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O que a Folha pensa itamaraty

Fóssil ideológico

Pragmatismo do centrão gera pressões pela saída do inepto chanceler de Bolsonaro

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O ministro das Relações Exteriores, Ernesto Araújo - Raul Spinassé/Folhapress

O ministro das Relações Exteriores, Ernesto Araújo, é um dos nomes mais disfuncionais do primeiro escalão do governo de Jair Bolsonaro. Membro de uma equipe ministerial que se destaca, no panorama da história republicana, por seu despreparo, o chanceler consegue se salientar pela inadequação aos requisitos do cargo.

Num país que já contou com uma diplomacia qualificada, com sólida reputação internacional, Araújo é um ponto fora da curva. Nem os criticáveis pendores ideológicos do período lulista comparam-se ao que se presencia hoje no Itamaraty.

Não por acaso, neste momento de crise aguda, delineia-se um amplo entendimento de que o Ministério das Relações Exteriores tornou-se um empecilho à resolução de problemas impostos pela pandemia —a começar pela urgente necessidade de importação de vacinas contra a Covid-19.

Já antes da disseminação do vírus se observava o descontentamento de diversos setores da sociedade, em particular de empresários do agronegócio, que viam nas constantes provocações de Araújo à China um risco desnecessário para as exportações nacionais.

Com a aliança entre Bolsonaro e o centrão, o chanceler parece estar perdendo a claque que lhe restava.
As advertências a ele dirigidas, nos últimos dias, pela cúpula do Congresso deixam claro que os políticos em questão não estão dispostos a naufragar abraçados a um governo inoperante e impopular.

Além de questionado por Arthur Lira (PP-AL), presidente da Câmara, e por Rodrigo Pacheco (DEM-MG), do Senado, o ministro foi criticado por governadores e lideranças empresariais que cobram efetividade nas relações com fornecedores de imunizantes e com a Organização Mundial de Saúde.

Não ajudou em nada a imagem do chanceler a performance do assessor internacional da Presidência, Filipe Martins, na sessão do Senado destinada a esclarecer a atuação do Itamaraty na pandemia, na quarta (24). Martins foi flagrado fazendo um gesto utilizado por supremacistas brancos.

Embora ele negue tal significado, o caráter racista da gesticulação não é estranho ao universo da política externa bolsonarista, que se pautou por subserviência ao americano Donald Trump e dedica-se a uma cruzada contra fantasiosos complôs comunistas.

Vendo-se pressionado, o chanceler tentou nesta quinta (25) entender-se com Lira, a quem fez uma visita. Sua permanência no posto permanece, todavia, sob ameaça, enquanto o governo é exortado a mostrar novas atitudes na crise.

Nessas circunstâncias, Araújo assume cada vez mais claramente os contornos do que sempre foi —um fóssil ideológico perdido no tempo.

editoriais@grupofolha.com.br

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