Maia não será candidato do governo, diz novo presidente do DEM

ACM Neto demarca distanciamento em relação a Temer e tenta amenizar imagem conservadora

Bruno Boghossian
Brasília

O novo presidente do DEM, ACM Neto, afirmou que a candidatura de Rodrigo Maia (RJ) ao Palácio do Planalto “não será uma candidatura de governo”. Em entrevista à Folha, o prefeito de Salvador fez a manifestação pública mais enfática sobre o distanciamento que seu partido adota em relação a Michel Temer.

ACM assume o comando nacional do DEM nesta quinta-feira (8), em convenção que lançará o nome de Maia à Presidência. A candidatura é encarada com ceticismo até por aliados, mas a sigla pretende manter seu nome na disputa pelo menos até junho. “Não temos nada a perder”, declara.

O novo presidente do DEM afirma que o partido participou de um momento de transição e indica que a parceria com Temer “se encerra em 2018”. ACM busca readequar a imagem da sigla, amenizar posições conservadoras e fazer acenos a programas sociais. “Um governo do DEM jamais acabaria com o Bolsa Família.”  

O prefeito de Salvador, ACM Neto (DEM), durante entrevista exclusiva no gabinete da prefeitura em Brasília
O prefeito de Salvador, ACM Neto (DEM), durante entrevista exclusiva no gabinete da prefeitura em Brasília - Pedro Ladeira/Folhapress

A seguir, os principais trechos da entrevista:

Folha - O DEM recuperou força, mas ainda é um partido com poucos personagens de projeção nacional. Por que lançar um candidato a presidente agora?

ACM Neto - O partido teve coragem de remar contra a maré para manter seus princípios. Isso nos custou. Perdemos deputados, senadores, governadores. Agora, oferecemos um projeto de médio e longo prazo, que passa por disputar a Presidência da República. Vivemos experiências que nos habilitam a pensar em um salto maior.

Mas o pré-candidato do DEM, Rodrigo Maia, tem 1% nas pesquisas. Esse projeto não pode desgastar o partido?

Não. Nós não temos nada a perder. A eleição presidencial está completamente aberta. O Brasil quer uma mensagem nova, não quer ser refém de uma polarização entre PSDB e PT. Quando a crise se impôs, Rodrigo cresceu como presidente da Câmara. As melhoras nos indicadores do país derivam do apoio do Congresso à agenda econômica. Nosso compromisso jamais foi firmado com o governo.

Mas ele tem viabilidade eleitoral?

Para ser competitivo, a base de largada é ter suporte político-partidário, algo que ele vem construindo com competência. As eleições ficaram mais curtas. As convenções podem acontecer até agosto, então o prazo de analisar a viabilidade real de uma candidatura é próximo desse período. Não imagino nada anterior a fim de junho. Não vamos brincar de fazer política ou de ter candidato a presidente.

Há resistência à candidatura de Geraldo Alckmin?

O PSDB tem legitimidade em apresentar seu candidato e nós também. Não deixaremos de dialogar. Quem sabe a candidatura de Rodrigo não toma corpo e a gente não tem condições de trazer o PSDB para apoiá-la.

A fragmentação de candidaturas na centro-direita pode prejudicar esse campo?

Não vejo risco de não haver um candidato de centro no segundo turno. Lá, quem sabe, todos podem se unir. Mas é evidente que, se enxergarmos esse risco, é fundamental praticar o diálogo para que possamos fazer uma agregação ainda no primeiro turno.

O DEM pode ter uma candidatura com o apoio do governo Temer?

Não penso que nossa candidatura deva ser uma candidatura de governo. Quando o presidente assumiu, ele deixou claro que seu desejo era fazer uma transição. Em nenhum momento, ele se colocou como candidato. Temos uma pré-candidatura com propostas para o futuro e coragem de mexer em velhas estruturas da política, cortando na própria carne. Não será uma candidatura de governo.

O DEM apoiou o impeachment de Dilma, integrou a base de Temer e assumiu cargos públicos. Como justifica a discussão de afastamento do governo?

Vamos discutir internamente qual será a diretriz do partido. Não vejo disposição do DEM em ir para a oposição. Seria um movimento difícil de ser justificado. Agora, se o partido vai preferir ter mais liberdade e estar à vontade para construir seu pacto eleitoral, não posso antecipar. O DEM não participou do governo atrás de cargos. Participou porque se sentiu responsável por esse momento de transição. É uma perspectiva que começou no impeachment e se encerra em 2018.

Em janeiro, Rodrigo Maia disse que o Bolsa Família escraviza as pessoas. O que o DEM pensa do programa?

Somos favoráveis ao Bolsa Família e, em Salvador, nós ampliamos o cadastro. Os programas sociais precisam ser repensados, mas temos que reconhecer a miséria em que vive uma parcela importante da população. Um governo do DEM jamais acabaria com o Bolsa Família.

Por que o DEM é considerado um partido conservador?

Por preconceito de um certo segmento que não conhece ou não quer enxergar a ação prática do partido. Não visto essa carapuça e não aceito esse rótulo. Ele deriva de um preconceito que remonta a décadas, quando o PFL foi constituído, mas que desconsidera uma transição geracional.

A corrida presidencial tem um polo consolidado à direita, com Jair Bolsonaro. Como o DEM se diferencia de suas posições?

O DEM se refunda agora afirmando claramente que é um partido de centro. Significa ser um partido mais moderado, equilibrado. O Bolsonaro tem o direito de militar na direita, como [Guilherme] Boulos tem o direito de militar na esquerda. Eu continuarei no centro, aberto ao diálogo.

O DEM pretende assumir posições claras sobre temas como descriminalização do aborto e cotas raciais?

Nenhum partido tem unanimidade de pensamento. Se alguém defende uma bandeira, não significa que seja o pensamento do partido. O pensamento majoritário do DEM é favorável às cotas. E nosso pensamento em relação ao aborto não vai mudar: somos favoráveis ao entendimento que já existe na lei. O partido hoje, inegavelmente, tem um olhar mais voltado para o social do que há 20 anos.

Qual a visão do partido sobre o Estado mínimo?

Não vamos defender Estado mínimo, mas defendo que aquilo que o Estado se propõe a fazer, que faça bem feito.

Defende a privatização de estatais como Petrobras, Banco do Brasil e Caixa?

Empresas públicas estratégicas não podem ser objeto da disputa ideológica. A ótica da decisão não pode ser o interesse do mercado ou exclusivamente a procura pelo equilíbrio fiscal.

Alguns adversários de Lula diziam que gostariam que ele disputasse a eleição para ser derrotado nas urnas. Qual a sua opinião?

A candidatura de Lula não depende da política, depende da Justiça. A lei diz que qualquer pessoa que tenha contra si uma condenação de órgão colegiado está inelegível. Ponto.

O sr. tem demonstrado hesitação em disputar o governo da Bahia. Já se decidiu?

A decisão virá nos próximos dias. Em nenhum momento alguém ouviu da minha boca que eu seria candidato a governador. Tenho absoluta noção da minha responsabilidade como prefeito. Uma renúncia só pode acontecer se estiver amparada na vontade da população de Salvador.

O sr. foi acusado por um ex-diretor da Odebrecht de se beneficiar de financiamento via caixa 2 na campanha de 2012. Houve dinheiro não contabilizado?

Ontem [terça-feira (6)], houve uma decisão do Tribunal Regional Eleitoral arquivando o inquérito. As doações foram oficiais.

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