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Reação afirmativa

Evidências de discriminação racial no mercado de trabalho dão força a iniciativas de empresas

Várias pessoas atravessando a rua, com máscaras de proteção contra o coronavírus.
Pessoas a caminho do trabalho nas proximidades do Terminal Capão Redondo, na periferia de São Paulo. - Bruno Santos/Folhapress

O Brasil foi um dos últimos países a abolir a escravidão, em 1888, e até hoje a maioria de pretos e pardos paga preço exorbitante pelo atraso e pela marginalidade social a que ancestrais libertos foram relegados. Quase um século e meio depois, o preconceito ainda lhes reserva os piores empregos e salários.

Quem mais enfrenta obstáculos para melhorar de vida são as mulheres de pele escura, independentemente da escolaridade alcançada. Um estudo do Insper sobre diferenças salariais de profissionais formados em escolas públicas e privadas oferece novas evidências disso.

O mercado de trabalho valoriza diplomas de universidades estaduais e federais, as melhores do país, garantindo remunerações mais altas para seus egressos. A mulher negra que consegue se formar numa delas, ainda assim, vê colegas brancos do sexo masculino ganharem até 160% mais, em média.

Considere-se a medicina, profissão das mais bem pagas. Entre médicos formados em faculdades públicas, homens brancos recebem R$ 15,1 mil e negros, R$ 10,6 mil. Mulheres brancas ganham R$ 6,6 mil e médicas negras, R$ 6,4 mil.

Não há explicação para a discrepância fora da questão racial. Como 132 anos de igualdade formal entre brancos e não brancos foram incapazes de extinguir a ignomínia, ganhou força em décadas recentes a noção de que é necessário romper a inércia e fazer algo para reverter tal estado de coisas.

Surgiram cotas para minorias em universidades e empregos públicos, para aumentar a participação dos negros em atividades com melhores proventos —ideia recebida com restrições por esta Folha, para quem regras baseadas em critérios como renda ou escola de origem seriam preferíveis.

Empresas privadas também têm aderido a ações afirmativas. A rede varejista Magazine Luiza, por exemplo, abriu exclusivamente a negros uma seleção para seu programa de trainees, cujas vagas costumam ser disputadas pelos mais qualificados e são quase sempre açambarcadas por brancos.

Alguns poucos intolerantes se abespinharam com a iniciativa. Até uma juíza do Trabalho, desprezando a legislação e a jurisprudência que amparam ações desse tipo no país, classificou o programa como “inadmissível”.

Diante da injustiça imposta pelo Brasil à maioria de sua população, vetos desse tipo a ações que buscam atacar o problema em nada contribuirão para resolvê-lo.

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