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Luiz Guilherme Piva

Céticos, mentiras e fake news

Céticos, acreditem: relevante e quase onipresente, a mentira existe de verdade

Luiz Guilherme Piva

Economista, mestre (UFMG) e doutor (USP) em ciência política e autor de ‘Ladrilhadores e Semeadores’ (Editora 34) e ‘A Miséria da Economia e da Política’ (Manole)

Os que não creem em mentiras saibam que, a julgar pela Bíblia —se ela estiver falando a verdade—, trata-se de prática muito antiga: a primeira é aquela com que a serpente induziu Eva ao pecado original. E muito importante, a ponto de constar dos Dez Mandamentos. Afinal, a mentira seria nada menos do que filha do Diabo (João 8:44). Por isso, “cuidado com os falsos profetas, que vêm até vós vestidos como ovelhas, mas, interiormente, são lobos devoradores” (Mateus 7:15).

A mentira é também categoria filosófica. Numa conferência, Jacques Derrida aborda, entre outras, a visão de Kant, que absolutiza o valor da verdade: “A veracidade nas declarações é o dever formal (“formale Pflicht”) do homem com relação a cada um, por mais grave que seja o prejuízo que dela possa resultar”. Há a de Santo Agostinho, que, em outra direção, relativiza a mentira: “Quem enuncia um fato que lhe parece digno de crença ou acerca do qual formava opinião de que é verdadeiro não mente, mesmo que o fato seja falso”. E a de Hanna Arendt, que traz a questão, de modo contraditório, para a política: “As mentiras sempre foram consideradas instrumentos necessários e legítimos, não somente do ofício do político ou do demagogo, mas também do estadista”.

Aliás, na teoria política há o “dilema do prisioneiro”, construído sobre incentivos e constrangimentos a dois suspeitos para falarem a verdade ou mentirem. Curiosamente, a mentira é considerada “colaboração”, e a verdade, “traição”. Mas aquela é castigada e esta, premiada.

Há muitas formulações famosas, e divergentes, sobre a mentira. Nietzsche acreditava que as “convicções são inimigos mais perigosos da verdade do que as mentiras”. Já Napoleão defendia que “a história é um conjunto de mentiras sobre as quais se chegou a um acordo” —opinião próxima à de Goebbels: “Uma mentira repetida mil vezes torna-se verdade”. Em sentido antípoda e crítico, Marx dizia que a ideologia é o conjunto de valores da classe dominante imposto como universal, criando uma realidade falsa.

Na psicanálise, a mentira é central. Freud a entendia como manifestação de desejos inconscientes —portanto, também como verdade. Nas fábulas infantis, que permitem muitas leituras pela psicanálise, também, como nos casos de “Pinóquio”, “Pedro e o Lobo”, “Chapeuzinho Vermelho” e tantas outras —muitas delas com o lobo bíblico acima citado, tal qual num famoso caso psicanalítico (“O Homem dos Lobos”), às vezes em pele de cordeiro; o que ocorre também na política, segundo Arendt.

Grande parte da literatura e da arte é construída em torno da mentira. Capitu mentiu? Para Federico Fellini, “a mentira é sempre mais interessante do que a verdade”. E também em canções populares, como “Pra que Mentir?”, de Noel Rosa e Vadico, “Dom de Iludir”, de Caetano Veloso, e “Samba do Grande Amor”, de Chico Buarque.

Creiam então os céticos que, dadas sua relevância e sua quase onipresença, a mentira existe de verdade. O que lembra o paradoxo de Epimênides, poeta cretense que disse que “todos os cretenses são mentirosos”, formulação que também pode ser expressa —por dois prisioneiros, digamos— assim: “Eu sempre minto”; ou: “Eu só falo fake news”. Se o emissor está mentindo, fala a verdade. Mas, se fala a verdade, está mentindo.

E “versa-vice”.

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