Descrição de chapéu Lava Jato

Irmão de Lula é enterrado sob protesto após veto da Justiça ao ex-presidente

Justiça e PF negaram ida do petista; Dias Toffoli liberou quando o cortejo já estava a caminho da sepultura

Joelmir Tavares
São Bernardo do Campo (SP)

​O velório do irmão de Lula (PT), que ocorreu nesta quarta-feira (30), em São Bernardo do Campo, virou um ato de desagravo ao ex-presidente, impedido pela Justiça Federal de comparecer ao funeral.

Preso em Curitiba desde abril do ano passado, Lula teve negado o pedido de autorização para ir ao enterro de Genival Inácio da Silva, conhecido como Vavá, que morreu nesta terça-feira (29) aos 79 anos, vítima de câncer.

Petistas protestaram, dizendo que o Judiciário desrespeitou a Lei de Execução Penal, que prevê o direito dele de ir à cerimônia, e deu demonstração mais uma vez de que trata o político de forma desigual.

Vavá foi sepultado por volta das 13h, no no Cemitério Pauliceia, sob aplausos de familiares, amigos e membros do PT, após uma celebração religiosa na capela do cemitério. Houve gritos de “viva o Vavá” e “viva o Lula”.

Durante a cerimônia, uma mulher estendeu uma faixa onde se lia “Lula livre”. A expressão também estava em camisetas de outras pessoas no local e bandeiras. Uma máscara do ex-presidente chegou a ser colocada sobre o caixão.

O enterro de Genival Inácio da Silva, o Vavá, irmão de ex-presidente Lula
O enterro de Genival Inácio da Silva, o Vavá, irmão de ex-presidente Lula - Marlene Bergamo/Folhapress

Depois das orações, a presidente nacional do partido, senadora Gleisi Hoffmann (PR), fez um breve discurso, classificando como “uma maldade” a negativa da Justiça. Na sequência, um grupo puxou gritos de “Lula livre”.

Na fala, Gleisi disse que Lula sempre falou com muito carinho sobre Vavá, tido por ele como um pai, e que andava preocupado com os problemas de saúde do irmão.

A senadora lembrou a morte da ex-primeira-dama Marisa Letícia e disse que “a humilhação que fizeram com o presidente atingiu toda a família, que pagou um preço alto”.

“Hoje [quarta] ele me falou: ‘Eu não posso fazer nada. Não me deixaram ir. O que eu posso fazer é chorar e rezar pelo Vavá aqui. Mas a gente tem que denunciar o que está acontecendo’.” 

Na manhã desta quarta, o TRF-4 (Tribunal Regional Federal da 4ª Região) negou o recurso da defesa do petista para uma saída temporária da prisão. A juíza Carolina Lebbos, da Justiça Federal de Curitiba, já havia rejeitado o pedido.

A magistrada, responsável pela execução da pena de Lula, tomou a decisão após ouvir a Polícia Federal, que considerou a existência de riscos na eventual saída e no deslocamento até São Paulo. O Ministério Público Federal também se posicionou contra a liberação.

Os advogados entraram também com um pedido no STF (Supremo Tribunal Federal), reivindicando "o direito humanitário" de ir ao velório e fazer "uma última despedida".

 Gleisi Hoffmann disse no funeral que as medidas simbolizam “perseguição a Lula”.

Segundo ela, a legenda já não tinha, no fim da manhã, esperança de que o ex-presidente conseguisse chegar a tempo. Era impossível adiar o enterro, em função das condições do corpo.

“Ou seja, ganharam jogando para a frente, protelando uma decisão, o que é muito ruim”, afirmou, criticando a demora no julgamento do recurso.

O deputado federal Paulo Pimenta (PT-RS) disse que é gravíssima a medida, que chamou de uma violência contra o petista. “É uma decisão criminosa do Poder Judiciário, uma violência do ponto de vista humanitário”, afirmou ele, que é líder da sigla na Câmara.

“Está ficando claro que no Brasil nós temos uma lei para qualquer pessoa e outra lei para o Lula”, acrescentou.

O PT, em nota após o recurso da defesa ao STF, disse esperar que fosse respeitado o Estado de Direito” e que o pedido fosse autorizado pelas cortes superiores do país, “ainda que tardiamente".

No texto, assinado por Gleisi, a sigla informou ainda que não faria mobilização para a presença de seus filiados no local. Mais cedo, pelo Twitter, ela chegou a convocar os petistas para estar no cemitério para uma homenagem a Vavá, no que seria um ato "contra a injustiça, pela liberdade e pelos direitos de Lula". 

Minutos depois, a dirigente apagou a postagem, atendendo a orientação dos advogados. Ela disse que recuou ao saber que a defesa havia entrado com recurso no STF. “A assessoria do [Dias] Toffoli [presidente do Supremo] falou para o nosso advogado que estava cogitando liberar. Só que não iria liberar se tivesse a convocação de um ato político”, afirmou, no fim da manhã.

Gleisi disse que não quis “dar argumento” para uma possível decisão de veto do STF. “Para que isso não servisse de justificativa. Embora eu já estivesse cética sobre a liberação.”

Em seguida, saiu a decisão de Dias Toffoli, liberando Lula para ir ao enterro, mas o ato chegou no momento em que o cortejo saía da capela do cemitério para a sepultura.

A senadora falou ainda que a homenagem a Vavá seria em razão do constrangimento a que ele foi submetido quando teve conversas suas com Lula vazadas pela PF.

O PT informou também que “ofereceu ajuda financeira com os custos da operação, mas a PF de [Sergio] Moro e a Justiça mais uma vez violam os direitos básicos do ex-presidente”.

Entre os membros do PT no funeral, estavam o ex-prefeito Fernando Haddad, o vereador Eduardo Suplicy, o ex-deputado José Genoino e os ex-ministros Gilberto Carvalho, Paulo Vannuchi e Aloizio Mercadante. 

José Ferreira da Silva, o Frei Chico, irmão de Lula, e o advogado Roberto Teixeira, amigo do ex-presidente, também compareceram.

No fim de 2018, o ex-presidente pleiteou a ida ao velório do advogado e amigo Sigmaringa Seixas, mas o pedido foi negado pela Justiça Federal, em função na inexistência de grau de parentesco.

Nas petições de agora, a defesa disse que o caso "cumpre os requisitos objetivos previstos em lei para a permissão de saída”.

Advogados ouvidos pela Folha afirmaram que, pela lei, o petista teria o direito, concedido rotineiramente a outros presos no país.

O vice-presidente da República, Hamilton Mourão, defendeu a ida de Lula ao velório, afirmando se tratar de uma "questão humanitária". Nesta terça, enquanto ocupava interinamente a Presidência, o general da reserva afirmou: "É uma questão humanitária. Perder um irmão é sempre uma coisa triste. Eu já perdi o meu e sei como é que é".

Durante a ditadura militar, quando foi preso após liderar uma greve, Lula conseguiu autorização da Justiça para sair da cadeia e ir ao enterro de sua mãe, em 1980.

"Não decisão"

A notícia da decisão de Toffoli foi recebida em cima da hora, quando membros do partido, familiares e amigos já acompanhavam o corpo na direção da sepultura, minutos antes das 13h.

Na sequência, membros do PT no local criticaram a demora na análise do pedido, qualificando o despacho do ministro como “uma não decisão”, já que agora ela seria inócua.

Segundo a presidente nacional da legenda, Gleisi Hoffmann, não havia mais condições de postergar o enterro para que desse tempo de Lula chegar.

A opção de que o ex-presidente se encontre com familiares mesmo após o sepultamento, concedida por Toffoli, está descartada, na avaliação da senadora.

“Infelizmente não deu tempo para que o presidente pudesse se deslocar para cá para dar o último adeus ao Vavá. Nós já estávamos com o corpo no túmulo, não tinha como parar o enterro”, disse Gleisi.

“Amanhã [quinta-feira] já é dia de visita familiar. A família estará com o presidente, vai falar com ele. O que o Lula queria e nós queríamos era que ele pudesse ter visto o irmão pela última vez”, seguiu ela.

“O jogo da Polícia Federal foi este: de não permitir que a gente tivesse tempo para trazer o Lula aqui”, afirmou a senadora.

Tópicos relacionados

Comentários

Os comentários não representam a opinião do jornal; a responsabilidade é do autor da mensagem.