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Carolina Ricardo e Samira Bueno

Operações policiais inteligentes não viram palanque político

Estratégias planejadas e eficientes poupam vidas, mas dão menos visibilidade

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Carolina Ricardo

Diretora-executiva do Instituto Sou da Paz

Samira Bueno

Diretora-executiva do Fórum Brasileiro de Segurança Pública

A nova fase da Operação Escudo, iniciada no começo deste mês pelo governo paulista após o assassinato do soldado da Rota Samuel Wesley Cosmo, 35, durante um patrulhamento em Santos (SP), pode ser considerada um fracasso.

Qualquer operação policial que em menos de três semanas tenha resultado, até segunda-feira (19), em 2 policiais assassinados no cumprimento do dever, além de outros 2 feridos e 27 civis mortos em intervenções, é, por si só, um desastre. E, infelizmente, há razões robustas para acreditar que seguir nessa política é um grande erro.

Manchas de sangue na casa do catador de reciclagem José Marcos Nunes da Silva, 45, morador da favela Sambaiatuba, em São Vicente (Baixada Santista); ele foi morto pela PM na chamada Operação Escudo - Zanone Fraissat - 5.fev/24/Folhapress

Em primeiro lugar, é necessário destacar que é improdutivo e antiprofissional manter tropas especializadas, como a Rota (Rondas Ostensivas Tobias de Aguiar) e o Baep (Batalhão de Ações Especiais de Polícia), deslocadas por tanto tempo numa região complexa e desconhecida pelos agentes. O impacto logístico e de planejamento gerado é difícil de sustentar por longos períodos e causa descontentamentos na tropa, que tem sua vida pessoal e familiar afetada. Somam-se os desafios de gestão, com o pagamento de diárias e redução de efetivo disponível para atendimento em outras áreas, por exemplo.

Além disso, essa prática faz do policiamento de elite, que deveria ser acionado pontualmente e em situações graves, um policiamento cotidiano. Caso a situação na Baixada Santista se complexifique, qual recurso adicional o comando da Polícia Militar poderá acionar, visto que o mais especializado já está empregado e desgastado? Esse desgaste gera também a perda da qualidade dos procedimentos, já agravados pelo fato de os policiais não conhecerem as áreas mais hostis, levando a erros de avaliação e expondo-os a riscos desnecessários.


E, mesmo com o reforço de efetivo de várias regiões, se o policiamento ostensivo não for combinado ao trabalho de investigação e inteligência da Polícia Civil, dificilmente se atinge a redução dos índices de criminalidade e a prisão de lideranças criminosas. Essa ineficiência se comprova com a análise dos dados de agosto e setembro, meses da outra Operação Escudo, em que a região recebeu centenas de agentes de outras cidades e, mesmo assim, viu subir os índices de crimes violentos, como os roubos.

No dia 10 de fevereiro, o Instituto Sou da Paz e o Fórum Brasileiro de Segurança Pública acompanharam a Ouvidoria da Polícia de São Paulo e outras organizações da sociedade civil em uma missão às cidades de São Vicente e Santos para a escuta de familiares de vítimas que relataram abusos policiais. Um dos relatos foi feito pelo sr. Ricardo Araújo, pai de Ruan, servidor municipal alvejado por dois tiros à queima-roupa por um policial militar enquanto fazia a limpeza de um córrego no Parque Bitaru, em São Vicente.

Outro caso documentado foi o de Hilderbrando Simões Neto, um jovem negro de 24 anos, deficiente visual, morto no quarto de sua casa após uma suposta troca de tiros com a Rota, que invadiu a residência sem mandado judicial. Essas situações geram impactos negativos nas comunidades, causando medo e perda de confiança na polícia.

O autor do disparo contra o soldado Cosmo foi identificado imediatamente graças às imagens da câmera corporal que ele usava. As mesmas câmeras que o governador Tarcísio de Freitas (Republicanos) afirma não terem efetividade. O criminoso foi preso pela PM na Quarta-Feira de Cinzas (14), em Uberlândia (MG). A Polícia Civil de São Paulo encarregou-se de buscá-lo, para que seja preso e julgado no estado.

Apesar da prisão do assassino do soldado Cosmo, a lógica das operações espetaculosas continua na Baixada Santista. O gabinete do secretário da Segurança Pública, Guilherme Derrite, foi transferido para Santos e, com o título de "Operação Verão", incursões violentas da Polícia Militar continuam a ocorrer com a desculpa do enfrentamento ao crime organizado —ainda que para isso sejam violados os direitos de milhares de inocentes que habitam essas comunidades.

Infelizmente, a estratégia mais eficiente e que poupa vidas não gera tanta visibilidade ao secretário da Segurança e seus aliados, que têm feito uso político dos enterros de policiais. Investigações silenciosas e operações mais cuidadosas, planejadas e eficientes, apesar de preservarem mais vidas, não se transformam em palanques políticos.

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