Descrição de chapéu Eleições 2018

Na periferia, João Amoêdo recusa pecha de elitista e impressiona com patrimônio de R$ 425 mi

Candidato do Novo à Presidência vai ao Capão Redondo pregar seu liberalismo

Anna Virginia Balloussier
São Paulo

Propostas para a educação? Pois não: João Amoêdo sugere um voucher que pessoas de baixa renda usariam para estudar em instituições privadas.

Ah, para. Do que esse cara está falando? 

“Chamar de voucher distancia ‘nóix’. A quebrada não sabe o que é voucher, parceiro, no máximo chama de bilhete”, diz o chef Edson Leitte, 34, que na semana passada recebeu o mais rico presidenciável desta eleição na laje de seu projeto de culinária no Capão Redondo, um dos bairros mais pobres de São Paulo.

Ao levar sua campanha à periferia, o candidato do Novo tentava diluir uma pecha há tempos grudada nele: a de que sua candidatura é elitista, sentimento sintetizado por um meme que circula nas redes sociais —uma mulher de sapato preto de salto agulha, o típico estereótipo da “dondoca”,  atravessando sem muita graça uma tábua sobre o córrego de uma favela.

A metáfora é clara: seria o Novo tentando entrar nas franjas menos abastadas do Brasil. 

O candidato à Presidência da República João Amoêdo cumpre agenda no Capão Redondo, zona sul de São Paulo
O candidato à Presidência da República João Amoêdo cumpre agenda no Capão Redondo, zona sul de São Paulo - Jardiel Carvalho/Folhapress

Não foi de salto alto, mas com um sapatênis (sem meia) da Mr. Cat que Amoêdo chegou no Capão, calça bege para combinar com a camisa polo laranja (a cor do partido).

No pulso, um relógio da marca de luxo suíça Baume e Mercier, que em seu site anuncia modelos “para homem” e “para senhora”, os mais simples saindo por alguns milhares de reais.

Vania Lima, 44, acompanha do seu brechó no outro lado da rua, onde peças como uma bolsa da Pantera Cor de Rosa custam R$ 10, o zum-zum-zum eleitoral. Não tem ideia de quem seja o homem em campanha e quase cai para trás ao descobrir que ele é o presidenciável mais rico deste ciclo eleitoral. 

João Dionisio Filgueira Barreto Amoêdo, que fez carreira em instituições financeiras, declarou à Justiça Eleitoral ter R$ 425 milhões, patrimônio que inclui um apartamento avaliado em R$ 5,3 milhões e R$ 1,8 milhão na categoria “joia, quadro, objeto de arte, de coleção, antiguidade”. 

“Ai, que tudo! sem contar a beleza...”, Vania diz e suspira. Na verdade, a dona do brechó improvisado numa garagem confundiu Amoêdo com outro candidato do Novo ali presente, Vinicius Poit, que tenta a Câmara dos Deputados.

Mas o presidenciável, afirma ao ver sua foto no celular, “não é de se jogar fora”. Já descartável, para Amoêdo, é esse rótulo de coxinha que ganhou o partido que cofundou em 2011. 

“A tentativa de se colocar essa pecha”, ele diz à Folha, parte “daqueles que querem se perpetuar por aí” e temem a renovação política. “Vamos tirar privilégios dessa turma.”

Chega ao Capão ao lado de Rogério Chequer, que se afastou do Vem pra Rua, movimento que criou na esteira do impeachment de Dilma Rousseff, para concorrer pelo Novo ao governo paulista. Pontuou 1% na pesquisa Datafolha de quinta-feira (4), e Amoêdo, 3% na corrida presidencial.

A primeira parada é o Sonego Bistrô, um dos lugares mais “coxas” da região, como descreve um morador.

Queijo coalho na cachaça e mel (R$ 15) e churrasquinho no prato (R$ 25) estão no menu do Gastronomia Periférica, o projeto tocado no local pelos chefs Daniel Faria e Edson —aquele que questionou o “voucher” e ouviu de Amoêdo que o Novo já estuda adaptar o programa (entrariam os termos “bolsa” ou “vale”). 

Daniel, 37, lidera a roda de conversa. Critica a polícia que “chega bravona” na comunidade e lembra de uma chacina não muito longe dali “que matou a menina da igreja que foi buscar Coca-Cola no boteco”. 

Escudeiro do Estado mínimo, Amoêdo advoga pelo empreendedorismo como forma de ascensão social e concorda com os anfitriões: muita burocracia só atrapalha quem quer montar um negócio na favela. 

A maioria dos cabos eleitorais que balançam bandeiras laranjas é jovem, muitos vindos de outras regiões periféricas. Duas meninas contam que ganham R$ 68 por um dia de trabalho, menos da metade do que poderiam faturar em outras campanhas. “Mas o Novo é legal, é novo, né?”

Uma tempestade desaba, e a trupe novista se divide em vans e carros para ir ao próximo endereço, a Fábrica de Criatividade, que se vende como uma “consultoria de inovação do Brasil” e funciona numa rua arborizada que destoa de outras mais esburacadas, e com barracos, no Capão —sob jurisdição da segunda subprefeitura, das 32 que São Paulo tem, com mais famílias em situação de extrema pobreza.

Janaina Lima, a única vereadora do Novo em São Paulo, é da região e ali está. Outro presente: Bernardinho, o ex-técnico da seleção brasileira de vôlei que quase foi candidato do partido ao governo do Rio. 

Passou mais de uma hora esperando Amôedo chegar. Encontrou guarida numa lanchonete da frente que, conta, só tinha fritura, mas lhe fez um queijo-quente a pedido. Elogia a capacidade de adaptação do estabelecimento, característica de um dono de negócio esperto, afirma.

O ex-técnico de vôlei Bernardinho em evento de João  Amoêdo no Capão Redondo, zona sul de São Paulo
O ex-técnico de vôlei Bernardinho em evento de João Amoêdo no Capão Redondo, zona sul de São Paulo - Jardiel Carvalho/Folhapress

À Folha Bernardinho diz que “a comunidade é onde mais tem empreendedor”, e o Novo é a cara de lugares assim.“Sem saber o que é ideologia liberal, eles já são liberais. O cara começa com um carrinho de pipoca e quer ter uma rede.”

Mas para isso acontecer os moradores da periferia precisam de “menos burocracia, menos Estado” etc., tudo o que o Novo prega, diz.

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