Descrição de chapéu
O que a Folha pensa

Milagre dos peixes

Animais nadando no Pinheiros são boa nova, mas falta muito para ressuscitar rio

  • Salvar artigos

    Recurso exclusivo para assinantes

    assine ou faça login

Peixes no rio Pinheiros foram flagrados por ciclistas - Reprodução

Uma dúzia de peixes nadando no rio Pinheiros levantou inesperada onda de encantamento entre paulistanos, acostumados a ver no curso d’água que banha arranha-céus envidraçados sua outra cloaca malcheirosa, ao lado do velho Tietê. Ressuscitar a esperança de águas limpas na capital representa quase um milagre.

Quem trafega pelas avenidas marginais de São Paulo tem razão para encarar com desdém as juras feitas por sucessivos governantes de despoluir os dois rios. João Doria (PSDB) é mais um, tendo prometido o impossível —devolver o Pinheiros até 2022, ano de eleições para presidente e governador.

Só no projeto de despoluição do Tietê se imergiram cerca de US$ 3 bilhões (R$ 17 bilhões). Outros governos tucanos insistiram por uma década na técnica duvidosa da flotação para limpar o Pinheiros.

O atual iniciou a ação mais consequente de recuperar seus 25 afluentes, investindo R$ 1,7 bilhão para captar esgotos de 1 milhão de pessoas que vivem nessa bacia fluvial.

Seria precipitado concluir que os peixes voltaram em definitivo ao rio, ou que isso decorra das obras desta administração. Quando muito se pode dizer que os espécimes não apareceriam ali se anos e anos de obras não tivessem tornado as águas um pouco menos imundas.

Matar um rio, como fez São Paulo em meio ao crescimento desregrado e sem saneamento básico, sob as vistas e o olfato de governantes e habitantes, se consegue em poucos anos ou décadas. Limpá-lo a ponto de reconstituir fauna comparável à original, porém, exigirá mais tempo.

Tal foi a experiência com o Tâmisa de Londres. Declarado morto nos anos 1950, permaneceu meio século nessa condição, e não foi por falta de investimentos em desviar poluição e reconstituir redes de esgoto danificadas sob os bombardeios da Segunda Guerra. Hoje o rio tem até toninhas e focas.

Um pouco mais célere —por volta de 20 anos— foi a despoluição do Reno, que nasce na Suíça e atravessa Alemanha e Holanda. Neste caso o ecocídio resultou de desastre pontual: em 1986 um incêndio na indústria suíça Sandoz despejou uma carga de pesticidas mortífera para peixes e microrganismos. Hoje se pode nadar no rio.

Não será em quatro anos, nem em oito, que se limpará o Pinheiros, menos ainda o Tietê. Por muito tempo, ainda, a visão mais comum desde as margens será de dejetos orgânicos e plásticos, ocasionais capivaras e garças destemidas, os urubus de sempre e flocos de espuma de resíduos industriais lançados por poluidores impunes.

editoriais@grupofolha.com.br

  • Salvar artigos

    Recurso exclusivo para assinantes

    assine ou faça login

Tópicos relacionados

Comentários

Os comentários não representam a opinião do jornal; a responsabilidade é do autor da mensagem.