Descrição de chapéu Rio de Janeiro Lava Jato

Cabral diz que dinheiro e poder se tornaram vício e cita caixa 2 a Paes

Ex-governador do Rio de Janeiro acusa Pezão e ex-secretários, mas exime esposa

Italo Nogueira Ana Luiza Albuquerque
Rio de Janeiro

O ex-governador do Rio de Janeiro Sérgio Cabral (MDB) afirmou nesta terça-feira (26) que pediu propina por apego a poder e dinheiro, o que para ele se tornou um vício.

O emedebista disse que decidiu confessar a cobrança de propina em respeito à sua família e pelo sentido histórico dos processos a que responde.

“Em nome da minha mulher, da minha família e da história, decidi falar a verdade. Hoje sou um homem muito mais aliviado”, disse ele ao juiz Marcelo Bretas.

O ex-governador do Rio Sérgio Cabral durante depoimento
O ex-governador do Rio Sérgio Cabral durante depoimento - Reprodução

Cabral afirmou que o ex-governador Luiz Fernando Pezão (MDB), preso desde dezembro, também recebia propina. Envolveu ainda outros ex-secretários que já foram alvos de investigações, como Régis Fichtner (Casa Civil) e Wilson Carlos (Governo).

Ele afirmou que o ex-prefeito Eduardo Paes, que foi seu secretário de Esportes e Lazer, não recebeu suborno. Disse, porém, que ajudou a arrecadar pelo menos R$ 4 milhões para o caixa dois de sua campanha eleitoral em 2008, quando disputou a Prefeitura do Rio de Janeiro.

Segundo Cabral, o empresário Miguel Iskin doou mais de R$ 1 milhão e o empresário Arthur Soares, de R$ 3 milhões a R$ 4 milhões.

Cabral também negou que sua mulher, Adriana Ancelmo, fizesse parte da organização criminosa descrita pela Procuradoria.

"Eu prejudiquei muito minha mulher, inclusive por não ter tido a sensatez de ouvir o senhor na primeira audiência, quando o senhor disse para mim: 'É a sua oportunidade de falar'. Eu contaminei esse escritório [de Adriana] quando pedi repasse de caixa dois que ela não sabia", disse.

O ex-governador também afirmou que Xuxa e João Roberto Marinho foram clientes de sua mulher e podem testemunhar sobre sua eficiência. Os dois foram clientes da banca advocatícia.

Cabral foi interrogado, a pedido de sua defesa, na ação penal da Operação Fatura Exposta, que investiga o pagamento de propina no setor de saúde. Neste caso, ele foi denunciado sob acusação de ter recebido R$ 16 milhões.

O emedebista decidiu confessar ter recebido propina após passar mais de dois anos negando ter solicitado suborno. Antes, a tese defensiva era de que ele usara em benefício próprio sobras de caixa dois de campanha eleitoral.

Questionado por Bretas sobre os motivos para não ter assumido o recebimento de propina anteriormente, Cabral respondeu que "dói muito" admitir a prática de corrupção.

"Alguém que tem uma carreira política reconhecida pela população (...) É uma dor muito profunda", afirmou.

Cabral disse a Bretas que acertou uma cobrança de 5% de propina sobre contratos de serviços na Secretaria de Saúde junto com o ex-secretário Sérgio Côrtes, dos quais 3% ficaria com ele e 2% com seu subordinado.

“Ao anunciá-lo [como secretário], eu cometi a primeira ação grave e totalmente descabida para um chefe de estado. Eu o apresentei a um empresário, que era o Arthur Soares, que na ocasião já liderava a gestão de serviços. Fiz questão de dizer 3% para mim e 2% para você em relação aos serviços da área de saúde. Esse meu erro de postura, de apego a poder, dinheiro, a tudo isso... É um vício”, disse ele.

O emedebista confirmou ainda ser dono dos cerca de R$ 300 milhões entregues pelos doleiros Renato e Marcelo Chebar. Negou, contudo, ter arrecadado R$ 16 milhões como acusado neste caso pelo MPF.

Cabral disse acreditar, ainda, que houve esquema de corrupção em OSS (Organizações Sociais de Saúde) envolvendo figuras religiosas como o arcebispo do Rio de Janeiro, cardeal Dom Orani Tempesta.

"Não tenho dúvida que deve ter havido esquema de propina com a OS da Igreja Católica, da Pró-Saúde. O Dom Orani devia ter interesse nisso, com todo respeito ao Dom Orani, mas ele tinha interesse nisso (...) Essa Pró-Saúde com certeza tinha esquema de recursos que envolvia, inclusive, religiosos", afirmou.

Ao longo de 14 depoimentos, Cabral já havia classificado a acusação do Ministério Público Federal de “maluquice” e negado ter agido “como corrupto”. No último depoimento em que respondeu às perguntas do juiz Marcelo Bretas, ele disse ter se apropriado de R$ 20 milhões de um total de R$ 500 milhões arrecadado em campanhas eleitorais ao longo dos últimos anos.

O ex-governador decidiu mudar a estratégia em dezembro ao entregar seu caso ao advogado Márcio Delambert, o quinto a assumir sua defesa desde sua prisão, em novembro de 2016.

A intenção é que Cabral assuma crimes, detalhe seus participantes e contribua com novas informações a fim de reduzir pena. A possibilidade de se fechar um acordo de delação no curto prazo é vista como remota.

Na última quinta-feira (21), em depoimento ao Ministério Público Federal, o ex-governador admitiu pela primeira vez que recebia propina e distribuía dinheiro a aliados políticos. O depoimento foi dado na investigação sobre Fichtner, preso no dia 15.

Por meio de nota, Paes afirmou que "todos os valores recebidos durante a campanha de Eduardo Paes em 2008 foram devidamente declarados na justiça eleitoral, sendo todos aprovados."

"Como afirmou em seu depoimento o próprio ex-governador Sérgio Cabral, aliás como já vários delatores o fizeram anteriormente, Eduardo Paes jamais pediu qualquer tipo de propina ou beneficiou qualquer empresa. Muito menos fez parte de qualquer organização criminosa como pode se ver nos trechos do depoimento à seguir", disse o ex-prefeito.

De acordo com a prestação de contas apresentada pela campanha de Paes em 2008 ao TSE (Tribunal Superior Eleitoral), o total de receitas da candidatura foi de R$ 11,4 milhões, sendo o teto de gastos de R$ 12 milhões.

A Pró-Saúde disse, em nota, que "tem colaborado com as investigações e, em virtude do sigilo do processo, não se manifestará sobre os fatos".

"A entidade filantrópica reafirma neste momento o seu compromisso com ações de fortalecimento de sua integridade institucional, bem como com a prestação de um importante serviço à saúde do Brasil", diz a nota da entidade.

Condenações até o momento

Cabral já foi condenado em nove processos da Lava Jato, dos quais oito na Justiça Federal do Rio e um em Curitiba, assinada pelo então juiz Sérgio Moro, hoje ministro da Justiça.

Ele é acusado de cobrar 5% de propina sobre os grandes contratos do estado. Cabral responde a 29 ações penais por corrupção passiva e ativa, lavagem de dinheiro, formação de quadrilha e organização criminosa

O ex-governador dispunha de um esquema de doleiros e de compra de joias como forma de lavar os valores recebidos ilicitamente.

A última sentença desfavorável a Cabral ocorreu em dezembro passado. Somadas, suas penas chegam a 198 anos e 6.

A suspeita é que o esquema de Cabral possa ter girado R$ 500 milhões em propinas e recursos ilegais.

Cabral é acusado, entre outras coisas, de comandar esquema de propina em obras como a reforma do Maracanã para a Copa do Mundo de 2014, a urbanização de comunidades carentes via PAC das Favelas, a construção da Linha 4 do metrô do Rio e a criação do Arco Metropolitano, via expressa que liga os principais municípios da região metropolitana do Rio. 

Ele também já foi condenado junto com sua mulher, Adriana Ancelmo, por lavagem de dinheiro por meio da compra de joias sem nota fiscal, além da ocultação de valores no Brasil e no exterior, inclusive por meio de barras de ouro guardadas em cofres. 

Cabral também responde a processo que apurou repasses de propina das construtoras Andrade Gutierrez, Odebrecht e Queiroz Galvão nas obras de terraplanagem do terreno do Comperj, refinaria inacabada da Petrobras em Itaboraí, cidade da região metropolitana do Rio.

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