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Martinho da Vila

Novos tempos

'O mal a gente cura, basta um pouco de ternura'

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Martinho da Vila

Músico e escritor

É tempo de sonhar. A situação geral está difícil, a pandemia campeia, mas em tudo de ruim sempre há algo de bom. Devemos aproveitar o recolhimento doméstico para fazer coisas que não fazíamos por falta de tempo, como ler um livro ou ouvir um álbum. Sugiro “A Bolha”, de Tom Farias, e o meu disco “Rio: Só Vendo a Vista”. Escrever é um bom passatempo. Botei o ponto final no livro “Contos Sensuais e Algo Mais” e parti para outro que é uma conversa entre o cidadão Zé Ferreira com o artista Da Vila.

Outra coisa saudável é conversar virtualmente com os entes queridos. Aos domingos eu proseio com o Tom, o Edmilson Valentim e o Eloi Ferreira para falar da vida, da fome no Brasil, dos governantes, do desgoverno... Comentários sobre o Carnaval, que não rolou neste ano —o que muito me chateou, porque a Vila Isabel vai me homenagear no próximo desfile com o tema “Canta, Canta Minha Gente - A Vila é de Martinho”. Eu evito papo de futebol porque o Vasco foi rebaixado para a segunda divisão do Brasileirão.

“Tô sem consolo, ninguém vem me consolar (...) Eu tô cansado de derrota / Mas não vou me entregar (...) / E se a morte é um descanso, eu não quero descansar.”

Com toda a urgência, há necessidade de mudanças. É fácil: basta trocar a diretoria, vender o elenco atual e comprar 26 craques do nível do saudoso “Expresso da Vitória”. Faz tempo que não se vê no Vasco um elenco de craques como Romário, Edmundo, Roberto Dinamite...

Na juventude, eu sonhava jogar no Vasco, mas sem suar a camisa —como fazia no Boca do Mato FC, onde era reserva. O técnico dizia que não me escalava por não jogar com seriedade. Meu prazer era driblar. Uma vez o Boca enfrentava um poderoso adversário: ganhava de 1 a 0 e estava sendo pressionado. Faltando poucos minutos para o término, entrei em campo para substituir o atacante e prender a bola. Peguei a pelota, driblei uns e outros, acelerei um pouquinho até a grande área e, desimpedido, poderia chutar —mas, por não ter potência nos pés, atrasei para um companheiro, que deu uma pancada forte. A bola bateu na minha testa, e eu desmaiei.

Recobrei os sentidos com um bando de loucos sobre mim e, graças a Deus, fui socorrido pelo técnico e pelo massagista. Fui o herói do jogo com um gol de cabeça sem querer.

São boas as lembranças dos tempos em que o brasileiro era visto como o ser mais alegre e gentil do mundo. Atualmente há um grande percentual de racistas raivosos, o que inspirou a canção “Vidas Negras Importam”:

“Ouça bem o que tenho a lhe dizer: não existe diferença entre eu e você. O preconceito é um grande defeito e nos separa porque tenho a pele negra e você a pele clara. Só o amor é que leva ao Redentor, que nos inspira e é nossa salvação. O racismo é um mal, mas o mal a gente cura, basta um pouco de ternura, alma pura e razão. Deus é pai, e você é meu irmão. O meu sangue é de um vermelho, tão vermelho quanto o seu, e a batida do seu peito é a mesma que bate no meu. Uma vida negra importa. Quem não pensa assim tem a consciência torta.”

A música é um xote à moda antiga. Não sinto diferenças de quando tinha 40 carnavais a menos, mas a pele dos idosos enruga e tudo encolhe, inclusive o... Bem, deixa pra lá. O avanço da idade traz algumas vantagens: uma delas é ser vacinado antes dos mais jovens. Já tomei as duas doses, graças a Deus!

Meditando sobre o fanatismo religioso, nasceu a música “Orações Alegres”, com cânticos católicos e de outras crenças. Vai ser lançada em disco de inéditas intitulado “Mistura Homogênea”, inspirado por um passarinho que me informou sobre a proximidade da era de Aquário:

Martinho da Vila é vacinado - Instagram/martinhodavilaoficial

“O futuro já está bem próximo. Conservadores serão liberais, os raivosos vão ficar dóceis e as doces mais adocicadas. (...) As diferenças sociais vão encolher, e também os preconceitos. Messiânicos, judeus, muçulmanos, kardecistas, evangélicos e fiéis do candomblé rezarão juntos. Acredite. Tudo isso vai acontecer quando a era de Aquário surgir.”

TENDÊNCIAS / DEBATES
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