Ministro diz que Barbosa não tem aptidão a presidente e o compara a 'ditador'

Segundo Carlos Marun, ex-ministro do Supremo não tem capacidade de articulação

Gustavo Uribe
Brasília

O articulador político do presidente Michel Temer, Carlos Marun, comparou nesta quarta-feira (25) o ex-ministro do STF (Supremo Tribunal Federal) Joaquim Barbosa a um ditador e afirmou que ele não tem capacidade para ser presidente do país.

Em entrevista à Folha, o ministro da Secretaria de Governo disse que falta ao magistrado aptidão ao diálogo e à articulação. Ele cobrou do eventual candidato do PSB que explique por que deixou o cargo de ministro da Suprema Corte, citando a renúncia de Jânio Quadros.

Carlos Marun gesticulando
O ministro da Secretária de Governo, Carlos Marun, durante conversa com jornalistas - Mateus Bonomi - 29.jan.2018/Folhapress

"Nós não vamos eleger um ditador, vamos eleger um presidente, que para fazer o país avançar vai ter de ter capacidade de articulação. E não é o que sinaliza até hoje a trajetória de Joaquim Barbosa", disse.

O ataque faz parte de ofensiva de Temer para tentar desidratar o nome do magistrado, que tem aparecido à frente dos candidatos governistas nas pesquisas de intenções de voto. Ele foi um dos críticos do impeachment de Dilma Rousseff, ao qual chamou de "tabajara".

Na entrevista, Marun também reconheceu que os candidatos presidenciais têm buscado o apoio do Palácio do Planalto, mas, diante da desaprovação de 70% do governo federal, querem também distância do presidente.

Com impopularidade de 70%, o presidente Michel Temer desistiu de ser candidato à reeleição?
De jeito nenhum. O nome do presidente está à disposição para ser candidato do governo nas próximas eleições.

Mesmo com tanta rejeição?
Não estamos fechando as portas para a discussão de outros nomes, mas temos uma certeza: teremos um candidato que exalte as conquistas do governo, que são muitas, e proponha ao país a continuidade do rumo que estamos trilhando.

Desde o ano passado, o presidente está estagnado com 6% de aprovação. Em que ele errou?
Não vejo erro do governo. Fomos vítimas de uma conspiração que faz com que sejamos diariamente ofendidos. O presidente é diariamente ofendido em alguns dos principais órgãos de imprensa. Isso realmente instalou em torno dele uma blindagem negativa que faz com que os méritos do governo não sejam a ele creditados.

Mas antes mesmo da delação premiada da JBS, a popularidade dele já era baixa.
Mas os resultados econômicos não tinham acontecido.

Já não deu tempo de dissipar os efeitos da delação? Não mudou nada desde o ano passado.
A conspiração continua. O presidente é diariamente enxovalhado por notícias fabricadas, plantadas e requentadas.

E isso dificulta uma reeleição?
Dificulta, não impossibilita, mas dificulta, reconheço. Mas eu acho que o mais provável hoje é que ele seja candidato. Os candidatos de outros partidos até agora se apresentam querendo duas coisas de nós: apoio e distância.

Distância pela impopularidade do presidente?
Distância porque se busca um formulismo no qual seria possível se apropriar dos êxitos do governo sem que se necessitasse fazer uma defesa dele. É uma fórmula difícil.

Sem candidato do MDB, quem é o primeiro na fila de apoio?
Nós temos candidaturas dos partidos da base aliada. Temos Rodrigo Maia (DEM), que é de um partido mais próximo das decisões que levaram aos sucessos do atual governo. Ele está ainda avaliando a sua candidatura no âmbito de seu partido.

O MDB fala em apoio a Geraldo Alckmin (PSDB), mas ele não tem dado indicação de que defenderá o governo.
Isso é um dificultador sério, quase um obstáculo intransponível em uma possível aproximação com a candidatura dele. Neste momento, sem que tenha uma definição clara de postura dele, é impossível [o apoio]. Mas se pode construir, temos ainda 60 dias. 

É cogitado o apoio a Joaquim Barbosa (PSB)?
Não. Ser um bom presidente exige qualidades diversas. E, no nosso entendimento, mesmo que respeite em muitos aspectos a posição de Joaquim Barbosa quando ministro do STF, não vejo nele essas condições. Nós não vamos eleger um ditador, vamos eleger um presidente, que para fazer o país avançar vai ter de ter capacidade de articulação. E não é o que sinaliza até hoje a trajetória de Joaquim Barbosa. 

Por que ele seria um ditador?
Tem muita gente dizendo: "eu vou fazer e vou fazer aquilo". Como se quem assumisse a Presidência chegasse com a espada mágica e sabemos que não é isso. Esse futuro presidente tem de possuir muitas das qualidades que possui o presidente Temer. E eu não vejo em Joaquim Barbosa essa qualidades. E ele tem explicações a dar à nação: por que essa aposentadoria precoce e surpreendente? Não podemos daqui a 20 anos discutirmos, como se falava sobre Jânio Quadros, por que ele renunciou.

Que características de ditador o senhor atribui a ele?
Eu não vejo características de ditador. O que eu não vejo são características de um não ditador. A capacidade de diálogo e articulação, principalmente com o Poder Legislativo, para que as coisas possam avançar. Isso não vejo nele. Quando eu falo que o país não precisa de ditadores, não estou falando só dele. Estou falando de outros candidatos que prometem, não mostram o caminho, e agem como se aqui se sentasse como um ditador, como se tivesse esse poder de fazer exatamente o que querem que seja feito.

O senhor diz que Barbosa não tem condições para ser presidente. O que o diferencia de Temer?
Primeira coisa, é a articulação política. Segunda coisa, conhecimento da gestão pública.

Mas as pesquisas mostram que Joaquim tem mais apoio que Temer.
Eu reconheço que a questão da popularidade existe e nós decidimos enfrentar essas questões. Fazer o que é necessário independentemente da questão da impopularidade. Não viemos aqui para fazer gracinha e receber confete e serpentina. É natural que alguém que não tenha feito nada muitas vezes esteja na nossa frente em questão de popularidade.

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