Obituário digital

Acervos imateriais são exercício de reflexão sobre o que estamos fazendo com nossos dias

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Jamile Borges

Tragédia, catástrofe, desastre, crise... Nenhuma palavra parece ser suficiente para esgotar em si o sentido da dor, da perda, do luto. Cada miséria humana produz seu léxico próprio: escravidão, barbárie, dizimação, holocausto, genocídio, brutalismo, feminicídio. Que palavra será capaz de descrever o século 21?

É verdade também que cada novo termo produz novas experiências políticas e discursivas. Quando novas condições históricas produzem situações de crise da dignidade humana, novas fendas também se abrem para a emergência de saídas e alternativas.

Um fenômeno tem me chamado a atenção: a criação de plataformas e sítios web de obituários digitais em memória dos que se foram, vitimados pelo coronavírus. O jornal The New York Times dedicou a sua primeira página de 24 de maio de 2020 às mais de 100 mil vidas perdidas à época nos EUA. No Brasil, a Folha e outros veículos de imprensa fizeram homenagens semelhantes.

Do Brasil à Alemanha, da Guatemala à Espanha, da África do Sul ao Equador, já se contam dezenas, quiçá centenas, de memoriais e obituários digitais para salvaguardar as histórias, as memórias e as dores do tempo presente. Museus da pandemia para formar acervos de afetos e desafetos, de lutas e perdas, de famílias de todas as formas e pessoas de todos os pertencimentos identitários.

São acervos imateriais, patrimônio sensível da dor, exercício de reflexão sobre o que estamos fazendo com nossos dias. Mais do que um fenômeno novo para dar conta de algo tão familiar na experiência humana como o luto, são um retrato de uma época em que nos foi subtraído o direito inalienável de enterrar os nossos mortos.

Existindo em turnos, como um personagem do escritor moçambicano Mia Couto, seguimos com a coragem de quem sobreviveu a travessias oceânicas e refundou do lado de cá do Atlântico sociedades de homens e mulheres para alforriar a esperança em dias melhores.

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