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José Gregori

Arte e cultura como resposta

Elas sempre nos salvaram; não será diferente agora nesta pandemia

A experiência de viver uma pandemia exige de nós um espírito realista somando coragem, fé e sonho. O surgimento da Covid-19 mais do que nunca nos remete ao poema de John Donne, publicado em 1624: "Nenhum homem é uma ilha isolada; cada homem é uma partícula do continente, uma parte da terra; se um torrão é arrastado para o mar, a Europa fica diminuída, (...) a morte de qualquer homem diminui-me, porque sou parte do gênero humano..."

Quatro séculos depois, o isolamento social nos submete a reflexões sobre humildade, solidariedade e união. Mesmo distantes, nunca fomos obrigados a nos olharmos tão profundamente como agora. E esse contexto despertou a convicção de quanto precisamos uns dos outros. Obviamente, que o instinto de preservação da espécie nos reforça o sentimento de conexão e generosidade.

José Gregori (ex-ministro da Justiça) nas Premiações da Cultura de São Paulo 2019, no Palácio dos Bandeirantes - Mathilde Missioneiro/Folhapress

Depreende-se por agora que dificilmente regressaremos ao que conhecíamos antes. Esta emergência sanitária, que atinge todo o planeta, nos traz a lição da humildade e da empatia. Qualquer tipo de arrogância comprova descaso com o coletivo. Também percebemos que os problemas da sociedade não se resolvem pela vontade de um político, de um país, de um partido ou de uma seita, seja ela religiosa ou cultural. É preciso união, novos pactos, um novo valor.

As hierarquias clássicas também já não valem mais de nada. O mundo precisa estar ciente de que não caminhará se não for coletivamente. Temos que achar uma solução de convivência, um novo regramento do viver que convenha a todos, como nos aconselha os direitos humanos.

Este vírus, inimigo invisível, é terrivelmente eficiente, pois antes de nos matar, embaralha conceitos até então enraizados. Dentro dessa distopia, não experimentada por ninguém neste século, nos resta encontrar um caminho. Aos 89 anos, tenho o peito carregado da certeza da nossa capacidade de traçarmos essa rota, um novo modelo, no qual possamos viver coletivamente de maneira mais solidária e, por que não dizer, mais feliz.

A arte e a cultura, por exemplo, sempre exerceram um importante papel na democratização do conhecimento e da criatividade. E hoje, mais do que nunca, é fundamental mantermos seus protagonismos. No mundo inteiro, diversos artistas se mobilizam em lives, eventos filantrópicos, oficinas e em campanhas de conscientização sobre a prevenção do coronavírus. E não poderia ser diferente. A cultura é um direito de todos. De criar, ampliar o pensamento crítico, aprender a repensar. De transformar.

Nós, da Associação Amigos da Arte, como instituição cultural que atua há 15 anos na difusão da arte, cremos que é nosso papel contribuir para a reflexão de artistas, filósofos e educadores da nossa rede de trabalho e de afeto. Mas precisamos elaborar novas perguntas: como podemos ver esse momento? Aprendê-lo e aprender com ele? Que metáforas podem nos ajudar a compreender o que vivemos?

As respostas, certamente, virão de muitas partes, mas passarão indubitavelmente pelo caminho da arte e da cultura. Elas sempre nos salvaram. Agora não será diferente.

José Gregori

Jurista e presidente do Conselho de Administração da Associação Amigos da Arte, foi ministro da Justiça (2000-2001) e secretário nacional de Direitos Humanos (1997-2000) no governo FHC

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