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Desorganização letal

Mais cidades vislumbram colapsos na saúde ante a brutal carência de vacinas

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O ministro da Saúde, Eduardo Pazuello - Ueslei Marcelino/Reuters

Em várias partes do país soam alarmes de aceleração da doença causada pelo coronavírus. O estado de São Paulo acaba de bater o recorde de internações pela moléstia infecciosa em unidades intensivas desde o início da pandemia.

No pico anterior, em julho de 2020, o estado mais populoso do Brasil registrou 6.257 pessoas hospitalizadas simultaneamente em UTIs em razão da Covid-19. Nesta segunda (22), foram 6.410.

Em Araraquara, a escalada de pacientes acorrendo aos hospitais levou a prefeitura a decretar um lockdown —o recolhimento obrigatório, sob pena de multa, dos cidadãos em suas casas, excetuadas situações excepcionais. Outras cidades, como Campinas e São Bernardo, flertam com o colapso.

No Brasil tomado em conjunto, os dados não são melhores. Há um mês, os óbitos diários em decorrência da Covid-19 mantêm-se acima de mil. Num ano normal, morrem no Brasil cerca de 3.800 pessoas em média por dia, de todas as causas. A virose epidêmica hoje responde por 1 em cada 4 óbitos.

As razões do descontrole já foram exaustivamente debatidas e estão associadas à desídia do presidente da República. Além de boicotar as ações sanitárias, o governo não se preparou para ter vacinas com rapidez e em volume suficiente para domar a pandemia.

E o pior é que a gestão não dá sinais de aprender com seus erros.

Demorou demais até o Ministério da Saúde, em desorganização criminosa, orientar estados e municípios a administrarem todas as doses disponíveis, em vez de reservarem metade para a segunda aplicação à frente. A epidemia galopante obviamente justifica dobrar o número de imunizados com uma dose no curtíssimo prazo.

Os trâmites para a obtenção e o fabrico de imunizantes, bem como os critérios de distribuição do ralo estoque, continuam envolvidos numa atmosfera cartorial e burocrática. A Fiocruz começará a ter regularidade na distribuição apenas na segunda quinzena de março, na melhor das hipóteses. Picuinhas nacionalistas emperram acordos com firmas farmacêuticas.

O volume de doses administradas no Brasil abrange cerca de 3% da população, ante 15% no Chile. Os EUA, desprovidos de sistema público como o SUS, aplicam a cada quatro dias a quantidade de vacinas que o governo brasileiro levou mais de um mês para inocular.

Reino Unido e Israel, na vanguarda da vacinação mundial, já começam a esvaziar hospitais e a planejar a volta gradual à vida normal.

Enquanto isso, o Brasil caminha na contramão, com o contágio acelerado por variantes mais infecciosas, a brutal carência de vacinas e a exaustão de serviços hospitalares. Desorganização mata.

editoriais@grupofolha.com.br

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