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O que a Folha pensa

É preciso fazer o censo

Pesquisa é crucial para orientar política pública, em particular após a pandemia

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Recenseadores em 2010 - Marcelo Justo/Folhapress

Em meio à carnificina pandêmica, que já cobra quase 4.000 vidas a cada dia no Brasil, às crises políticas semanais, provocadas pela inépcia inaudita do governo, e à turbulência da economia, a notícia de que o IBGE ficou sem dinheiro para realizar o censo populacional não chegou a causar grande comoção. Mas deveria.

O censo é vital para produzir informações que orientem políticas públicas baseadas em ciência, para determinar a divisão de verbas entre estados e municípios e até para definir os tamanhos de órgãos legislativos locais e das bancadas na Câmara dos Deputados —ou seja, para pôr a própria democracia em funcionamento.

Tão ruim quanto o fato de não haver dinheiro orçado para o trabalho é a razão por que isso ocorreu. Inicialmente, o censo deveria ter sido realizado em 2020, e os técnicos do IBGE estimavam um custo de R$ 3,4 bilhões. Veio a pandemia, o que levou ao adiamento e a uma justificada pressão pela redução geral de gastos estatais.

A ideia acordada passou a ser fazer a pesquisa em 2021 e com uma verba na casa dos R$ 2 bilhões. Já haveria aí um prejuízo.

O ideal, para a qualidade dos dados, é que o censo seja realizado a intervalos regulares de dez anos, ou seja, nos anos terminados em zero. Entretanto seria descabido despachar recenseadores para bater às portas de todos os domicílios do país em plena epidemia.

A redução da verba também exigiria cortes no tamanho dos questionários, ou seja, o censo produziria menos informações.

O Orçamento recém-aprovado para 2021, porém, reservou para o censo a singular quantia de R$ 71 milhões. Trata-se de uma piada de péssimo gosto. Não surpreende que a economista Susana Cordeiro Guerra tenha pedido exoneração da presidência do IBGE.

O R$ 1,9 bilhão surrupiado do instituto acabou, diretamente ou não, sendo destinado a emendas de parlamentares, que somam dezenas de bilhões de reais —um caso raro de prodigalidade no texto orçamentário deste ano.

É fundamental que, na indispensável revisão da programação de despesas, reserve-se dinheiro para que o IBGE possa fazer um censo ainda este ano, se a situação epidemiológica permitir.

O pós-pandemia exigirá informações de qualidade sobre a população e as dificuldades que ela enfrenta para que se possam criar programas eficazes de recuperação.

editoriais@grupofolha.com.br

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