Descrição de chapéu Eleições 2018

Ataque é usado para docilizar imagem de Bolsonaro, mas sem 'Jairzinho paz e amor'

Aliados e filhos tentam desconstruir pecha de violento, mas vice vê excessos

Guilherme Seto Talita Fernandes
São Paulo e Brasília

A facada recebida por Jair Bolsonaro (PSL) na quinta-feira (6), em Juiz de Fora (MG), disparou reações conflitantes entre os membros da campanha do presidenciável sobre a comunicação que seria feita com os eleitores a partir do episódio. Alguns, como seus filhos, têm tentado utilizá-lo para “desconstruir” a imagem de um Bolsonaro agressivo, como mostrado em campanhas de adversários, caso de Geraldo Alckmin (PSDB), que exibiu na TV cenas do deputado federal discutindo com mulheres.

Em substituição, passaram a divulgar nas redes sociais episódios em que o deputado foi alvo de ovada, de um cuspe e de purpurina, além da própria facada.

No sábado (9), o senador Magno Malta (PR-ES), pastor evangélico e um dos principais aliados de Bolsonaro, que chegou a ser cotado para ser seu vice, lançou mão de estrutura de narrativa cristã para exaltar o amigo que havia visitado no hospital Albert Einstein, em São Paulo: o candidato sempre apanhou e deu a outra face.

“A última imagem que temos dele [a da facada] é completamente avessa a tudo o que ele fala. Se ele defendesse a violência os seguidores dele teriam acabado com o sujeito ali. Vamos usar essa imagem [na campanha]. É a imagem da desmoralização desse discurso de que ele é violento. Tomou cuspida e ovada na cara, jogaram purpurina, deram uma facada, e ele nunca fez nada”, disse Malta, cujas atitudes de gravar vídeos e fazer foto da cicatriz de Bolsonaro na UTI do hospital foram criticadas por membros da campanha.

Os filhos, então, adotaram discurso semelhante. “Nós somos a favor da paz. A gente só quer que as pessoas de bem tenham chance de se defender contra aqueles que estão longe de querer a paz. Nós somos o lado da tolerância. Se nós fossemos quem defende a violência, aquele marginal nem levantava do chão em Juiz de Fora. Estamos do lado da lei, não praticamos a violência contra ninguém”, diz Flávio Bolsonaro (PSL-RJ), candidato ao Senado.

A estratégia passa a ser, então, a de colocar os adversários políticos como verdadeira fonte de violência. Para filhos e aliados, há envolvimento de adversários no atentado. Até o momento, a Polícia Federal trabalha com a hipótese de que o agressor Adélio Bispo agiu sozinho.

“Bolsonaro não é violento. O que é ser violento? Violento é quem agride uma pessoa desmotivadamente. Que episódio de violência ele tem? É um cara firme, enfático das ideias. Um cara que fica indignado. O Brasil virou um país de frouxos e ladrões”, disse Gustavo Bebianno, presidente do PSL.“Ele é amoroso com todo mundo que trabalha com ele, brincalhão, bem humorado”.

A estratégia de enternecimento da figura do capitão reformado do Exército tem rachaduras e começou a encontrar resistência entre os participantes da campanha. Internamente começaram a avaliar que uma imagem de “Jairzinho paz e amor” poderia desfavorecer o candidato, que conquistou fãs e eleitores em torno de uma vida política marcada por polêmicas e por ser visto como “o destemido” que fala o que quer e não se preocupa com o “politicamente correto”.

A contemporização de Bebianno contradiz, inclusive, sua primeira reação ao esfaqueamento. “Agora é guerra!”, respondeu ele à Folha na quinta.

No sábado (8), o próprio capitão posou para foto fazendo gesto de armas com as mãos, o que foi recebido criticamente por seus opositores, que viram ali uma exaltação à violência. Eduardo, um dos filhos, disse se tratar apenas de “uma marca” do pai.

O vice da chapa, o general Hamilton Mourão (PRTB), inicialmente viu no ataque uma chance de mostrar que Bolsonaro “é um candidato razoável”. “E essa questão da [forma como trata a] mulher, que tem sido explorada, vamos dizer que é homem que trata as pessoas de forma gentil”, disse em entrevista à rádio Jovem Pan. Mas ele já vê esgotamento do processo.

“Esse troço [vitimização de Bolsonaro por aliados] já deu o que tinha que dar. Isso é uma exposição que eu julgo que já cumpriu a sua tarefa”, diz, destacando que não pode haver um “Jair paz e amor”.

Mourão, contudo, afirma que isso não significa que o episódio deve ser esquecido. “[Momento] é de calma, mas não é de contemporização com o fato ocorrido. A investigação tem que ir até o fim. Nós vamos pressionar em cima para que se chegue ao âmago do que aconteceu”, disse à reportagem.

O desacerto entre as lideranças aparece também ao tratar das estratégias de campanha. Nesta terça (11), Levy Fidelix, presidente do PRTB, partido de Mourão, disse que consultaria o TSE (Tribunal Superior Eleitoral) para saber se poderia substituir Bolsonaro em debates. No entanto, Bebianno, presidente do PSL, já havia declarado que ninguém substituiria o presidenciável, e não foi consultado pelo PRTB.

Nesta quarta (12), em nota, o PRTB recuou e disse que a decisão será tomada pela coordenação de campanha.

Nesta quarta-feira, Bolsonaro teve piora em seu quadro de saúde e teve que passar por cirurgia de emergência para tratar de aderência obstruindo o intestino delgado.

​O hospital informou que o candidato teve náuseas e foi submetido a uma tomografia. O resultado levou a equipe médica a submetê-lo a nova cirurgia que terminou pouco antes da meia-noite. Segundo os médicos, o procedimento foi realizado com sucesso.

Após a cirurgia, Bolsonaro voltou para a UTI (Unidade de Terapia Intensiva). 

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