Descrição de chapéu Governo Bolsonaro

Áudios confrontam versão de Bolsonaro sobre conversa com Bebianno

Em conversas divulgadas por revista, presidente diz que querem empurrar "batata quente" sobre esquema de laranjas do PSL

Gustavo Uribe
Brasília

O presidente Jair Bolsonaro conversou com o ex-ministro da Secretaria-Geral Gustavo Bebianno pelo aplicativo de mensagens WhatsApp três vezes no dia 12 de fevereiro, um dia antes de sua alta médica no hospital Albert Einstein, na capital paulista.

Os áudios das conversas entre os dois, divulgados pela revista Veja, confrontam a versão do presidente de que ele não havia falado naquele dia com o então auxiliar. As gravações mostram ainda que ambos conversaram também sobre o esquema de candidaturas laranjas do PSL, revelado pela Folha e que levou à queda de Bebianno.

O presidente Jair Bolsonaro e seu ex-ministro Gustavo Bebianno (ao fundo) em evento no Planalto
O presidente Jair Bolsonaro e seu ex-ministro Gustavo Bebianno (ao fundo) em evento no Planalto - Adriano Machado - 2.jan.2019/Reuters

No diálogo sobre o escândalo, o presidente faz referência a denúncia de que uma candidata laranja em Pernambuco recebeu do partido R$ 400 mil de dinheiro público na eleição do ano passado. Bolsonaro afirma que querem "empurrar essa batata quente" em seu colo.

"Querer empurrar essa batata quente desse dinheiro lá pra candidata em Pernambuco pro meu colo, aí não vai dar certo. Aí é desonestidade e falta de caráter. Agora, todas as notas pregadas nesse sentido foram nesse sentido exatamente, então a Polícia Federal vai entrar no circuito, já entrou no circuito, pra apurar a verdade. Tudo bem, vamos ver daí… Quem deve paga, tá certo? Eu sei que você é dessa linha minha aí. Um abraço", disse.

Em entrevista ao jornal O Globo, Bebianno disse na semana passada que havia conversado três vezes com o presidente.

No dia seguinte, no entanto, o vereador Carlos Bolsonaro (PSC-RJ) disse que o então ministro havia mentido, o que foi chancelado pelo presidente, em entrevista à TV Record.

Nas gravações divulgadas, que seriam das conversas daquele dia, Bolsonaro e Bebianno falaram sobre o cancelamento de viagem de uma comitiva de auxiliares à Amazônia e sobre uma audiência que o ministro teria com o vice-presidente de Relações Institucionais do Grupo Globo, Paulo Tonet Camargo.

"Gustavo, o que eu acho desse cara da Globo dentro do Palácio do Planalto: eu não quero ele aí dentro. Qual a mensagem que vai dar para as outras emissoras? Que nós estamos se aproximando da Globo. Então não dá para ter esse tipo de relacionamento", disse.

No mesmo áudio, Bolsonaro chamou a Globo de "inimiga" e disse que o vice-presidente é o "maior cara que me ferrou" antes, durante e depois da campanha eleitoral. "Como presidente da República: cancela, não quero esse cara aí dentro, ponto final. Um abraço aí", acrescentou.

No caso da viagem à Amazônia, que seria feita no dia 13 de fevereiro, Bolsonaro pediu para cancelá-la e disse que, ao realizá-la, a comitiva de ministros estaria criando "a expectativa de uma obra", o que seria posteriormente cobrado do presidente.

"Daí vai ficar o povo todo me cobrando. Isso pode ser feito quando nós acharmos que vai ter recurso, o orçamento é nosso, vai ser aprovado. Então, essa viagem não se realizará", disse.

Troca de mensagens

Em outros diálogos, também divulgados pela publicação, Bolsonaro saiu em defesa do filho e afirmou que ele não tinha a intenção de derrubar o ministro. Para ele, trocar mensagens pelo WhatsApp não significa que eles conversaram.

"O caso incitando a saída é mais uma mentira. Você conhece muito bem a imprensa, melhor do que eu. Agora: você não falou comigo nenhuma vez no dia de ontem. Ele [Carlos] esteve comigo 24 horas por dia. Então não está mentindo, nada, nem está perseguindo ninguém", disse.

Em resposta, de acordo com a Veja, Bebianno lembrou que trocou mensagens com o presidente três vezes e questionou o motivo do ataque do filho. Segundo ele, Carlos está errado e "não pode atacar um ministro dessa forma"

"Isso está errado. Por que esse ódio? Qual a relevância disso? Vir a público me chamar de mentiroso?", questionou.

Bolsonaro ainda acusou Bebianno de "mandar" no site Antagonista por ele ter divulgado informação de que o presidente não atendeu o então ministro durante a crise das candidaturas laranjas. A informação, na verdade, foi publicada originalmente pela Folha, o que foi destacado em outro áudio por Bebianno.

"Eu não plantei nada. Ela replica o que a Folha falou. Está escrito aqui: 'segundo a Folha, segundo a Folha, o ministro Gustavo Bebianno tentou ligar para Jair Bolsonaro neste domingo para explicar o caso, mas o presidente não atendeu'. Quem mencionou isso não foi o Antagonista, foi a Folha", disse Bebianno.

Ainda em relação à crise no governo, Bebianno alegou inocência e disse que, como presidente nacional do partido, ficou responsável exclusivamente pela campanha à sucessão presidencial. Bebianno presidiu o PSL de janeiro a outubro de 2018.

"A prestação de contas que me competia foi aprovada com louvor. Agora, cada estado fez a sua chapa. Em nenhum partido, capitão, a nacional é responsável pelas chapas estaduais. O senhor sabe disso melhor do que eu", disse.

Segundo o ex-ministro, se foi escolhida uma candidata laranja em Pernambuco, a responsabilidade é do atual presidente nacional do PSL, Luciano Bivar. O comando formal da sigla no estado é do advogado particular e aliado de Bivar, Antonio de Rueda.

"No caso de Pernambuco, pelo Bivar, logicamente. Se o Bivar escolheu candidata laranja, é um problema dele, político. E é um problema legal dela explicar o que ela fez com o dinheiro. Da minha parte, eu só repassei o dinheiro que me foi solicitado por escrito", disse. 

Bebianno disse ainda que Bolsonaro "está bem envenenado" e que a consciência dele está tranquila.

"E tomara que a polícia chegue mesmo à constatação do que foi feito, mas eu não tenho nada a ver com isso. O Luciano Bivar que é responsável lá pela chapa dele", afirmou.

Parlamentares da oposição criticaram o presidente Jair Bolsonaro (PSL) e o acusaram de mentir após a divulgação dos áudios. 

"Ele chamou o ministro de mentiroso, mas ele que é o mentiroso", afirmou à Folha o líder do PSOL, Ivan Valente (SP).

O líder do PT na Câmara, Paulo Pimenta (RS), afirmou que o ex-ministro mostrou para o Brasil que Bolsonaro mentiu. "Bebianno desmente Bolsonaro em áudio para todo o Brasil saber que temos um presidente mentiroso", escreveu nas redes sociais.

A queda

A exoneração de Bebianno foi confirmada nesta segunda (18) pelo porta-voz da Presidência, general Otávio Rêgo Barros, naquilo que Bolsonaro já havia sinalizado nos bastidores. 

Bebianno caiu após uma crise instalada no Palácio do Planalto depois que a Folha revelou a existência de um esquema de candidaturas laranjas do PSL para desviar verba pública eleitoral. O partido foi presidido por ele durante as eleições de 2018, em campanha de Bolsonaro marcada por um discurso de ética e de combate à corrupção.

A situação se agravou com a atuação de Carlos Bolsonaro, que, além de desmentir Bebianno sobre as conversas com o presidente, divulgou um áudio no qual o pai se recusa a conversar com o ex-auxiliar. 

A queda do ministro já havia sido adiantada por Bolsonaro a ele e auxiliares desde sexta (15), sendo negociados desde então detalhes da demissão.

Reprodução de retuíte de Jair Bolsonaro; ele compartilhou publicação do filho Carlos com crítica a declaração de ministro
Reprodução de retuíte de Jair Bolsonaro; ele compartilhou publicação do filho Carlos com crítica a declaração de ministro. - Reprodução Twitter

Em nota, o grupo Globo diz considerar que "não tem nem cultiva inimigos".

"A própria natureza de sua atividade jamais permitiria qualquer postura em contrário. Hoje, como sempre, sua missão é levar ao público jornalismo independente, dando transparência a tudo o que é relevante para o país, e entretenimento de qualidade", afirma.

Sobre a visita de Paulo Tonet Camargo a Bebianno, o grupo diz que ela constava da agenda pública do ministro, divulgada na internet. "Visitas de diretores do Grupo Globo a autoridades dos diferentes poderes, servidores públicos, executivos de empresas e representantes da sociedade civil são rotineiras. E, nesse aspecto, não nos diferenciamos de qualquer grupo empresarial que pretenda ouvir todas as vozes de uma sociedade livre, de forma transparente e com agenda pública, mantendo relações estritamente institucionais e republicanas."

O site O Antagonista também divulgou nota na qual rebate Bolsonaro e afirma que "ninguém manda" no portal. 

"Nos nossos quatro anos de existência, o site foi alvo da difamação de petistas e partidários de Michel Temer. Agora é atacado por bolsonaristas aloprados —que, aparentemente, se esqueceram de que estivemos entre os únicos a tratar Jair Bolsonaro como um candidato legítimo à Presidência da República", finaliza a nota.

Colaborou ANGELA BOLDRINI

Tópicos relacionados

Comentários

Os comentários não representam a opinião do jornal; a responsabilidade é do autor da mensagem.