Empresária agita encontro entre 'influenciadores de WhatsApp' e presidenciáveis

Líder do Política Viva e ex-diretora da Dior, Rosangela Lyra já agendou com Bolsonaro, Marina e Alckmin

Anna Virginia Balloussier
São Paulo
 
A empresária e socialite Rosangela Lyra
A empresária e socialite Rosangela Lyra - Adriano Vizoni/Folhapress

Rosangela Lyra, 52, achou de bom tom esclarecer. “Indo para a Ásia. Por isso nosso encontro com o deputado [Jair] Bolsonaro foi adiado”, digitou a empresária e socialite em seu iPhone 7, após enviar duas fotos do pré-candidato à Presidência posando para selfies num voo rumo ao Japão, onde falaria com executivos locais. “Um amigo em comum” quem mandou as imagens, ela explica à Folha.   

Bolsonaro será um dos presidenciáveis a falar a uma turma de “influenciadores” mais acostumada a interagir virtualmente. Geraldo Alckmin, Marina Silva, João Amoêdo, Alvaro Dias e Flavio Rocha (dono da Riachuelo), todos transitando do centro à direita no espectro político, também estão confirmados, segundo Rosangela.

São cerca de mil participantes divididos em quatro grupos de WhatsApp administrados por ela: dois  dedicados ao “Política Viva”, movimento que criou em 2014, e os mais recentes “Eleições 2018” e “Eleições 2018 A”. Ela não quis batizar um de “A” e outro de “B” porque “série B ninguém quer ser, né?”.

Lá estão: Eduardo Mufarej, empresário por trás do RenovaBR (movimento que conta com o apoio de Luciano Huck para financiar potenciais candidatos), Richard Back, analista político da XP Investimentos, Sérgio Avelleda, secretário de Transporte de João Doria, Daniel Braga, que cuida das redes sociais do prefeito, e Guilherme Setubal, filho da educadora Neca Setubal, que coordenou o programa de governo de Marina em 2014.

“Não é o ‘grupo dos amigos da Rosangela’. São pessoas que querem influenciar de forma correta o entorno”, afirma a presidente da Associação de Lojistas dos Jardins, ex-diretora da Dior no Brasil e outrora mais conhecida por ser a sogra do jogador Kaká (o casamento da filha já se desfez). 

Pelo WhatsApp, os membros trocam impressões sobre a cena eleitoral e análises políticas. Como uma da XP que cita “erros quase suicidas” do PSDB em 2017 e as tentativas de Geraldo Alckmin, não visto “como um grande aglutinador natural de forças”, de romper o isolamento do partido.

Rosangela é responsável por "manter a ordem” nos grupos. Já expulsou aqueles que infringiram regras como “antes de postar algo aqui, me mande no direto [mensagem privada] para verificar autenticidade e pertinência”.

O expurgo atingiu um senhor que postou um vídeo pornô (“pai de uma amiga”) e Carla Zambelli, líder do movimento Nas Ruas —que diz ter sido removida por divulgar manifestação pró-condenação do Lula. 

Uma das normas da dona do grupo: “Não é o momento de discutir ponto de vista dos participantes, nem seus candidatos. Quando isso acontece gera muita polêmica”.

FOCO

Faz coisa de seis meses que Rosangela deletou sua conta no Instagram. Facebook, nunca teve. Seu negócio é o WhatsApp: é a administradora de 18 grupos no aplicativo, de nomes como Longevidade (tema   pelo qual está “encantada”), Rota da Luz (com orações diárias) e Mulher Maravilha (“tem umas cem mulheres, é para falar bobagem”). 

Mas o foco, agora, está nos que versam sobre política —assunto que a fascina desde que foi estudar em Londres e morou na casa de Roberto Campos, então embaixador do Brasil na Inglaterra, quando tinha 15 anos. “Minha mãe era amiga da filha dele. Via TV entre Campos e a esposa, fui tomando gosto por política. Meu primeiro emprego foi na Paulistur, quando João Doria era presidente [nos anos 1980], tive contato com Mario Covas, Franco Montoro”, conta. 

A fauna política mudou, e Rosangela acha cedo demais para apontar um nome que mereça seu voto hoje. “Uso esta expressão da Fórmula 1, de que estamos no ‘treino da sexta-feira’, quando o Lewis Hamilton pode chegar em 19º lugar, porque está testando freio, roda etc. Aí na corrida pra valer ele já vai para a primeira posição”, diz numa sala com chocolates Elit Dreams in Pieces, no escritório da associação que representa, entre outros, lojistas da rua Oscar Freire, com moda de luxo.

Como não dá para saber quem é o Hamilton do pleito vindouro, ela programa “encontros presenciais” com os pré-candidatos. Os debates acontecerão na sede da empresa de odontologia do marido dela, na avenida Brasil, uma das áreas mais nobres de São Paulo. 

'DENTISTA POLÍTICO'

O "marido engajadíssimo", aliás, é um bom exemplo de como aplicativos de conversa servem de "escola política", diz Rosangela. "Há quatro anos, o Laércio [Vasconcelos] não entendia nada de política, reclamava da minha dedicação e hoje é o mais ativo [no grupo]. Virou um 'dentista político', e antes não se interessava, apesar de ter pacientes da área, entre eles o Temer."

Foi no auditório da empresa de Laércio que, em 2015, sua mulher arrancou do convidado Michel Temer, então vice de Dilma Rousseff, uma pioneira demonstração pública de desavença com a petista que depois destronaria. “Se continuar assim, vou dizer a você, com 7%, 8% de popularidade, fica difícil passar três anos e meio", disse o emedebista. 

Na época, Rosangela fazia parte do movimento Acorda Brasil e ajudava a arrecadar fundos para o MBL (Movimento Brasil Livre) —que no ano seguinte sairiam às ruas para pedir o impeachment de Dilma. Ela eventualmente se arrependeria de apoiar a destituição. “Passar o Brasil a limpo é mais importante que tirar o PT do poder na marra”, disse à Folha já em 2015

As preferências eleitorais nas turmas de WhatsApp não são uniformes. "Aqui temos muitos que apoiam Bolsonaro, alguns Geraldo, outros Alvaro Dias e uns poucos Marina. E muitos ainda não sabem.
É meio que o reflexo do Brasil", escreveu na noite de domingo (4) no grupo Eleições 2018.

Bolsonaro é o mais "ame ou odeie" de todos. “Não se pode esquecer o Bolso. As pessoas estão vendo alguma coisa nele que não estão vendo em outros”, disse um participante após outro apostar que o deputado “terminará menor do que entrou”. 

Luciano Huck e João Doria não polarizam tanto, mas também despertam fortes emoções. A maioria opta por nomes ao centro, como Alckmin, Henrique Meirelles e Rodrigo Maia. “O mais à esquerda que vai é a Rede da Marina. Não chega ao ‘extremismo Jean Wyllys’ [deputado do PSOL].”

Rosangela prefere uma visão mais centrista, diz. “Tento olhar pelo Brasil sem cair nos preconceitos de direita e esquerda. É o lado humano, né? Como cristã praticante, tenho que viver o que prego.”

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