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Luiz Guilherme Piva

Unicórnios, 'IPOgrifos' e baleias

Há quem duvide da pureza desses seres mitológicos

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Luiz Guilherme Piva

Economista, mestre (UFMG) e doutor (USP) em ciência política e autor de ‘Ladrilhadores e Semeadores’ (Editora 34) e ‘A Miséria da Economia e da Política’ (Manole)

Alguns artigos ligeiros têm usado a obsessão destrutiva do capitão Ahab contra Moby Dick (do romance de Herman Melville) para tratar de temas atuais. Talvez, no futuro, haja uma obra maior para descrever o nosso tempo —embora o narrador, Ismael, advirta que, “para escrever um grande livro, é preciso escolher um grande tema. Não há obra grande e duradoura que possa ser escrita sobre a pulga”.

Ele escreve sobre baleias; e ensina que a principal lei para baleeiros como Ahab é que um peixe solto em qualquer lugar do globo pertence a quem o prender. Isso não se aplicaria só aos cetáceos: “O que são os Direitos do Homem e as Liberdades do Mundo, senão peixe solto? As opiniões e juízos dos homens, senão peixe solto?”.

Nem tanto às baleias (voltarei a elas), nem tanto às pulgas. Hoje, nos pés-sujos, morros e periferias discute-se outro bicho: os unicórnios —as startups que atingem o valor de US$ 1 bilhão antes mesmo de abrir seu capital. O nome decorre da raridade dessas empresas, mas hoje elas já proliferaram muito e são mais de 700 no mundo; o que é paradoxal, uma vez que o unicórnio está associado, na mitologia e na Bíblia, à virgindade. Outra incongruência: eles seriam tão puros que se alimentariam de raios do sol e teriam o poder de transformar impurezas em vida. Nada que condiga com a dieta à base de dólares dessas startups e o sucesso de algumas delas no segmento de fast-food.

Com o cuidado de preservar o nível deste artigo, esses unicórnios castos se transformam num outro ser justamente quando abrem seu capital para o mercado (puristas chamariam de “pecado original”), ou seja, quando fazem seu IPO. Tornam-se, então, “IPOgrifos”, referência ao hipogrifo, animal com cabeça de águia e corpo de cavalo. Uma criatura improvável, porque resultante do cruzamento da égua com o grifo, que tem cabeça e asas de águia e corpo de leão e, vejam, odeia precisamente os equinos. De todo modo, seriam animais mansos, dizem a mitologia e o mercado —o que não se verifica na competitiva atuação das “IPOgrifos”, algo natural vindo de investidores comparados a águias, leões e cavalos.
Por tudo isso, nos debates nas filas de desempregados, vilas de larga pobreza e favelas há quem duvide da pureza de unicórnios e de “IPOgrifos” e sustente que se trata de negócios cruéis. Ou, como diz um mendigo que participa ativamente de webinars mesmo ficando dias sem comer (nem mesmo raios de sol): “É só a força da grana que ergue e destrói mitos”.

O que nos leva de novo às baleias. Os fósseis já encontrados atribuídos a unicórnios são na verdade ossadas de narvais, cujo dente canino é muito comprido e se parece com um chifre. Os narvais são baleias brancas —como Moby Dick, só que bem menores: têm cerca de 4 metros, contra os quase 25 metros do famoso cachalote.

Uma sugestão para a mitologia e para o mercado é que os unicórnios fossem narvais que, nutridos por muitos dólares, se transformassem em baleias brancas como a do romance e, em seguida, em “IPOgrifos” cujos tamanho e força seriam utilizados para impedir, mundo afora, que capitães Ahabs aprisionassem todos os tipos de peixes soltos.

Isso sim faria os “IPOgrifos”, segundo o narrador de "Moby Dick" —e, por favor, não me tratem por Ismael—, dignos de um grande livro.

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