Kim critica ONU, globalismo e falta de renovação com Maia

Candidato à presidência da Câmara, deputado eleito será o 2º mais jovem da Casa

Anna Virginia Balloussier
São Paulo

Kim Kataguiri (DEM-SP), 22, será o segundo deputado mais novo na legislatura que tomará posse no dia 1º de fevereiro, à frente apenas de Luisa Canziani (PTB-PR), filha de político. 

Na mesma data, com um possível impasse judicial se não seria novo demais para o cargo, o cofundador do MBL (Movimento Brasil Livre) disputa a presidência da Câmara à revelia do próprio partido, que tenta emplacar a recondução de Rodrigo Maia.

O deputado federal eleito Kim Kataguiri (DEM-SP), um dos coordenadores nacionais do MBL
O deputado federal eleito Kim Kataguiri (DEM-SP), um dos coordenadores nacionais do MBL - Karime Xavier/Folhapress

Kim defendia no voto aberto para constranger colegas que queiram, num momento em que a renovação é a "palavra de ordem", apostar no mais do mesmo. O Supremo Tribunal Federal, contudo, descartou essa hipótese. "Não tem por que a questão da presidência continuar sendo de gabinete, de carpete, obscura como é hoje", diz o parlamentar de primeira viagem.

Com um discurso de austeridade, Kim conta que dispensou auxílio-moradia e apartamento funcional: vai dividir um apartamento em Brasília com quatro assessores, cada um pagando R$ 900. 

Ele concorda com o presidente Jair Bolsonaro nas críticas à ONU (que diz ser antidemocrática), na visão de que o Brasil foi empesteado por socialismo nos anos petistas e no uso de redes sociais para "comunicação direta" com a população. Concedeu esta entrevista por áudios de WhatsApp. 

 

Por que se candidatar à presidência da Câmara? 

Não faz sentido você ter como principal palavra de ordem nas eleições a mudança e eleger para um terceiro mandato o atual presidente da Câmara. Seria contra a vontade da população. E ao mesmo tempo acho que precisamos de um novo perfil que saiba comunicar melhor as reformas que o Brasil tanto precisa, principalmente a previdenciária, que não foi aprovada na última legislatura justamente por falha de comunicação tanto da Câmara quanto do governo.

Eu, além de representar parte desse processo de renovação, tenho a capacidade de levar essa comunicação para fazer com que seja favorável eleitoralmente votar nessa reforma, e não o contrário, já que ela foi demonizada na última legislação. 

O DEM, seu partido, não o apoia. Uma candidatura independente é viável

É viável, sim. Você tem outras. A negociação se dá muito mais individualmente do que por bancadas, e não necessariamente com fechamento de apoio. 

O Supremo Tribunal Federal enterrou a possibilidade de voto aberto nesta disputa. Por que o sr. o defendia

O eleitor tem direito de saber em quem seu deputado vai votar. Durante a campanha eles declaram apoio a seus respectivos candidatos a presidente, não tem por que a questão da presidência da Câmara continuar sendo de gabinete, de carpete, obscura como é hoje. Já funciona o voto aberto na Câmara Municipal de São Paulo, na Assembleia Legislativa, não tem por que não funcionar na Câmara dos Deputados.


O sr. tem 22 anos, e o mínimo para ser presidente do país é 35, afinal, o presidente da Câmara está na linha sucessória. O impasse sobre sua idade não pode afetar sua candidatura? 

Já há jurisprudência do Supremo favorável, e eu consultei o corpo técnico [da Câmara], o entendimento também é de que posso me candidatar tranquilamente, sem problema nenhum.

O MBL apoiou o candidato Bolsonaro. Como avalia o começo do governo do presidente Bolsonaro?

Tem erros e acertos, mas com certeza mais acertos. O principal deles foi ter dado liberdade para os ministros escolherem de forma técnica, não manter cabide de empregos como antigamente, especialmente na escolha de Sérgio Moro e Paulo Guedes.

O pior dos erros: as contradições de comunicação. Ainda falta unidade no governo para determinar o que cada um vai falar da sua área, qual que é a visão do governo sobre respectivos assuntos sem que opiniões pessoais de ministros e do próprio presidente acabem entrando em contradição.

O MBL postou na internet que "tem gente que acha que viramos oposição só porque criticamos uma coisa ou outra". O que tem feito o MBL levar pedrada?
Postura crítica e independente em relação ao governo. Não temos compromisso com erro, o que faz com que apoiadores mais radicais do governo nos ataquem.

Vocês têm criticado indicações a cargos públicos do filho do vice Mourão ou de amigos da família Bolsonaro. E outros assuntos que se voltaram contra o novo governo, como o caso Queiroz ou as sucessivas denúncias contra seu colega de partido, o ministro Onyx Lorenzoni?
O caso [do assessor Fabrício] Queiroz foi tratado à exaustão, eu mesmo já concedi diversas entrevistas dizendo que o caso está extremamente mal explicado e que o Ministério Público tem evidências para levar para frente uma investigação. Até onde sei, não existe uma denúncia contra o ministro Lorenzoni.  

O ministro Lorenzoni admitiu caixa dois e agora está tendo que se explicar por usar notas de  um amigo para receber verbas de gabinete. Se fosse um político da oposição, já não teria entrado no alvo do MBL?

Quando ele admitiu o caixa dois ele era deputado, não é fato novo. Sobre as novas da verba do gabinete, a gente tratou na página [do MBL]. No canal, no YouTube, não, mas na página, que ainda é o principal veículo, a gente tratou, sim.

Suas decisões parlamentares serão discutidas com o MBL ou uma coisa é o Kim parlamentar, a outra é o movimento?

Serão. Será como se eu participasse de uma bancada temática liberal.

Na prática, vocês decidirão um voto seu no plenário, por exemplo, juntos?

Só em questões muito importantes e polêmicas dentro da direita. De resto, não há necessidade.

O sr., cofundador de um movimento liberal, concorda com as críticas do chanceler Ernesto Araújo ao globalismo? 

Como liberal rejeito, sim, que a gente tenha um globalismo, ou seja, uma força política supranacional que antidemocraticamente dite o que o Brasil precisa fazer. A ONU não é eleita democraticamente, a população não vota para a cúpula da ONU. Quem deve ter a soberania é seu país em si. O que não significa isolamento ou não comércio com nenhum outro país.

Pelo contrário, pode ter o comércio mais intenso possível por relações bilaterais sem que você siga a qualquer tipo de medida autoritariamente definida por uma organização supranacional. Não existe nenhum tipo de conflito em ser contra o globalsimo e liberal.  

Você acha a ONU autoritária?

A eleição não é feita democraticamente pela população dos países.

 Acha que o Brasil deve se retirar dela, ou ao menos de órgãos, como o Conselho de Direitos Humanos, como Bolsonaro já ventilou?

Se não se retirar, submeter todas as decisões ao Congresso. Não apenas os tratados supralegais.

O MBL começou como um movimento liberal, mas passou a se envolver em questões da seara conservadora, como na polêmica do Queermuseu. Continuarão?

Discordo do pressuposto da pergunta. Não necessariamente precisa ser um conservador para discordar de que é absolutamente imoral, injusto e economicamente ineficiente usar dinheiro público para financiar  determinadas iniciativas artísticas. Isso, aliás, é uma medida antiliberal, um grupo de burocratas de Brasília decidir o que é arte.

Mas por que o Queermuseu, que claramente tinha uma agenda contraposta à ideologia conservadora, como alvo e não outras iniciativas artísticas?

A gente sempre criticou outras iniciativas artísticas, só não teve o mesmo impacto. A gente conseguiu inclusive fazer com que um programa de TV da [blogueira fitness] Gabriela Pugliesi fosse cancelado, outras iniciativas de financiamento de Carnaval etc. Só não teve a mesma atenção da imprensa. Por isso você não sabe, inclusive.

Você concorda quando o presidente diz que há socialismo no Brasil?

Dá para a gente dizer que houve um socialismo porque, economicamente falando, você teve um estatismo exacerbado em todas as áreas da economia e mesmo uma tentativa deliberada do Estado de agir em todas as esferas da sociedade, que inclusive caracteriza uma tentativa de implementação de um governo totalitária.

Existe até uma história famosa entre liberais, que é uma reunião do Milton Friedman com o [Ludwig von] Mises e diversos outros economistas liberais. No meio da discussão, Mises bateu na mesa e gritou "vocês são tudo um bando de socialistas", porque ele tinha uma visão liberal mais radical que todos ali na mesa. É comum, no meio liberal, citar socialismo mesmo quando se refere economicamente a keynesianismo, que é o que de fato aconteceu nos últimos nos, de maneira deturpada, nos governos petistas.

O sr. sempre defendeu  a Reforma da Previdência. Qual dos projetos que circulam no governo Bolsonaro apoia mais?

Gosto da reforma do Armínio Fraga e do Paulo Tafner. Ela é a mais alinhada com aquilo que pensa o Paulo Guedes. Claro que a gente precisa alinhar também com a parte política do governo, para que seja viável de passar no Congresso. É um regime de capitalização, algo sustentável independentemente do número de pessoas que estejam nele. Outro ponto é ter transição tranquila, longa, que não gere grandes rupturas. É importante do ponto de vista social, para que a sociedade se adapte a ela.

O sr. pretende usar as redes sociais para se comunicar sobre sua atividade parlamentar, assim como Bolsonaro fala na "comunicação direta"? 

Pretendo, é o meio mais rápido e eficiente, além de ser o mais transparente.

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