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Mandata ativista

Candidaturas e mandatos coletivos

Precisamos de muitos outros grupos eleitos para a revolução política avançar

Chirley Pankará, Claudia Visoni, Raquel Marques, Erika Hilton, Fernando Ferrari, Jesus dos Santos, Mônica Seixas e Paula Aparecida

Codeputadas e codeputados da Mandata Ativista na Assembleia Legislativa de São Paulo

Nós oito estamos inventando nosso próprio cargo: somos codeputadas e codeputados eleitos, construindo o primeiro mandato coletivo da Assembleia Legislativa de São Paulo. Com os 149.844 votos que recebemos, ficamos entre os dez mais votados daquela eleição e ocupamos o gabinete número 2.107 naquele famoso prédio em frente ao parque Ibirapuera, todo revestido de mármore branco e de corrimãos dourados, apelidado de Alesp.

Somos diversos em etnia, gênero, idade, origem, estilo de vida e partidos políticos. Somos sete mulheres e dois homens que nunca tinham vencido uma eleição. Assim como nossos pais, avós, bisavós e tataravós. Em nossas famílias, aliás, ninguém das gerações anteriores conseguiu sequer acessar o ensino superior.

Membros da Bancada Ativista que compõem o mandato coletivo na Assembleia Legislativa de São Paulo. Na foto, durante a audiência pública Boas Práticas para Escolas de Paz e Liberdade. Na foto, da esquerda para a direita, as codeputadas Monica Seixas, Erika Hilton e Paula Aparecida.
As codeputadas Monica Seixas, Erika Hilton e Paula Aparecida, integrantes do mandato coletivo na Alesp - Pedro Maia/Divulgação

Entre nós, três pessoas negras, uma indígena, uma transexual, quatro mães, dois pais. O que nos une é o inconformismo com a desigualdade social brasileira, as dramáticas condições de vida das populações periféricas e a dedicação às causas que defendemos: os direitos humanos, a saúde e a educação públicas, os direitos dos animais —explorados, comercializados e assassinados; os direitos das pessoas LGBTQIA+, algumas expulsas ainda crianças de casa; a defesa das populações indígenas, seus saberes tradicionais e direitos conquistados; a luta antirracismo e a equidade em uma sociedade muito devedora às negras e aos negros; os diversos feminismos; o meio ambiente; a segurança alimentar; e a democracia.

Antes de 2018 sequer conhecíamos a maior parte dos atuais companheiros. Fomos apresentados pelo Movimento Bancada Ativista, que estabeleceu como estratégia para aquele ciclo eleitoral a candidatura coletiva. Sem dinheiro, experiência ou tradição na política, individualmente tínhamos pouca chance de vitória. Unidos e com o apoio precioso de ativistas cuja causa é ajudar outros ativistas a ocuparem os espaços de poder, conseguimos conquistar um mandato. Ou melhor, a Mandata Ativista, como chamamos a empreitada.

Entre nós existem algumas discordâncias, mas sobretudo respeito mútuo e foco nos nossos objetivos principais: prioridade para os mais vulneráveis, popularizar e pedagogizar a política e ser inspiração e incentivo para que mais pessoas negras, indígenas, periféricas, LGBTQIA+ e ativistas se elejam.

Isolados e minoritários, mandatos populares como o nosso têm alcance limitado. Mas nos sentimos pioneiros de uma onda de renovação e troca de valores no mundo político que, acreditamos, está vindo aí com força.

Durante nossa campanha, há apenas dois anos, nos sentíamos uma opção exótica, vista com incredulidade. No período eleitoral que se inicia em poucas semanas, veremos centenas de grupos se candidatarem coletivamente nas mais diversas regiões e por vários partidos. Somos grandes incentivadores dessas iniciativas. Nos últimos meses foram incontáveis as conversas com quem nos busca para trocar ideias e conhecer melhor nossas experiências.

Não acreditamos, porém, já ter encontrado a fórmula mágica da política coletiva. Estamos construindo o caminho a cada passo, buscando soluções para os desafios conforme eles se apresentam, pouco a pouco. É preciso muitos outros grupos eleitos para essa revolução na política tomar forma e gerar práticas consolidadas.

Ocupar a política com corpos marginalizados é urgente. Apenas 17% dos atuais 55 vereadores da capital paulista são mulheres. Delas, nenhuma é negra. E nenhum deles é indígena ou vindo dos movimentos LGBTQIA+. O chamado para tornar a Câmara Municipal de São Paulo mais representativa em relação à população é inescapável.

Por esse motivo, três de nós se afastam da Mandata Ativista como pré-candidatos a uma vaga de vereador por três partidos diferentes: Erika Hilton (PSOL), Jesus dos Santos (PDT) e Raquel Marques (Rede). Os demais cinco --Chirley Pankará, Claudia Visoni, Fernando Ferrari, Mônica Seixas e Paula Aparecida-- prosseguem como codeputados até o final do mandato, fortalecendo suas lutas e englobando as áreas de atuação dos colegas em campanha.

Desejamos em 2021 uma composição de prefeituras e Câmaras Municipais em todo o Brasil muito mais diversa, popular e coletiva.

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