a melhoria da qualidade de vida de segmentos da base da pirâmide reforçou um sentimento de que isso havia sido causado por esforço individual ou pela graça divina. E, como tal, deveria ser defendida por vias repressivas, tanto no plano do controle da criminalidade como no campo da moral, da família e da sexualidade. 

O atual governo possui diferentes vetores de apoio, que embora não necessariamente convergentes, acabam se direcionando para um mesmo objetivo: através da imposição, da intimidação e, se necessário, da força bruta, destruir o arcabouço institucional que apontava para a distribuição de renda. Atualmente, esse movimento se retroalimenta do avanço do neoconservadorismo em todo o mundo. Por isso que as frequentes crises políticas não afetam a governabilidade. A força do atual governo provém do reacionarismo que virou hegemônico no país. Assim, o grotesco tornou-se parte natural do panorama social.

Neste ano, apenas no estado do Rio de Janeiro, 1.546 vidas foram ceifadas por uma política de segurança pública não somente absurda, mas genocida e racista (há estatísticas que mostram que os negros performam 90% dos casos). Em 2018, o Rio respondeu por 25% das mortes causadas por intervenção policial

Assim, pode-se esperar que em todo o país este número superará 6.200 casos. Mas, onde a vida conta pouco, a natureza pesará ainda menos. Em 2019, já foram liberados 382 novos pesticidas, 30% do total, cuja venda é simplesmente proibida tanto nos EUA como na União Europeia. 

Em um cenário de desmonte dos sistemas de controle de poluição ambiental, até outubro 283 localidades de 98 municípios do Nordeste brasileiro tinham sido atingidos pelo maior derramamento de óleo em toda a história do Brasil. O país voltou às manchetes pelas queimadas na floresta amazônica, e houve um aumento de 30% do desmatamento desde o ano passado. Aqui foram apenas alguns exemplos.

Do cárcere, Antonio Gramsci escreveu que vivia em um tempo no qual o novo não tinha forças para emergir, e o velho não tinha mais forças para liderar: nesse contexto nasciam os monstros. Em dó maior, o prelúdio de 2019 nos revela o que pode vir nos próximos atos. A nova década nasce com o mesmo olhar sombrio do atual presidente do Brasil.

Contudo, há motivos para suspeitarmos que desta vez a história não se repetirá. Em tempos pós-modernos, não é o velho autoritarismo de generais zangados que paira. São dias de meninos de azul, de terra plana e de criminalização da ciência. De fundamentalismo religioso, de milícias, de pistoleiros e de grileiros. Neste mundo, o monstro tem nome e rosto. É triste dizer isso, para não falar desesperador.

Ávido para entrar em cena, na década que está para nascer, arde a chama do totalitarismo. E com ele o cortejo de desgraças que costuma segui-lo.

Marcelo Paixão

Economista e professor associado da Universidade do Texas (Austin)

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