Brasileiros pró-Temer dizem relevar denúncias e falta de carisma em prol do avanço econômico

A Folha conversou com sete eleitores simpatizantes do presidente

Anna Virginia Balloussier Thaiza Pauluze
São Paulo

Eles são os 3%. A Folha reuniu em sua Redação sete simpatizantes de Michel Temer (MDB), o mais impopular presidente do Brasil desde a redemocratização, segundo pesquisa Datafolha de junho.

Na sondagem, apenas 3 em cada 100 brasileiros classificaram o governo Temer como ótimo ou bom —para 82%, é ruim ou péssimo, 14% o consideraram regular e 1% não tiveram opinião sobre o tema.

Opiniões não faltam, neste grupo, sobre por que o Brasil rejeita tanto o vice que ocupou o lugar de Dilma Rousseff (PT) após manobrar por seu impeachment. Não ajudam, claro, as denúncias de corrupção que orbitam o presidente e seus correligionários, acompanhadas de imagens fortes como a mala dos R$ 500 mil, transportada pelo aliado Rodrigo Rocha Loures (suposta propina para a JBS). 

Mas não são as únicas responsáveis por arranhar a imagem de Michel Miguel Elias Temer Lulia, 77, reconhecem seus defensores. Para começo de conversa, ele não é tido como muito carismático, vide a aura vilanesca que a internet lhe atribui, em memes nos quais é comparado a um vampiro, a um mordomo e a Frank Underwood (o vice que virou presidente por métodos escusos em “House of Cards”).

E tem o discurso empolado, afirma o empresário Evandro de Oliveira, 42. “Ele usa muitas frases jurídicas. A gente tá acostumado com o linguajar ‘nóis vai, nóis quer, nóis foi’. Muitos entenderam que ele quis ser superior a todo mundo.” O gosto pela mesóclise cair-lhe-ia melhor no século 19. 

O que faria bem ao Brasil, segundo o aposentado Antonio Domingos Canozo, 77: “Colocar a economia em primeiro lugar, porque se a economia for uma droga, o país é uma droga”. Ele serve de porta-voz para um pensamento unânime na turma: deixa o homem trabalhar. Ainda que isso signifique suspender, ao menos por ora, investigações que podem paralisar o capital político deste que é o primeiro presidente do Brasil a responder por crime durante sua gestão.

“Quanto tempo ele tem [de governo]? Meses? Se for condenado agora, a economia sofreria outro abalo violento”, diz Antonio. “Deixa ele terminar o mandato. Se não, caramba, este país vira o quê?”

Conversa com os simpatizantes do Temer, na Redação da Folha - Danilo Verpa/Folhapress

Num Brasil tão polarizado, o fastio com o presidente une direita e esquerda. Mesmo em casa ele não é tão popular. Quando a Folha pediu ajuda para localizar eleitores que tivessem Temer em alta estima, chegou a receber de um militante do MDB, pelo WhatsApp: “Tarefa difícil, kkkkk”. 

“Tenho perdido amizades no Facebook”, graças à postura política, diz Aliete Quirino da Silva, 56, a Lilika.  Fazer o quê? “Tenho simpatia.” E também uma queda pelo Temer de outrora. “Bonitão ele já foi muito, as plásticas acabaram com ele um pouquinho.”

Corrupção 

Tudo bem que investigar é preciso, mas calma lá, diz a corretora Rosa Baptista, 54. “Acaba atrapalhando o desenvolvimento [do país]. O que quebrou muito foi aquela notícia da JBS”, afirma, lembrando a delação dos irmãos Joesley e Wesley Batista em 2017, que pôs em letargia prioridades do governo como a reforma da Previdência. “Nossa, aquilo parou [o país]. É como se você estivesse andando e alguém te puxa pra trás.”

Quem paga o pato não são os políticos denunciados, mas a economia, diz Lilika. “Quando jogaram na mídia a acusação da JBS, ninguém viu que o Brasil quebrou. Todas as vezes em que colocamos a cabeça pra fora desse bueiro, alguém chuta, e voltamos pra baixo.”

Para ela, “deveria ser brecado um pouco, aguardar [Temer] sair da Presidência, para aí, sim, ser condenado”. Tudo em nome da estabilidade.

Sabe como é, começa Evandro. “Quando se fala em político, não ponho a mão no fogo por ninguém.” Ele acha, contudo, que o “índice de reprovação altíssima” de Temer se deve mais “por conta do barulho, do jeito que ele chegou no impeachment” de Dilma.

“Está aquela briga pelo apartamento da mulher, mas o país está andando”, afirma o empresário. A contenda em questão: a reforma da casa de Maristela Temer —a Polícia Federal suspeita que seu pai, o presidente, tenha lavado dinheiro de propina, o que ele nega.

Para Evandro, há ares de perseguição nesse imbróglio policial. “Não conseguem provar nada. Está fugindo um pouco do Estado democrático de direito.” 

Imagens da casa de Maristela não impressionaram a corretora Rosa. “Eu lido com imóvel, vi o imóvel antes e depois. Ah, ela gastou, mas não foi aquela coisa... Foi uma modernização. Já vi casas de R$ 3 milhões, coisas suntuosas, com mármore, então você sabe quando a pessoa tá exagerando.”

Não são nobres os motivos que embalam a sanha condenatória dos opositores, diz a turismóloga Marijane Grando, 36. “É briga política, eles não estão nem aí para o país. ‘Vamos tirar o Temer, vamos lascar o Brasil’”, afirma. E pior: muita gente acaba virando massa de manobra. 

“A pessoa vai lá abanar bandeira, nem sabe por que está na manifestação e acaba atrapalhando a vida do outro.” E ganha de lambuja “um sanduíche de mortadela”, provoca Evandro, lembrando do lanche entregue a manifestantes em alguns atos de esquerda.

Economia

Decano da mesa, Antonio tira a carteira de trabalho do bolso. “Eu era milionário”, brinca, mostrando os reajustes mensais no salário durante a hiperinflação dos primeiros anos da redemocratização. Em maio de 1992, por exemplo, ganhou 6.109.393,00 cruzeiros, o equivalente a R$ 14 mil em valores atualizados.

Tem calafrios só de pensar num retorno ao Brasil “da desordem econômica”. E Temer, diz, “fez o que era possível fazer”, considerando a ruína que legou do PT. O aposentado está em sintonia com o grupo.

“Também fui milionária”, diz Lilika. Antes do Plano Real, dois hospitais onde esta técnica em enfermagem trabalhava fecharam. “Vocês não sabem o que é pegar seu salário e ir direto no supermercado porque o café está R$ 2,80 hoje, e amanhã, R$ 3.”

Rosa viu o mercado de imóveis de alto padrão “dar uma parada considerável” nos anos Dilma. Para o representante comercial Edmilson Alves, 57, “tanto faz o governo que estiver, desde que faça as medidas corretas”. E o atual mandatário, diz, acumula acertos nessa área. “Liberou o fundo inativo [do FGTS], a inflação deu uma estabilizada, a parte de gasto público foi aprovada, a lei trabalhista achei boa...”

Edmilson trabalha com óticas e conta que testemunhou “muitas lojas fechando por problema trabalhista, manter funcionário é muito caro”. A reforma na área, uma das meninas dos olhos do governo Temer, “ajudou para contratar como freelancer”, elogia.

Carisma

Marcos Alimari Franca, 33, é conselheiro tutelar. Se visita, vejamos, adolescentes de uma comunidade, “falo palavrão pra caramba”. Já entre “pessoas com conhecimento maior posso tentar ser mais culto”. O presidente precisa aprender essa lição, afirma.

“Temer sempre foi culto demais ao se posicionar, a fala dele é muito perfeita. Usa e abusa muito da mesóclise.

A chegada do emedebista ao Planalto foi um alívio para Marcos. “Uma das coisas primordiais, que mudou e mudou muito com o impeachment, era a questão de como éramos vistos lá fora. Com Dilma tinha esta visão do Brasil, o país do circo. Éramos usados como modelo nos programas de stand-up comedy dos EUA”, diz e elenca “pérolas” da ex-presidente: “Estocar vento, saudar a mandioca...”.

Ele acha que Temer peca pelo outro lado. “Muitas vezes tem que desenhar para o povo, acostumado com Lula e Dilma falando. Usavam muita metáfora, enquanto o Temer usa o português correto. Às vezes precisa ser mais simplório ao falar, usar linguagem coloquial, ou o povo não entende.”

E se ganha alcunhas como Vampirão é porque incomoda, continua o conselheiro. “Só se coloca apelido em quem se dá importância. Se você apelida o menino da sala é porque ele é lembrado”, afirma.
Ame-o ou odeio-o, escolha seu lado, mas “ninguém pode dizer que Temer não é inteligente”, diz Antonio.

“Até pode dizer que usa a inteligência para o mal, mas inteligência é coisa rara. Como dizia amigo meu que já faleceu: é inteligente e tem bom gosto, veja a mulher dele [Marcela, 35].”

Diversidade

Em maio de 2016, Temer decidiu 23 nomes para assumir o primeiro escalão do seu governo, ainda interino. A foto não pegou bem: só homens. Nenhum negro. Era a primeira Esplanada sem mulheres desde Ernesto Geisel (1974-1979).

Ele errou, podia ter colocado mais ministras, concordam duas das três mulheres na mesa: Marijane e Aliete. Mas, diz a primeira, “o Temer está batendo muito nisso”. Inclusive, emenda, “o partido está sendo presidido pela Simone Tebet (MS) no Senado. É uma mulher que está no poder”. A senadora é a primeira a assumir a liderança do MDB na Casa.

Já Rosa não se incomodou com a ausência feminina. “Com esse negócio da pressão, de ‘tem que ter mulher, tem que ter negro’”, Temer acabou nomeando Luislinda Valois [à época, PSDB] para o Ministério dos Direitos Humanos. Mulher. Negra. “Aí ela deu aquela bola fora”, afirma.

Temer dá posse à ministra dos Direitos Humanos, Luislinda Valois - Alan Marques - 03.fev.2018/Folhapress

Ao assumir o cargo, Luislinda pediu para acumular seu salário de desembargadora aposentada com a remuneração da pasta —o que lhe garantiria salário de R$ 61,4 mil. Alegou que estaria exercendo um “trabalho análogo à escravidão” com tantas funções.

No fim das contas, “não importa se é homem ou mulher, isso de cor, raça, a pessoa tem que ser capacitada”, diz Rosa

Os homens na mesa concordam. “Não era melhor ter uma pessoa capacitada lá?”, afirma Antonio sobre Luislinda.

“Esse ‘tem que ter’ acaba atrapalhando. Hoje meu negócio tem um homem e quatro mulheres. Quer dizer, não é preconceito”, conclui Evandro

Temer durante posse da nova Advogada Geral da União Grace Mendonça - Pedro Ladeira - 14.set.2018/Folhapress

Hoje, dos 29 ministros, uma é mulher: Grace Mendonça (Advocacia-Geral da União). Negros, ainda nenhum.

Futuro do MDB

Aliar-se a Dilma foi dispensável, avalia Marijane. “Se não tivessem feito essa aliança, o MDB não estaria apanhando tanto. Batem muito nessa tecla: quem que era o vice da Dilma? Deveriam ter pensado melhor na ideologia do partido, porque foi uma furada.”

A infame fama de fisiologista precisa ser combatida, diz Marcos. “Temos que entender que existem muitos partidos meretrizes. Acho que o MDB é a esposa que todo mundo quer, bela, recatada e do lar, só que não”, diz e ri. “Os partidos pequenos são aquelas lá que o pessoal vai na casa da luz vermelha procurar. Eles se vendem por qualquer dinheirinho, qualquer carguinho.”

Em outubro, a maioria pretende votar ou em Henrique Meirelles, o presidenciável do MDB, ou no tucano Geraldo Alckmin.

Estacionado em 1% das intenções de voto nas pesquisas, o ex-ministro da Fazenda tem uma “candidatura difícil”, reconhece Marcos. “Se estiver feio lá na frente, prefiro até cogitar um louco na Presidência a um socialista.” Questionado sobre quem seria este louco na corrida de 2018, ri. Rosa vai na onda: “Antes um louco do que um presidiário”.

Antonio é taxativo: “Voto em qualquer um que não seja socialista. Pode ser o Henrique Meirelles, o Geraldo Alckmin. No Jair Bolsonaro [PSL] não voto porque ele é mentiroso, se apresentou como o cara que ia mudar a economia, aí votou contra a reforma da Previdência. Vai esperar o que de um cara desses? Que isso? Eu sou ca-pi-ta-lis-ta”.​

Por que eles aprovam Temer 

A gestão econômica de Michel Temer foi o trunfo de seu mandato, segundo os eleitores --parte dos 3% que consideram o governo bom ou ótimo

O emedebista, que para eles é de centro, conseguiu formar uma competente equipe de ministros e o país começou a avançar a partir das reformas necessárias ao país, dizem

Os eleitores elogiam principalmente a fixação do teto de gastos e a reforma trabalhista; mas aprovam também a do ensino médio e esperavam que a da Previdência passasse

Segundo eles, o índice de reprovação de Temer é alto pela forma como ele chegou ao poder e porque as pessoas não estão acostumadas a analisar resultados, entender números

Para os eleitores, o governo só não fez mais porque quando tentava, vinha uma nova denúncia de corrupção (como os áudios da JBS e a mala do Rocha Loures) ou um cenário de instabilidade (como a greve dos caminhoneiros), que, exacerbados pela mídia, puxavam para trás os avanços

Eles minimizam as acusações contra o presidente. Dizem não colocar a mão no fogo por ele, mas tampouco o veem como corrupto ou ladrão

Rejeitam também a pecha de fisiologismo que pegou no MDB. Para eles, ao contrário, o partido por ser grande e ter uma bancada expressiva no Congresso, é o preferido das outras legendas para se aliar nas eleições

Se Temer errou, foi em "falar perfeito demais", ser muito eloquente. Atributo que o povo, acostumado com Lula e Dilma, não entendeu; também não veem falta de carisma --a questão é que venderam uma imagem errada sobre suas propostas

Como os eleitores foram selecionados

Para chegar aos simpatizantes de Temer, a reportagem teve acesso aos eleitores que responderam bom ou ótimo ao Datafolha, instituto de pesquisa do Grupo Folha, quando perguntados sobre o atual governo. Além de buscar nas redes sociais contas que elogiavam o presidente —em grupos como "Eu Apoio Michel Temer" ou na hashtag #boraTemer.

Série sobre eleitores e o voto em 2018

A Folha vem fazendo, desde março, uma série de conversas com eleitores dos presidenciáveis que estarão nas urnas em outubro --e que ocupam as primeiras posições nas pesquisas de intenção de voto. O jornal reuniu apoiadores de Jair Bolsonaro (PSL), Lula ou outro candidato pelo PT, Marina Silva (Rede), Geraldo Alckmin (PSDB), Ciro Gomes (PDT) e ainda aqueles que não pretendem votar em ninguém.

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