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Daniel Wei L. Wang e Ho Chih-Hsing

Combater a Covid-19 é possível e já foi feito

Exemplo de sucesso de Taiwan pode ajudar o Brasil na luta contra a doença

Este não é o primeiro grande desafio que a saúde pública brasileira enfrenta em razão de uma doença infecciosa. Entretanto, por ser pouca conhecida e pela velocidade da transmissão entre humanos, a Covid-19 cria muitas incertezas sobre o tamanho do perigo e sobre como responder.

A informação, a desinformação e os palpites espalham-se mais rápido que o próprio vírus. As notícias e a atenção pública também focam nos países com o maior número de casos. Não surpreende que em muitos lugares, inclusive no Brasil, a reação foi rapidamente de negação e piadas ao pânico e medidas drásticas.
Porém, já é hora de prestar atenção também nas experiências de sucesso no combate ao coronavírus.

Soldados das unidades químicas das Forças Armadas de Taiwan tentam impedir a propagação da Covid-19, em Nova Taipei - Sam Yeh - 14.mar.20/AFP

Existem alguns exemplos, mas o caso de Taiwan merece destaque. No início, muitos esperavam que Taiwan fosse severamente afetada devido à sua proximidade com a China continental (o primeiro epicentro da pandemia) e à enorme população circulando diariamente entre esses dois lugares. Taiwan também havia sofrido gravemente com a Sars e as gripes suína e aviária.

Contudo, desta vez foi diferente. O número de pessoas infectadas foi mantido abaixo de 50 em uma população de mais de 23 milhões de habitantes. Isso foi alcançado sem medidas que mudassem radicalmente o cotidiano da população (as escolas já reabriram após uma extensão de três semanas das férias escolares).

Em vez de pânico ou negação, Taiwan agiu com rapidez, transparência, organização e a expertise aprendida com crises anteriores. O país começou a monitorar todos os passageiros vindos de Wuhan no mesmo dia em que o número incomum de casos de pneumonia nessa cidade foi reportado. Também foi o primeiro a proibir os voos vindos de lá.

Houve também inovação institucional. Uma agência foi criada especialmente para coordenar as ações governamentais de contenção da Covid-19 e permitir a tomada rápida de decisões. A agência é também responsável pelas informações e recomendações ao público. A transparência na sua atuação foi central para que a população tivesse confiança no governo, o que evita pânico e gera cooperação. Também houve combate à desinformação e multas podem ser aplicadas a disseminadores de fake news.

O governo também interveio na economia. Produtos para prevenção (desinfetante, máscaras etc.) tiveram seu preço regulado. Para evitar o desabastecimento de máscaras, proibiu-se a sua exportação e limitou-se o número que cada indivíduo pode comprar. O governo também provê assistência financeira para quem não pode trabalhar por causa da doença. É uma medida de assistência social e de proteção de saúde pública. Trabalhadores não precisam hesitar entre guardar quarentena ou sustentar suas famílias.

Taiwan também usa tecnologia e big data. O banco de dados do sistema de saúde foi integrado com o de imigração de forma a rapidamente identificar pessoas cuja informação clínica e histórico de viagens indicam alto risco de Covid-19. Aqueles para quem as autoridades recomendaram isolamento em suas casas são monitorados por um aplicativo de celular. Quem sai do isolamento sem autorização é multado.

Por fim, Taiwan tem um sistema de saúde de cobertura universal que oferece cuidado à saúde gratuito ou a baixo custo. Esse sistema provê a infraestrutura para monitorar, diagnosticar, isolar e tratar pacientes. Isso nos lembra que um sistema de acesso universal bem financiado não beneficia apenas quem não pode pagar um plano de saúde, mas é fundamental para proteger toda a população.

É preciso cautela antes de transplantar para o Brasil medidas que funcionaram em outros lugares. Além de problemas de viabilidade em um contexto diferente, nem todos concordarão que esse grau de interferência estatal na economia e na vida privada das pessoas é necessário ou proporcional à ameaça. De qualquer forma, o momento é de acumular ideias para esse e futuros desafios.

Daniel Wei L. Wang

Professor de direito da Fundação Getulio Vargas-SP

Ho Chih-Hsing

Professora da Academia Sinica (Taipei)

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